Antes e depois de Cristo
Grande clamor e indignação suscitou a proposta (entretanto retirada) da Comissão Europeia de aconselhar/proibir aos seus funcionários a menção do Natal nos tradicionais votos próprios da quadra respetiva, para desse modo respeitar quem, nas agora multiculturais sociedades europeias, não se reconhece no cristianismo. Uma proposta que nem chegou a ver a luz do dia, mas que foi suficiente para criar em muitos ainda mais desconfiança sobre o rumo que está a tomar o projeto de unidade europeia.
Uma observação que deve ser suscitada por tal proposta tem a ver com as razões pelas quais se justifica celebrar o Natal, mesmo para quem não creia em Jesus Cristo como Deus feito homem e no seu nascimento como manifestação do supremo amor de Deus pela humanidade. Esse nascimento e as transformações provocadas pelo cristianismo marcaram a história da humanidade em muitos âmbitos e não é por acaso que uma boa parte desta passou a dividir o tempo em duas eras: antes e depois de Cristo (no entanto, também há quem pretenda designar como “era comum” o período até agora designado como “depois de Cristo”).
O historiador Jaroslav Pelikan salientou que a alteração do calendário é um indício de que «ninguém pode escapar ao facto de que Jesus de Nazaré alterou para sempre a história do mundo». Isso pode ser verificado por um observador externo, independentemente da sua adesão à fé cristã
Assim, num célebre artigo escrito em 1942 (com o título Perché non possiamo non dirci cristiani), o filósofo italiano laico Benedetto Croce considerava o advento do cristianismo «a maior revolução da história da humanidade», diante da qual todas as outras revoluções são particulares e limitadas, com que não têm paralelo a revolução grega do pensamento e a revolução romana do direito, e da qual dependem as revoluções modernas. É assim porque se trata de uma revolução que opera «no centro da alma, na consciência moral». E – afirma ainda este pensador laico – é uma revolução «tão abrangente e profunda, tão fecunda de consequências, tão inesperada e irresistível no seu atuar, que não é de admirar que possa parecer um milagre, uma revelação do Alto, uma intervenção direta de Deus nas coisas humanas». Essa revolução centra-se no amor para com todas as pessoas, sem distinção de classes, livres e escravos, e no amor para com Deus, que é o Deus de amor e está próximo de todas as pessoas. E acrescenta ainda Benedetto Croce: «As revoluções e descobertas que se seguiram nos tempos modernos, na medida em que envolveram todo o ser humano, a sua própria alma, não podem ser pensadas sem a revolução cristã, numa relação de dependência com ela, à qual cabe o primado, porque o impulso originário foi e continua a ser seu».
Muitos fenómenos hoje impensáveis, ou quase unanimemente condenadas, não o eram antes dessa revolução. Nem sempre disso nos apercebemos, tão habituados que estamos a determinadas formas de sentir e reagir. É verdade que essas transformações não se deram de um dia para o outro e que os cristãos muitas vezes não foram coerentes (às vezes inconscientemente, outras não) com as implicações da mensagem que receberam e pretendiam transmitir. E também é verdade que essas implicações estão hoje ainda longe de estar esgotadas, como constantemente podemos verificar. Mas também por isso deve continuar a ser celebrado o nascimento de Jesus Cristo, porque esse nascimento não só marcou a história da humanidade, como deve continuar a marcá-la.
De entre os fenómenos hoje impensáveis ou quase unanimemente condenados, mas frequentes e geralmente aceites em várias sociedades pré-cristãs, podem destacar-se: o infanticídio e o abandono de crianças à nascença, especialmente quando atingidas por alguma deficiência; o abandono de idosos e doentes (os hospitais e a assistência aos doentes, como hoje as conhecemos eram desconhecidos na Roma antiga); a morte de pessoas humanas como motivo de divertimento (nas lutas de gladiadores); a poligamia e várias formas de “coisificação” da mulher; os sacrifícios humanos oferecidos aos deuses; a deificação do titular supremo do poder político (por isso, não sujeito a qualquer limitação); a escravatura (a que em muitos casos estava sujeita a maioria da população, como na Grécia, “pátria da democracia”); o desprezo para com os pobres; ou o desprezo para com o trabalho manual. Alguns episódios emblemáticos podem ser, a este respeito evocados: a forma como os cristãos no Império Romano se aproximavam e cuidavam das vítimas da peste (o que suscitava admiração por contrastar abertamente com a atitude de abandono dessas vítimas, então corrente); ou as palavras de São Paulo a Filémon, exortando-o a tratar o seu escravo como um irmão (sem diretamente contestar juridicamente a escravatura, colocava assim a base que, no plano dos princípios éticos, haveria de implicar a sua abolição). Afirma o escritor luterano Alvin Schimdt, no livro How Christianity Changed the World, (Zondervan, 2004) que quando hoje alguém, independentemente da sua fé, de forma espontânea, não fica indiferente e revela compaixão para com as vítimas de tragédias humanas (catástrofes naturais, massacres, guerras ou fome), a essa reação não é indiferente a influência de dois mil anos de cristianismo.
Não há, pois, dúvida de que o nascimento de Jesus Cristo marcou a história da humanidade e que esta seria bem diferente se Ele não tivesse nascido. E também que esse nascimento e a mensagem que trouxe deverá continuar a marcar essa história, pois o seu potencial transformador está longe de estar esgotado. Mas é assim também porque a verdade é que alguns dos fenómenos acima mencionados que, por influência do cristianismo, têm sido unanimemente condenados já não o são hoje tão claramente. Estou a pensar no fenómeno seguinte.
Na Roma pré-cristã eram frequentes o infanticídio e o abandono de crianças, em especial das portadoras de alguma deficiência. Neste contexto, a “revolução cristã” atuou “contra a corrente” e contribuiu decisivamente para pôr termo a essa prática. Na célebre Carta a Diogneto, que por volta do ano 120 d.C. retratava os cristãos da época, a recusa do abandono de recém-nascidos era indicada como algo que os distinguia no ambiente que os rodeava. Não posso deixar de pensar, a este respeito, por contraste e no contexto atual, no exemplo do aborto, especialmente o que vitima nascituros portadores de deficiência, como a trissomia 21. Em muitos países é o que sucede em mais de 90% das gravidezes em que esta doença é detetada e alguns têm mesmo como objetivo atingir a meta dos 100%. Esta é uma notória regressão civilizacional, decorrente da negação do legado daquela a que Benedetto Croce chamou «a maior revolução da história da humanidade».
Pedro Vaz Patto, In www.nobarcodecristo.pt
Por uma Igreja Sinodal: Comunhão, Participação e Missão
“O caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio”, é o compromisso programático proposto pelo Papa Francisco. De facto, a sinodalidade “é dimensão constitutiva da Igreja”, de modo que “aquilo que o Senhor nos pede, de certo modo está já tudo contido na palavra sínodo.
“Sínodo” é uma palavra antiga cujo significado recorda os conteúdos mais profundos da Igreja. Composta pela preposição ‘syn’, com, e pelo substantivo ‘hodos’, caminho, indica o caminho que os membros do Povo de Deus devem percorrer juntos. Remete, portanto, para o Senhor Jesus que se apresenta a si mesmo como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), e para o facto de os cristãos, seguindo Jesus, serem chamados nas origens “os discípulos do caminho”.
O Papa Francisco presidiu no dia 9 de Outubro de 2021 à Missa de abertura do Sínodo sobre Sinodalidade e pediu que o processo sinodal conserve a dimensão espiritual e que todos sejam escutados.
Na homilia da Eucaristia de 10 de Outubro o papa reforçou: “Nós, que iniciamos este caminho, somos chamados a tornarmo-nos peritos na arte do encontro; peritos, não na organização de eventos ou na proposta duma reflexão teórica sobre os problemas mas, antes de mais, de arranjar tempo para encontrar o Senhor, para dar espaço à oração e adoração”. Sublinhando ainda que “A Palavra abre-se ao discernimento e ilumina-o, e isso deve orientar o Sínodo, para que não seja uma convenção eclesial, um congresso de estudos ou um congresso político, para que não seja um Parlamento, mas um evento de graça, um processo de cura conduzido pelo Espírito Santo”.
Apontou ainda as prioridades para o processo sinodal e falou dos três verbos que irão marcar este Sínodo: “encontrar”, “escutar” e “discernir”. Relembrou que este processo implica “caminhar pela mesmo caminho, em conjunto”, apelando que “ao abrir este percurso sinodal, comecemos todos – papa, bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, irmãs e irmãos leigos – por nos interrogar: nós, comunidade cristã, encarnamos o estilo de Deus, que caminha na história e partilha as vicissitudes da humanidade?”. E acrescentou: “Permitimos que as pessoas se expressem, caminhem na fé – mesmo se têm percursos de vida difíceis –, contribuam para a vida da comunidade sem serem estorvadas, rejeitadas ou julgadas?”. Aprender a escuta recíproca, entre bispos, padres, religiosos e leigos, é “um exercício lento, talvez cansativo”, mas necessário para podermos evitar “respostas artificiais e superficiais”.
O papa apelou à participação de todos os cristãos neste caminho sinodal, que culminará em Outubro de 2023, como uma “grande oportunidade para a conversão pastoral em chave missionária e também ecuménica”, alertando para alguns riscos, afirmando que esta não pode ser uma “iniciativa de fachada” ou uma espécie de “grupo de estudo”.
Afirmou ainda que “o Sínodo não é um parlamento, um inquérito de opinião. O Sínodo é um momento eclesial, o protagonista do Sínodo é o Espírito Santo”, sublinhando a importância de se evitar que esta acabe por ser uma iniciativa apenas formal, intelectual. Não se pode cair na “tentação do imobilismo” e do “sempre se fez assim”, que considerou “um veneno na vida da Igreja”, porque “o risco é que no fim se adoptem soluções velhas para problemas novos”.
Escutemos o Espírito Santo para fazermos caminho que converta o nosso coração e nos torne mais Igreja.
Dia Mundial das Mssões de 2021
Mensagem do Papa Francisco
«Não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (At 4, 20)
Queridos irmãos e irmãs!
Quando experimentamos a força do amor de Deus, quando reconhecemos a sua presença de Pai na nossa vida pessoal e comunitária, não podemos deixar de anunciar e partilhar o que vimos e ouvimos. A relação de Jesus com os seus discípulos, a sua humanidade que nos é revelada no mistério da Encarnação, no seu Evangelho e na sua Páscoa mostram-nos até que ponto Deus ama a nossa humanidade e assume as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos anseios e angústias (cf. Conc. Ecum. Vat II, Const. past. Gaudium et spes, 22). Tudo, em Cristo, nos lembra que o mundo em que vivemos e a sua necessidade de redenção não Lhe são estranhos e também nos chama a sentirmo-nos parte ativa desta missão: «Ide às saídas dos caminhos e convidai todos quantos encontrardes» (cf. Mt 22, 9). Ninguém é estranho, ninguém pode sentir-se estranho ou afastado deste amor de compaixão.
A experiência dos Apóstolos
A história da evangelização tem início com uma busca apaixonada do Senhor, que chama e quer estabelecer com cada pessoa, onde quer que esteja, um diálogo de amizade (cf. Jo 15, 12-17). Os Apóstolos são os primeiros que nos referem isso, lembrando inclusive a hora do dia em que O encontraram: «Eram as quatro da tarde» (Jo 1, 39). A amizade com o Senhor, vê-Lo curar os doentes, comer com os pecadores, alimentar os famintos, aproximar-Se dos excluídos, tocar os impuros, identificar-Se com os necessitados, fazer apelo às bem-aventuranças, ensinar de maneira nova e cheia de autoridade, deixa uma marca indelével, capaz de suscitar admiração e uma alegria expansiva e gratuita que não se pode conter. Como dizia o profeta Jeremias, esta experiência é o fogo ardente da sua presença ativa no nosso coração que nos impele à missão, mesmo que às vezes implique sacrifícios e incompreensões (cf. 20, 7-9). O amor está sempre em movimento e põe-nos em movimento, para partilhar o anúncio mais belo e promissor: «Encontramos o Messias» (Jo 1, 41).
Com Jesus, vimos, ouvimos e constatamos que as coisas podem mudar. Ele inaugurou – já para os dias de hoje – os tempos futuros, recordando-nos uma caraterística essencial do nosso ser humano, tantas vezes esquecida: «fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 68). Tempos novos, que suscitam uma fé capaz de estimular iniciativas e plasmar comunidades a partir de homens e mulheres que aprendem a ocupar-se da fragilidade própria e dos outros (cf. ibid., 67), promovendo a fraternidade e a amizade social. A comunidade eclesial mostra a sua beleza, sempre que se lembra, com gratidão, que o Senhor nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4, 19). Esta «predileção amorosa do Senhor surpreende-nos e gera maravilha; esta, por sua natureza, não pode ser possuída nem imposta por nós. (…) Só assim pode florir o milagre da gratuidade, do dom gratuito de si mesmo. O próprio ardor missionário nunca se pode obter em consequência dum raciocínio ou dum cálculo. Colocar-se “em estado de missão” é um reflexo da gratidão» (Francisco, Mensagem às Pontifícias Obras Missionárias, 21 de maio de 2020).
E, no entanto, os tempos não eram fáceis; os primeiros cristãos começaram a sua vida de fé num ambiente hostil e árduo. Histórias de marginalização e prisão entrelaçavam-se com resistências internas e externas, que pareciam contradizer e até negar o que tinham visto e ouvido; mas isso, em vez de ser uma dificuldade ou um obstáculo que poderia levá-los a retrair-se ou fechar-se em si mesmos, impeliu-os a transformar cada incómodo, contrariedade e dificuldade em oportunidade para a missão. Os próprios limites e impedimentos tornaram-se um lugar privilegiado para ungir, tudo e todos, com o Espírito do Senhor. Nada e ninguém podia permanecer alheio ao anúncio libertador.
Possuímos o testemunho vivo de tudo isto nos Atos dos Apóstolos, livro que os discípulos missionários sempre têm à mão. É o livro que mostra como o perfume do Evangelho se difundiu à passagem deles, suscitando aquela alegria que só o Espírito nos pode dar. O livro dos Atos dos Apóstolos ensina-nos a viver as provações unindo-nos a Cristo, para maturar a «convicção de que Deus pode atuar em qualquer circunstância, mesmo no meio de aparentes fracassos», e a certeza de que «a pessoa que se oferece e entrega a Deus por amor, seguramente será fecunda (cf. Jo 15, 5)» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 279).
O mesmo se passa connosco: o momento histórico atual também não é fácil. A situação da pandemia evidenciou e aumentou o sofrimento, a solidão, a pobreza e as injustiças de que já tantos padeciam, e desmascarou as nossas falsas seguranças e as fragmentações e polarizações que nos dilaceram silenciosamente. Os mais frágeis e vulneráveis sentiram ainda mais a sua vulnerabilidade e fragilidade. Experimentamos o desânimo, a deceção, o cansaço; e até a amargura conformista, que tira a esperança, se apoderou do nosso olhar. Nós, porém, «não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor, e nos consideramos vossos servos por amor de Jesus» (2 Cor 4, 5). Por isso ouvimos ressoar nas nossas comunidades e famílias a Palavra de vida que ecoa nos nossos corações dizendo: «Não está aqui; ressuscitou» (Lc 24, 6); uma Palavra de esperança, que desfaz qualquer determinismo e, a quantos se deixam tocar por ela, dá a liberdade e a audácia necessárias para se levantar e procurar, criativamente, todas as formas possíveis de viver a compaixão, «sacramental» da proximidade de Deus para connosco que não abandona ninguém na beira da estrada. Neste tempo de pandemia, perante a tentação de mascarar e justificar a indiferença e a apatia em nome dum sadio distanciamento social, é urgente a missão da compaixão, capaz de fazer da distância necessária um lugar de encontro, cuidado e promoção. «O que vimos e ouvimos» (At 4, 20), a misericórdia com que fomos tratados, transforma-se no ponto de referimento e credibilidade que nos permite recuperar e partilhar a paixão por criar «uma comunidade de pertença e solidariedade, à qual saibamos destinar tempo, esforço e bens» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 36). É a sua Palavra que diariamente nos redime e salva das desculpas que levam a fechar-nos no mais vil dos ceticismos: «Tanto faz; nada mudará!» Pois, à pergunta «para que hei de privar-me das minhas seguranças, comodidades e prazeres, se não vou ver qualquer resultado importante», a resposta é sempre a mesma: «Jesus Cristo triunfou sobre o pecado e a morte e possui todo o poder. Jesus Cristo vive verdadeiramente» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 275) e, também a nós, nos quer vivos, fraternos e capazes de acolher e partilhar esta esperança. No contexto atual, há urgente necessidade de missionários de esperança que, ungidos pelo Senhor, sejam capazes de lembrar profeticamente que ninguém se salva sozinho.
Como os apóstolos e os primeiros cristãos, também nós exclamamos com todas as nossas forças: «não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (At 4, 20). Tudo o que recebemos, tudo aquilo que o Senhor nos tem concedido, ofereceu-no-lo para o pormos a render doando-o gratuitamente aos outros. Como os apóstolos que viram, ouviram e tocaram a salvação de Jesus (cf. 1 Jo 1, 1-4), também nós, hoje, podemos tocar a carne sofredora e gloriosa de Cristo na história de cada dia e encontrar coragem para partilhar com todos um destino de esperança, esse traço indubitável que provém de saber que estamos acompanhados pelo Senhor. Como cristãos, não podemos reservar o Senhor para nós mesmos: a missão evangelizadora da Igreja exprime a sua valência integral e pública na transformação do mundo e na salvaguarda da criação.
Um convite a cada um de nós
O tema do Dia Mundial das Missões deste ano – «não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (At 4, 20) – é um convite dirigido a cada um de nós para cuidar e dar a conhecer aquilo que tem no coração. Esta missão é, e sempre foi, a identidade da Igreja: «ela existe para evangelizar» (São Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 14). No isolamento pessoal ou fechando-se em pequenos grupos, a nossa vida de fé esmorece, perde profecia e capacidade de encanto e gratidão; por sua própria dinâmica, exige uma abertura crescente, capaz de alcançar e abraçar a todos. Atraídos pelo Senhor e a vida nova que oferecia, os primeiros cristãos, em vez de cederem à tentação de se fechar numa elite, foram ao encontro dos povos para testemunhar o que viram e ouviram: o Reino de Deus está próximo. Fizeram-no com a generosidade, gratidão e nobreza próprias das pessoas que semeiam, sabendo que outros comerão o fruto da sua dedicação e sacrifício. Por isso apraz-me pensar que «mesmo os mais frágeis, limitados e feridos podem [ser missionários] à sua maneira, porque sempre devemos permitir que o bem seja comunicado, embora coexista com muitas fragilidades» (Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 239).
No Dia Mundial das Missões que se celebra anualmente no penúltimo domingo de outubro, recordamos com gratidão todas as pessoas, cujo testemunho de vida nos ajuda a renovar o nosso compromisso batismal de ser apóstolos generosos e jubilosos do Evangelho. Lembramos especialmente aqueles que foram capazes de partir, deixar terra e família para que o Evangelho pudesse atingir sem demora e sem medo aqueles ângulos de aldeias e cidades onde tantas vidas estão sedentas de bênção.
Contemplar o seu testemunho missionário impele-nos a ser corajosos e a pedir, com insistência, «ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe» (Lc 10, 2), cientes de que a vocação para a missão não é algo do passado nem uma recordação romântica de outrora. Hoje, Jesus precisa de corações que sejam capazes de viver a vocação como uma verdadeira história de amor, que os faça sair para as periferias do mundo e tornar-se mensageiros e instrumentos de compaixão. E esta chamada, fá-la a todos nós, embora não da mesma forma. Lembremo-nos que existem periferias que estão perto de nós, no centro duma cidade ou na própria família. Há também um aspeto da abertura universal do amor que não é geográfico, mas existencial. Sempre, mas especialmente nestes tempos de pandemia, é importante aumentar a capacidade diária de alargar os nossos círculos, chegar àqueles que, espontaneamente, não sentiria como parte do «meu mundo de interesses», embora estejam perto de nós (cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 97). Viver a missão é aventurar-se no cultivo dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus e, com Ele, acreditar que a pessoa ao meu lado é também meu irmão, minha irmã. Que o seu amor de compaixão desperte também o nosso e, a todos, nos torne discípulos missionários.
Maria, a primeira discípula missionária, faça crescer em todos os batizados o desejo de ser sal e luz nas nossas terras (cf. Mt 5, 13-14).
Roma, 6 de janeiro de 2021.
Papa Francisco
Carta aos diocesanos de Lisboa 2021-22
Carta aos diocesanos de Lisboa, no início do ano pastoral
Caríssimos irmãos e irmãs do Patriarcado de Lisboa
1. É com muita proximidade e estima que vos saúdo no início do novo ano pastoral de 2021-22. Com os irmãos Bispos que comigo servem a Diocese, desejo que vos traga muitas oportunidades de crescimento na fé e na caridade de Cristo, em convivência fraterna e corresponsabilidade missionária. E especialmente agora, quando participamos responsavelmente no esforço da sociedade em geral para debelar a pandemia e garantir um bom futuro, que só o será se for realmente para todos.
O Documento final da caminhada sinodal de Lisboa (2014-2021), a que podeis aceder facilmente no “site” do Patriarcado, enumera no seu número 20 algumas “opções pastorais prioritárias” que devemos ter muito em conta. Proponho mesmo que nas reuniões que fizermos nesta altura com os colaboradores pastorais mais diretos, das paróquias e vigararias aos movimentos e grupos, se releia este número do Documento, no sentido de concretizar tais opções, conforme cada local ou setor. Na verdade, resume muito do que se pensou e ensaiou ao longo da caminhada sinodal, enriquecida com a colaboração e a oração de milhares de diocesanos – no próximo número da Vida Católica podereis ler quanto se refere à fase de receção do nosso Sínodo.
2. A primeira alínea das referidas opções pastorais indica precisamente «dar continuidade ao processo de receção da Constituição Sinodal de Lisboa, promovendo dinâmicas sinodais…».
É também o melhor modo de correspondermos ao que o Papa Francisco nos pede em ordem ao próximo Sínodo dos Bispos, que versará a sinodalidade na Igreja. Não encontraríamos melhor modo de contribuir para tal objetivo do que partilharmos as conclusões do que fizemos e projetámos durante os últimos sete anos. E assim faremos certamente.
As opções pastorais prioritárias selecionadas pelo nosso caminho sinodal sublinham, com a “promoção de dinâmicas sinodais”, a “pastoral juvenil e universitária”, a “resposta aos desafios que enfrentam as IPSS”, a “pertinência da constituição de unidades pastorais”, e “proporcionar verdadeiras experiências de anúncio do Evangelho no contexto da preparação e vivência da JMJ 2023”. A promoção de dinâmicas sinodais é transversal a todas as opções.
Não poderia ser doutro modo, pois é assim que Deus vive e atua - do Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Foi também assim que Jesus atuou, chamando e enviando discípulos, cuja unidade garantiu a autenticidade cristã do que foram e fizeram, como agora acontecerá connosco. Educar para conviver e agir “sinodalmente” é parte essencial da iniciação cristã e da vida eclesial no seu todo.
Conselhos pastorais e económicos, paróquia a paróquia e a nível diocesano, que realmente se estabeleçam e corretamente funcionem; encontros vicariais de ministros ordenados e de ministérios e serviços laicais: tudo isto é prioritário, como o nosso Sínodo realçou e muito importa cumprir.
Por vezes, a urgência das respostas a dar e dos objetivos a atingir pode apressar em termos individuais o que devíamos realizar ouvindo e caminhando com os outros. Mas isso será trazer para o âmbito eclesial o que é da vida corrente, mais do que da vida cristã propriamente dita. Bem pelo contrário, o incremento da sinodalidade em todos os âmbitos da vida da Igreja, comunidade a comunidade e das vigararias à diocese, é indispensável para nos evangelizarmos na ação.
Alguém lembrou já que “o mais importante de qualquer reunião é a própria reunião”, se for momento verdadeiramente eclesial, de reconhecimento mútuo e escuta atenta de cada um. Daí mesmo, e começando todos por escutar a Deus, sairá algo de evangelizador e criativo, como inúmeras passagens bíblicas nos repetem.
3. A pastoral juvenil e universitária é a segunda alínea das “opções prioritárias” que o nosso Sínodo indicou, propondo a criação de espaços de referência para o desenvolvimento espiritual e o acompanhamento vocacional e mútuo. Tudo o que respeita a este setor da pastoral tem especial acuidade no horizonte cada vez mais próximo da Jornada Mundial da Juventude, que é muito mais do que um evento a acontecer: é um processo em curso e criador de bom futuro.
Como já partilhei, a principal motivação que me levou a propor ao Papa Francisco a realização da JMJ em Lisboa proveio das realidades juvenis católicas, com várias interligações eclesiais (movimentos, dioceses, paróquias, institutos religiosos e seculares), que me sugeriram fazê-lo. Quem reparar no que vem acontecendo com Missões País, Núcleos de Estudantes Católicos, Campos de Férias e iniciativas de voluntariado juvenil, apercebe-se do grande potencial evangelizador que contêm. Ligam-se também a movimentos juvenis e universitários em cujos centros e espaços de referência se atingem os objetivos de formação cristã, acompanhamento espiritual e discernimento vocacional, com fruto comprovado. Contamos particularmente com o Escutismo Católico (CNE), que em 2023 completará o seu centenário em Portugal.
Tudo isto se pode e deve incrementar, rumo à JMJ, como já vai acontecendo nos encontros do dia 23 de cada mês e com iniciativas missionárias que motivam a participação. Irão também aumentando os pedidos de colaboração à medida do tempo que se acelera. Momento alto será certamente a próxima Solenidade de Cristo Rei (21 de novembro) – Dia Diocesano da Juventude. Aliás, a última alínea das opções pastorais prioritárias que o nosso Sínodo deixou refere-se precisamente a experiências de anúncio do Evangelho no contexto da preparação e vivência da JMJ 2023. Com os jovens e para nos rejuvenescer evangelicamente a todos.
4. É também sinodalmente, que poderemos responder aos “desafios que enfrentam as IPSS”, quer as que “são da Igreja” quer aquelas em que também “está a Igreja”, porque nelas estão cristãos.
Além do setor público e do privado, o setor social em que se inserem as IPSS respondeu prontamente a muitas necessidades que a pandemia trouxe ou agravou. Dou graças a Deus por tanto bem que se fez através delas. Mas isto mesmo nos leva a redobrar esforços para as defender e fortalecer, como para evidenciar diante das entidades públicas e da população em geral que a existência e o bom funcionamento das IPSS são essenciais para desenvolver sentimentos e práticas que nos constituam somo “sociedade” propriamente dita.
Criámos na diocese a Federação Solicitude, para melhor atingirmos tal objetivo e verifico com gratidão e agrado que vai prosseguindo o seu bom caminho, aliás não exclusivo no vasto campo da entreajuda institucional. Importa muito que as comunidades, paroquiais e outras, sintam que as instituições sociocaritativas também são “suas” e lhes requerem a devida colaboração. Não está em causa a autonomia institucional que justamente têm, mas não se esquece a motivação comum que a todos nos liga. Centros Sociais Paroquiais e Cáritas (diocesana e paroquiais), Conferências Vicentinas e Misericórdias, Lares e muitas outras iniciativas solidárias: a tudo devemos interesse e apoio.
5. Outra opção pastoral indicada pelo Sínodo diocesano refere-se à pertinência da constituição de unidades pastorais, integrando as diversas realidades eclesiais, com maior interligação de entidades e clareza de gestão.
Por “unidade pastoral” não se entende meramente o facto de várias comunidades e instituições poderem estar confiadas a um ou mais ministros ordenados. Pretende-se, isso sim, que as paróquias e realidades eclesiais presentes em determinado espaço territorial ou sociocultural colaborem realmente na definição e prossecução de objetivos pastorais comuns. Colaboração que envolve certamente a padres e diáconos, mas não menos os fiéis leigos e os consagrados ali presentes e atuantes, tanto no que respeita à Palavra de Deus e à Catequese, como na Liturgia e na ação sociocaritativa.
Alguma coisa se fez já nesse sentido – Missões Vicariais e Semanas Vicariais da Caridade, por exemplo, bem como muitos encontros de formação para fiéis de várias paróquias ou para a preparação de batismos e matrimónios – e por aqui havemos de prosseguir. Tanto mais quanto a urbanização generalizada faz com que a vida em geral também aconteça cada vez mais assim, originando vários contactos e pertenças, muito para além da residência territorial. Para já e sobretudo, atendamos ao que nos está mais próximo, paróquia a paróquia e setor a sector.
Caríssimos diocesanos, desejo-vos as maiores felicidades pessoais, familiares e comunitárias neste novo ano pastoral. Deus vos abençoe e Nossa Senhora vos inspire - Ela que não demorou na primeira evangelização do mundo, levando em si mesma a Cristo, que todos aguardavam!
Lisboa, 1 de setembro de 2021
+ Manuel, Cardeal-Patriarca, com os irmãos Bispos que comigo servem a Diocese
Dia Mundial dos Avós e dos Idosos

Os Avós são um tesouro! Eles são o amor que conforta o sorriso que acalma e o carinho que embala o coração. Neles descobrimos a ternura e o amor de Deus.
O Papa Francisco instituiu o último Domingo de Julho como o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos. Este ano iremos solenizar esse dia a 25 de Julho de 2021.
O Santo Padre, na sua Mensagem, destaca três pilares que os avós e os idosos podem oferecer como precioso contributo para construir o mundo de amanhã na fraternidade e na amizade social: os sonhos, a memória e a oração. Pilares que são autênticos caminhos a percorrer por todos nós, inspirados pelas pessoas mais idosas.
Que este dia especial seja de agradecimento aos nossos avós e idosos pelos sonhos, memória e oração que assumem nas suas vidas e que fecundamente transmitem aos mais jovens. Feliz Dia dos Avós e dos Idosos!
Aqui fica a Mensagem do Papa Francisco para este dia:
«Eu estou contigo todos os dias!»
Queridos avôs, queridas avós!
«Eu estou contigo todos os dias» (cf. Mt 28, 20) é a promessa que o Senhor fez aos discípulos antes de subir ao Céu; e hoje repete-a também a ti, querido avô e querida avó. Sim, a ti! «Eu estou contigo todos os dias» são também as palavras que eu, Bispo de Roma e idoso como tu, gostaria de te dirigir por ocasião deste primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos: toda a Igreja está solidária contigo – ou melhor, connosco –, preocupa-se contigo, ama-te e não quer deixar-te abandonado.
Bem sei que esta mensagem te chega num tempo difícil: a pandemia foi uma tempestade inesperada e furiosa, uma dura provação que se abateu sobre a vida de cada um, mas, a nós idosos, reservou-nos um tratamento especial, um tratamento mais duro. Muitíssimos de nós adoeceram – e muitos partiram –, viram apagar-se a vida do seu cônjuge ou dos próprios entes queridos, e tantos – demasiados – viram-se forçados à solidão por um tempo muito longo, isolados.
O Senhor conhece cada uma das nossas tribulações deste tempo. Ele está junto de quantos vivem a dolorosa experiência de ter sido afastado; a nossa solidão – agravada pela pandemia – não O deixa indiferente. Segundo uma tradição, também São Joaquim, o avô de Jesus, foi afastado da sua comunidade, porque não tinha filhos; a sua vida – como a de Ana, sua esposa – era considerada inútil. Mas o Senhor enviou-lhe um anjo para o consolar. Estava ele, triste, fora das portas da cidade, quando lhe apareceu um Enviado do Senhor e lhe disse: «Joaquim, Joaquim! O Senhor atendeu a tua oração insistente».[1] Giotto dá a impressão, num fresco famoso[2], de colocar a cena de noite, uma daquelas inúmeras noites de insónia a que muitos de nós se habituaram, povoadas por lembranças, inquietações e anseios.
Ora, mesmo quando tudo parece escuro, como nestes meses de pandemia, o Senhor continua a enviar anjos para consolar a nossa solidão repetindo-nos: «Eu estou contigo todos os dias». Di-lo a ti, di-lo a mim, a todos. Está aqui o sentido deste Dia Mundial que eu quis celebrado pela primeira vez precisamente neste ano, depois dum longo isolamento e com uma retomada ainda lenta da vida social: oxalá cada avô, cada idoso, cada avó, cada idosa – especialmente quem dentre vós está mais sozinho – receba a visita de um anjo!
Este anjo, algumas vezes, terá o rosto dos nossos netos; outras vezes, dos familiares, dos amigos de longa data ou conhecidos precisamente neste momento difícil. Neste período, aprendemos a entender como são importantes, para cada um de nós, os abraços e as visitas, e muito me entristece o facto de as mesmas não serem ainda possíveis em alguns lugares.
Mas o Senhor envia-nos os seus mensageiros também através da Palavra divina, que Ele nunca deixa faltar na nossa vida. Cada dia, leiamos uma página do Evangelho, rezemos com os Salmos, leiamos os Profetas! Ficaremos comovidos com a fidelidade do Senhor. A Sagrada Escritura ajudar-nos-á também a entender aquilo que o Senhor nos pede hoje na vida. De facto, Ele manda os operários para a sua vinha a todas as horas do dia (cf. Mt 20, 1-16), em cada estação da vida. Eu mesmo posso dar testemunho de que recebi a chamada para me tornar Bispo de Roma quando tinha chegado, por assim dizer, à idade da aposentação e imaginava que já não podia fazer muito de novo. O Senhor está sempre junto de nós – sempre – com novos convites, com novas palavras, com a sua consolação, mas está sempre junto de nós. Como sabeis, o Senhor é eterno e nunca vai para a reforma. Nunca.
No Evangelho de Mateus, Jesus diz aos Apóstolos: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (28, 19-20). Estas palavras são dirigidas também a nós, hoje, e ajudam-nos a entender melhor que a nossa vocação é salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos. Atenção! Qual é a nossa vocação hoje, na nossa idade? Salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos. Não vos esqueçais disto.
Não importa quantos anos tens, se ainda trabalhas ou não, se ficaste sozinho ou tens uma família, se te tornaste avó ou avô ainda relativamente jovem ou já avançado nos anos, se ainda és autónomo ou precisas de ser assistido, porque não existe uma idade para aposentar-se da tarefa de anunciar o Evangelho, da tarefa de transmitir as tradições aos netos. É preciso pôr-se a caminho e, sobretudo, sair de si mesmo para empreender algo de novo.
Portanto existe uma renovada vocação, também para ti, num momento crucial da história. Perguntar-te-ás: Mas, como é possível? As minhas energias vão-se exaurindo e não creio que possa ainda fazer muito. Como posso começar a comportar-me de maneira diferente, quando o hábito se tornou a regra da minha existência? Como posso dedicar-me a quem é mais pobre, se já tenho tantas preocupações com a minha família? Como posso alongar o meu olhar, se não me é permitido sequer sair da residência onde vivo? Não é um fardo já demasiado pesado a minha solidão? Quantos de vós se interrogam: Não é um fardo já demasiado pesado a minha solidão? O próprio Jesus ouviu Nicodemos dirigir-Lhe uma pergunta deste tipo: «Como pode um homem nascer, sendo velho?» (Jo 3, 4). Isso é possível – responde o Senhor –, abrindo o próprio coração à obra do Espírito Santo, que sopra onde quer. Com a liberdade que tem, o Espírito Santo move-Se por toda a parte e faz aquilo que quer.
Como afirmei já mais de uma vez, da crise que o mundo atravessa, não sairemos iguais: sairemos melhores ou piores. E «oxalá não seja mais um grave episódio da história, cuja lição não fomos capazes de aprender [somos de cabeça dura!]. Oxalá não nos esqueçamos dos idosos que morreram por falta de respiradores (...). Oxalá não seja inútil tanto sofrimento, mas tenhamos dado um salto para uma nova forma de viver e descubramos, enfim, que precisamos e somos devedores uns dos outros, para que a humanidade renasça» (Fratelli tutti, 35). Ninguém se salva sozinho. Devedores uns dos outros. Todos irmãos.
Nesta perspetiva, quero dizer que há necessidade de ti para se construir, na fraternidade e na amizade social, o mundo de amanhã: aquele em que viveremos – nós com os nossos filhos e netos –, quando se aplacar a tempestade. Todos devemos ser «parte ativa na reabilitação e apoio das sociedades feridas» (Ibid., 77). Entre os vários pilares que deverão sustentar esta nova construção, há três que tu – melhor que outros – podes ajudar a colocar. Três pilares: os sonhos, a memória e a oração. A proximidade do Senhor dará – mesmo aos mais frágeis de nós – a força para empreender um novo caminho pelas estradas do sonho, da memória e da oração.
Uma vez o profeta Joel pronunciou esta promessa: «Os vossos anciãos terão sonhos e os jovens terão visões» (3, 1). O futuro do mundo está nesta aliança entre os jovens e os idosos. Quem, senão os jovens, pode agarrar os sonhos dos idosos e levá-los por diante? Mas, para isso, é necessário continuar a sonhar: nos nossos sonhos de justiça, de paz, de solidariedade reside a possibilidade de os nossos jovens terem novas visões e, juntos, construirmos o futuro. É preciso que testemunhes, também tu, a possibilidade de se sair renovado duma experiência dolorosa. E tenho a certeza de que não será a única, pois, na tua vida, terás tido tantas e sempre conseguiste triunfar delas. E, dessa experiência que tens, aprende como sair da provação atual.
Nisto se vê como os sonhos estão entrelaçados com a memória. Penso como pode ser de grande valor a memória dolorosa da guerra, e quanto podem as novas gerações aprender dela a respeito do valor da paz. E, a transmitir isto, és tu que viveste a tribulação das guerras. Recordar é uma missão verdadeira e própria de cada idoso: conservar na memória e levar a memória aos outros. Segundo Edith Bruck que sobreviveu à tragédia do Holocausto, «mesmo que seja para iluminar uma só consciência, vale a pena a fadiga de manter viva a recordação do que foi… e continua. Para mim, a memória é viver».[3] Penso também nos meus avós e naqueles de vós que tiveram de emigrar e sabem quanto custa deixar a própria casa, como fazem muitos ainda hoje à procura dum futuro. Talvez tenhamos algum deles ao nosso lado a cuidar de nós. Esta memória pode ajudar a construir um mundo mais humano, mais acolhedor. Mas, sem a memória, não se pode construir; sem alicerces, tu nunca construirás uma casa. Nunca. E os alicerces da vida estão na memória.
Por fim, a oração. Como disse o meu predecessor, Papa Bento (um idoso santo, que continua a rezar e trabalhar pela Igreja), «a oração dos idosos pode proteger o mundo, ajudando-o talvez de modo mais incisivo do que a fadiga de tantos».[4] Disse-o quase no fim do seu pontificado, em 2012. É belo! A tua oração é um recurso preciosíssimo: é um pulmão de que não se podem privar a Igreja e o mundo (cf. Evangelii gaudium, 262). Sobretudo neste tempo tão difícil para a humanidade em que estamos – todos na mesma barca – a atravessar o mar tempestuoso da pandemia, a tua intercessão pelo mundo e pela Igreja não é vã, mas indica a todos a serena confiança de um porto seguro.
Querida avó, querido avô! Ao concluir esta minha mensagem, gostaria de indicar, também a ti, o exemplo do Beato (e proximamente Santo) Carlos de Foucauld. Viveu como eremita na Argélia e lá, naquele contexto periférico, testemunhou «os seus desejos de sentir todo o ser humano como um irmão» (Fratelli tutti, 287). A sua história mostra como é possível, mesmo na solidão do próprio deserto, interceder pelos pobres do mundo inteiro e tornar-se verdadeiramente um irmão e uma irmã universal.
Peço ao Senhor que cada um de nós, graças também ao seu exemplo, alargue o próprio coração e o torne sensível aos sofrimentos dos últimos e capaz de interceder por eles. Oxalá cada um de nós aprenda a repetir a todos, e em particular aos mais jovens, estas palavras de consolação que ouvimos hoje dirigidas a nós: «Eu estou contigo todos os dias». Avante e coragem! Que o Senhor vos abençoe.
Roma, 31 de maio de 2021.
PAPA FRANCISCO
[1] O episódio é narrado no Protoevangelho de Tiago.
[2] Trata-se da imagem escolhida como logótipo do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos.
[3] «La memoria è vita, la scrittura è respiro», in L'Osservatore Romano (26 de janeiro de 2021).
[4] Visita à casa-família “Viva gli anziani”, 12 de novembro de 2012.








