António, ‘il Santo’ de Spoleto, de Pádua e de Lisboa
Em Itália, sobretudo em Pádua, não vale a pena gastar muito latim (ou italiano) a falar de Santo António! Diz-se ‘il Santo’ e toda a gente sabe de quem se fala! Esta é uma afirmação corrente que aparece também na crónica de ‘uma viagem medieval’ de Gonçalo Cadilhe, ‘Nos Passos de Santo António’. Este escritor viajante decidiu seguir os passos do nosso maior missionário do século XIII que se fez ao mar muito antes dos navegadores empurrados pelo Infante D. Henrique: ‘um dos maiores viajantes da História de Portugal’. Não se ‘atirou’ ao Mediterrânio para alargar o império (nem sequer sabia o que era isso!), mas para aumentar o número dos batizados em Cristo, anunciando o Evangelho em contextos islamizados do norte de África. A sua história já deu para muitos livros, mas vale a pena repegá-la como inspiração para os tempos que correm.
Canonização ‘relâmpago’
Nesta ‘viagem’, inspiro-me em Gonçalo Cadilhe, nos Sermões do Santo e na visita que fiz a Spoleto. Aqui vivi a semana do Retiro anual da minha Comunidade, num convento de Irmãs, plantado na colina em frente a esta cidade tão antiga, bela, simbólica e estratégica. Situada a cerca de 130 kms de Roma, Spoleto tem séculos de história, pois ali passa uma das vias romanas mais lendárias, a Flaminia. E, claro, para a Igreja e para Portugal, há um acrescento de importância: ali foi canonizado Santo António. Logo que pude, desci a colina e subi à cidade. Que beleza, que inspiração! Só descansei quando entrei na magnífica Catedral de Santa Maria Assumpta, que presta homenagem ao lugar e ao evento que fez de António um dos santos mais aclamados da Igreja, após ‘canonização relâmpago’! Aconteceu a 30 de maio de 1232 quando os franciscanos realizavam a sua Assembleia Geral. O Papa de então, Gregório IX, estava presente e quis brindar a fidelidade dos franciscanos ao Papa, bem como a fé dos habitantes de Pádua e decidiu canonizar António, tornando-o modelo de vida cristã e de monge para a Igreja e para o mundo.
Faz-te ao largo!
Voltemos ao princípio. Fernando de Bullhões nasceu em Lisboa, fez-se Agostinho em Coimbra, passando a chamar-se António, provavelmente em homenagem a Santo Antão, Abade do Deserto. Ali passariam franciscanos a caminho de Marrocos que – segundo se soube – foram martirizados. António decide fazer-se franciscano e completar a missão que o martírio não permitira concluir àqueles jovens frades que ele conheceu em Coimbra. Homem culto, atravessa o Mediterrâneo, chega a Marrocos e adoece. Tenta regressar a Portugal, mas os ventos (os do Espírito!) atiraram-no para as costas da Sicília onde se tornou famoso pela pregação e santidade. Decide ir a Assis para uma Assembleia Geral onde encontra S. Francisco.
A arte de anunciar Boa Nova
Assim se mudaria a história de António, tudo por causa da demonstrada eloquência das suas palavras e sermões. Passará por Bolonha, grande capital intelectual de então, para formador dos novos franciscanos. É eleito responsável da Ordem no norte de Itália, faz parte da delegação que vem a Roma encontrar o Papa para definir o estatuto da nova Família Religiosa fundada por Francisco e que não parava de crescer… Pádua será o ponto alto da sua vida, onde ganha fama de sabedoria e santidade extremas.
Em tempo de ‘heresias’, é mandado ao sul de França. Mas ele sabe que as conversões acontecem mais pela pregação da Palavra e pela Fraternidade do que pelo anátema, ódio ou espada. Com esta convicção bem franciscana, António andou por terras francesas onde se tornou conhecido e amado. Depois, deixou a responsabilidade de direcção na Ordem e, de regresso a Pádua, tentou retemperar forças, rezar e escrever alguns dos seus sermões para alimento de quem viesse a seguir. Morreu às portas da cidade, em Arcella, a 13 de junho de 1231. Diz Gonçalo Cadilhe: ‘nesse dia, a História dava outro passinho para fora da Idade Média, a Europa despertava mais um pouquinho de um torpor de mil anos, António terminava a sua viagem’. Seria canonizado, em Spoleto, menos de um ano depois….
Calem-se as palavras!
Atento aos mais pobres, fez da vida um hino à contemplação, à missão e à coerência, optando e pregando um estilo de vida simples, orante e fraterna. Gritou um dia, num dos seus sermões: ‘Calem-se as palavras e falem as obras!’ E um grande admirador seu, o P. António Vieira, quando pregou na Igreja de Santo António dos Portugueses a 13 de junho de 1670 disse do Santo: ‘Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra; para nascer, Portugal; para morrer, o mundo’!
Por isso, não vale a pena ficarmos chateados quando vamos a Zanzibar ou às montanhas da Huasteca Potosina no México e lá encontramos Santo António de Pádua! Queríamos que fosse de Lisboa, mas a verdade é que ele é um Santo sem fronteiras. É de todos. Que a todos inspire e mobilize para uma fraternidade universal.
Pe. Tony Neves
https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-06/antonio-santo-de-spoleto-padua-lisboa.html
«Vejo o meu Senhor!» Era o dia 13 de junho de 1231
Hoje é dia de Santo António! Olhando para este homem, descobrimos nele um grande modelo de fé que soube pautar a sua vida por uma busca constante de Deus na fidelidade ao seu chamamento; um grande evangelizador apaixonado pela verdade e justiça; um homem de coração grande, atento dificuldades das famílias, dos pobres e desfavorecidos.
Filho de ricos comerciantes, Fernando Martins de Bulhões, nasceu em Lisboa, entre 1191 e 1195. Viveu os primeiros anos a dois passos da Sé de Lisboa, onde frequentou a Escola da Catedral. Aos 15 anos entrou no Mosteiro de S. Vicente de Fora, vindo a terminar a sua formação académica no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde foi ordenado Sacerdote, após uma formação séria, cuidadosa e empenhada no conhecimento das Sagradas Escrituras e da Tradição da Igreja.
Em Coimbra vai também conhecer uma comunidade de frades franciscanos que viviam no eremitério de Santo Antão dos Olivais. Receberá depois a notícia que cinco deles estão de passagem a caminho de Marrocos, onde – em 16 de Janeiro de 1220 – serão barbaramente martirizados.
Este acontecimento impressionou tanto o jovem Fernando de Bulhões, que decidiu tornar-se discípulo de Francisco de Assis, seguindo o seu ideal de simplicidade e pobreza. Desejava partir para Marrocos como missionário, redimindo assim a vida daqueles jovens mártires. Fez-se franciscano, recebeu o nome de António e partiu em 1220 para aquele território do norte de África. A doença obrigou-o a regressar a Portugal. O navio que o trazia para Lisboa, devido a uma violenta tempestade, foi desviado para a Sicília, onde irá naufragar, e onde será acolhido por irmãos franciscanos de Messina. Estávamos no começo da primavera de 1221.
Agora, na península itálica, peregrina até Assis, onde vai participar no Capítulo Geral e conhecer Francisco de Assis. É convidado, depois, a integrar a comunidade do eremitério de Montepaolo, perto de Forli – no Norte de Itália, todavia, desejando preservar a sua humildade, António nunca divulgou seus conhecimentos.
Em setembro de 1222, os irmãos Dominicanos de Forli convidaram os irmãos Franciscanos para participarem numa cerimónia das Ordenações sacerdotais naquele convento. A determinado momento, o superior dos Dominicanos dirigiu-se aos irmãos Franciscanos, a fim de que um deles usasse da palavra. O Superior do eremitério solicitou, então, ao irmão António que subisse ao púlpito e que dissesse tudo o que lhe fosse sugerido pelo Espírito Santo. A sua sábia intervenção impressionou tanto os presentes, que rapidamente a notícia percorreu toda a região norte da Itália, sendo imediatamente nomeado pregador oficial dos Franciscanos, director de estudos e professor de teologia. Foi Francisco de Assis, que tanto admirou as suas qualidades de sabedoria e sentido missionário, que quis que fosse ele o seu sucessor na orientação da Ordem a que propôs chamar “Frades Menores”.
Foi uma autêntica voz profética no anúncio do Evangelho nos territórios a norte da península itálica e no sul da França, fazendo pontes de comunhão na catolicidade e na verdade.
Enfrentou com firmeza, respeito e mansidão as heresias da época entre os Cátaros e Albigenses, que renovavam as antigas correntes gnósticas e maniqueístas. Com a sua pregação, irá defrontá-los, procurando contrapor-se às suas doutrinas. O conhecimento profundo da Sagrada Escritura deu às suas palavras uma autoridade invulgar, lançando no coração dos ouvintes a solidez do Evangelho. Contra as novas correntes do priscilianismo, defendeu a santidade do matrimónio e a presença real e verdadeira de Cristo no Santíssimo Sacramento.
Testemunhou uma fé comprometida e atuante ao lutar pela aprovação da lei que eliminava a escravidão por dívidas, combatendo também a elevada usura dos banqueiros que exploravam os pobres. A sua pregação era para dar a conhecer a palavra de Deus e ajudar não só a compreendê-la mas a vivê-la, aplicando-a à vida dos seus ouvintes. Este grande homem de Deus, pela forma crítica e assertiva como falava, tornou-se num grande pregador popular, um arauto da Palavra que apelava à conversão de vida, à restauração dos costumes e à vivência da caridade e da justiça evangélicas.
O seu perfil de missionário itinerante, que ia ao encontro das periferias, aponta-nos também a urgência do caminho traçado pelo Papa Francisco para uma Igreja em saída. Fiéis aos sinais dos tempos, somos todos chamados a actualizar a presença de Cristo, Bom Pastor, o enviado do Pai das misericórdias, para salvar e libertar, gerando e fazendo acontecer o Reino de justiça, amor, paz e fraternidade.
Que Santo António fortaleça e ilumine nossa fé, empenhando-nos no anúncio do Evangelho, em comunhão com os anseios do Papa Francisco.
Pe. Alexandre Santos
O Pe. António Vieira pregou, em Roma, três sermões na Igreja de Santo António dos Portugueses. No primeiro desses sermões, encontramos este início, inspirado na passagem bíblica de Mt 5, 14-16: "Vós sois a luz do mundo":
A um português italiano, e a um italiano português, celebra hoje Itália e Portugal. Portugal a Santo António de Lisboa, Itália a Santo António de Pádua. De Lisboa, porque lhe deu o nascimento; de Pádua, porque lhe deu a sepultura… Reparai, diz o evangelista, que António foi luz do mundo. Foi luz do mundo? Não tem logo que se queixar Portugal. Se António não nascera para o Sol, tivera a sepultura onde teve o nascimento; mas como Deus o criou para luz do mundo, nascer numa parte e sepultar-se noutra é obrigação do Sol. Profetizando Malaquias o nascimento de Cristo, diz que nasceria como sol de justiça. E que fez Cristo como sol, e como justo? Como sol mudou os horizontes, como justo deu a cada um o seu. Como sol mudou os horizontes, porque nasceu num lugar e morreu noutro: como justo deu a cada um o seu, porque a Belém honrou com o berço, a Jerusalém com o sepulcro. Assim também Santo António. Se Lisboa foi a aurora do seu oriente, seja Pádua a sepultura do seu ocaso”.
(Pe. António Vieira, Sermões de Roma, ed. Difel, 2009, p. 189-190).
Ser Pai, um desafio de disponibilidade e serviço
Mensagem da Comissão Episcopal do Laicado e da Família para o Dia do Pai
Neste ano de 2021, no meio da pandemia de Covid 19 que constitui seguramente um dos maiores desafios já enfrentados pela humanidade dada a sua intensidade e amplitude, é especialmente relevante celebrar o Dia do Pai.
Celebrar o Dia do Pai para sublinhar que em momentos de enorme dificuldade e desafio como os que vivemos, o papel do pai e os traços que definem o pai tornam-se ainda mais vivos, ainda mais marcados, ainda mais decisivos:
– O pai como fonte de amor incondicional que consola e que acompanha em todos os momentos;
– O pai como sinal de confiança e de força que dá direção, que desbrava o caminho e que com a esposa conduzem a família no meio das dificuldades, construindo esperança para o futuro;
– O pai que, amando a todos e na reciprocidade, une a família garantindo a coesão e o espírito de entreajuda com todos;
– O pai como exemplo e fonte de sabedoria na vivência do dia a dia perante circunstâncias tão frequentemente incertas e difíceis;
– O pai que na sombra é sinal concreto e vivo do Amor de Deus nas nossas vidas e nas nossas famílias.
A figura do pai é especialmente fulcral porque em momentos como este, e independentemente da religião, da raça ou do país em que cada um vive, a importância da família revela-se fundamental como elemento essencial da nossa humanidade, da nossa vivência, como o núcleo em que cada um de nós se apoia, se identifica e se desenvolve. Em momentos como este, é à família que voltamos, que não coloca condições nem obstáculos a apoiar, a ajudar, a acolher. O pai que somos, o pai que todos temos, tem a bela missão de cuidar e de ser sinal da paternidade de Deus.
Celebrar o Dia do Pai para recordar e pedir pelas situações e circunstâncias concretas e muito difíceis que tantos pais têm vivido ao longo dos últimos meses:
– O pai que, sendo também filho, cuida do seu pai em situações de doença, fragilidade e isolamento;
– O pai que, ao longo destes meses de pandemia, perdeu prematuramente os seus pais ou os seus filhos;
– O pai que se vê confrontado com maior precaridade e instabilidade económica, fruto do contexto económico que enfrentamos;
– O pai que, na linha da frente deste combate, tem sido chamado a um esforço redobrado para equilibrar as suas obrigações profissionais com a sua vida familiar.
Finalmente, em 2021, celebramos o Dia do Pai no contexto do enorme presente que o Papa Francisco deu à Igreja ao declarar este ano como o “Ano de São José”. E São José constitui-se como um grande exemplo e um enorme apoio para todos os pais no contexto das circunstâncias que todos vivemos. Este “Ano de São José” é uma oportunidade para todos conhecermos melhor o pai adotivo de Jesus e o esposo de Maria que desempenhou um papel central na história da salvação e que pode ajudar cada pai a viver plenamente a sua missão.
Rezemos a São José como nos propõe o Papa Francisco:
Salve, guardião do Redentor e esposo da Virgem Maria!
A vós, Deus confiou o seu Filho;
em vós, Maria depositou a sua confiança;
convosco, Cristo tornou-Se homem.
Ó Bem-aventurado José,
mostrai-vos pai também para nós e guiai-nos no caminho da vida.
Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,
e defendei-nos de todo o mal. Amém.
Quarta-feira de Cinzas 2021 - Homilia do Papa
Principiamos o caminho da Quaresma, que se abre com as palavras do profeta Joel indicando-nos a direção a tomar. Trata-se dum convite que brota do coração de Deus, suplicando-nos de braços abertos e olhos cheios de nostalgia: «Convertei-vos a Mim de todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Convertei-vos a Mim. A Quaresma é uma viagem de regresso a Deus. Quantas vezes, atarefados ou indiferentes, Lhe dissemos: «Senhor, espera! Virei encontrar-Vos mais tarde... Hoje não posso, mas amanhã começarei a rezar e a fazer algo pelos outros». E assim dia após dia… Agora Deus lança um apelo ao nosso coração. Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas, irmãos e irmãs, hoje é o tempo de regressar a Deus.
Convertei-vos a Mim – diz Ele – de todo o vosso coração. A Quaresma é uma viagem que envolve toda a nossa vida, tudo de nós mesmos. É o tempo para verificar as estradas que estamos a percorrer, para encontrar o caminho que nos leva de volta a casa, para redescobrir o vínculo fundamental com Deus, do qual tudo depende. A Quaresma não é compor um ramalhete espiritual; é discernir para onde está orientado o coração. Aqui está o centro da Quaresma: para onde está orientado o meu coração? Tentemos saber: Para onde me leva o «navegador» da minha vida, para Deus ou para mim mesmo? Vivo para agradar ao Senhor, ou para ser notado, louvado, preferido, no primeiro lugar e assim por diante? Tenho um coração «dançarino» que dá um passo para a frente e outro para trás, amando ora o Senhor ora o mundo, ou um coração firme em Deus? Sinto-me bem com as minhas hipocrisias ou luto para libertar o coração da simulação e das falsidades que o têm prisioneiro?
A viagem da Quaresma é um êxodo: é um êxodo da escravidão para a liberdade. São quarenta dias que recordam os quarenta anos em que o povo de Deus caminhou pelo deserto para voltar à terra de origem. Mas, como foi difícil deixar o Egito! Mais difícil do que deixar a terra foi tirar o Egito do coração do povo de Deus, aquele Egito que traziam dentro… É muito difícil deixar o Egito! Ao longo do caminho, nos seus lamentos, sempre se sentiam tentados pelas cebolas, tentados a voltar para trás, presos às memórias do passado, a qualquer ídolo. O mesmo se passa connosco: a viagem de regresso a Deus vê-se dificultada pelos nossos apegos doentios, impedida pelos laços sedutores dos vícios, pelas falsas seguranças do dinheiro e da ostentação, pela lamúria que paralisa. Para caminhar, é preciso desmascarar estas ilusões.
Interroguemo-nos então: Como avançar no caminho para Deus? Ajudam-nos as viagens de regresso narradas pela Palavra de Deus.
Olhamos para o filho pródigo e compreendemos que é tempo também para nós de regressar ao Pai. Como aquele filho, também nós esquecemos o ar de casa, delapidamos bens preciosos em troca de coisas sem valor e ficamos com as mãos vazias e o coração insatisfeito. Caímos: somos filhos que caem continuamente, somos como criancinhas que tentam andar, mas estatelam-se no chão precisando uma vez e outra de ser levantadas pelo papá. É o perdão do Pai que sempre nos coloca de pé: o perdão de Deus, a Confissão, é o primeiro passo da nossa vigem de regresso. Ao dizer Confissão, recomendo aos confessores: Sede como o pai, não com o chicote, mas com o abraço.
Depois precisamos de regressar a Jesus, fazer como aquele leproso curado que voltou para Lhe agradecer. Curados foram dez, mas só ele foi também salvo, porque voltara para Jesus (cf. Lc 17, 12-19). Todos, todos nós temos enfermidades espirituais: sozinhos, não podemos curá-las; todos temos vícios arraigados: sozinhos, não podemos extirpá-los; todos temos medos que nos paralisam: sozinhos, não podemos vencê-los. Precisamos de imitar aquele leproso, que voltou para Jesus e se prostrou aos seus pés. Temos necessidade da cura de Jesus, precisamos de colocar diante d’Ele as nossas feridas e dizer-Lhe: «Jesus, estou aqui diante de Vós, com o meu pecado, com as minhas misérias. Vós sois o médico; podeis libertar-me. Curai o meu coração».
Mais ainda! A palavra de Deus pede-nos para regressar ao Pai, pede-nos para voltar a Jesus, e somos chamados também a regressar ao Espírito Santo. As cinzas na cabeça lembram-nos que somos pó e em pó nos havemos de tornar. Mas, sobre este pó que somos nós, Deus soprou o seu Espírito de vida. Então não podemos viver seguindo o pó, indo atrás de coisas que hoje existem e amanhã desaparecem. Voltemos ao Espírito, Dador de vida! Voltemos ao Fogo que faz ressurgir as nossas cinzas, àquele Fogo que nos ensina a amar. Continuaremos sempre a ser pó, mas – como diz um hino litúrgico – pó enamorado. Voltemos a rezar ao Espírito Santo, redescubramos o fogo do louvor, que queima as cinzas das lamúrias e da resignação.
Irmãos e irmãs, esta nossa viagem de regresso a Deus só é possível, porque houve a sua vinda até junto de nós. Caso contrário, não teria sido possível. Antes de irmos até Ele, desceu Ele até nós. Precedeu-nos, veio ao nosso encontro. Por nós, desceu até mais fundo de quanto pudéssemos imaginar: fez-Se pecado, fez-Se morte. Isto mesmo no-lo recordou São Paulo: «Aquele que não havia conhecido o pecado, Deus O fez pecado por nós» (2 Cor 5, 21). Para não nos deixar sozinhos e acompanhar-nos no caminho, Ele desceu dentro do nosso pecado e da nossa morte. Tocou o pecado, tocou a nossa morte. Então a nossa viagem é deixar-se tomar pela mão. O Pai que nos chama a voltar é Aquele que sai de casa e vem procurar-nos; o Senhor que nos cura é Aquele que Se deixou ferir na cruz; o Espírito que nos faz mudar de vida é Aquele que sopra com força e suavidade sobre o nosso pó.
Daí a súplica do Apóstolo: «Deixai-vos reconciliar com Deus» (2 Cor 5, 20). Deixai-vos reconciliar: o caminho não se apoia nas nossas forças; com as próprias forças, ninguém pode reconciliar-se com Deus; não consegue. A conversão do coração, com os gestos e práticas que a exprimem, só é possível se partir do primado da ação de Deus. O que nos faz regressar a Ele não são as nossas capacidades nem os méritos que ostentamos, mas a sua graça que temos de acolher. Salva-nos a graça. A salvação é pura graça, pura gratuidade. Disse-o claramente Jesus no Evangelho: o que nos torna justos não é a justiça que praticamos diante dos homens, mas a relação sincera com o Pai. O início do regresso a Deus é reconhecermo-nos necessitados d’Ele, necessitados de misericórdia, necessitados da sua graça. O caminho certo é este: o caminho da humildade. Como me sinto eu: necessitado ou autossuficiente?
Hoje inclinamos a cabeça para receber as cinzas. No termo da Quaresma, abaixar-nos-emos ainda mais para lavar os pés dos irmãos. A Quaresma é uma descida humilde dentro de nós e rumo aos outros. É compreender que a salvação não é uma escalada para a glória, mas um abaixamento por amor. É fazer-nos humildes. Neste caminho, para não perder o rumo, coloquemo-nos diante da cruz de Jesus: é a cátedra silenciosa de Deus. Contemplemos cada dia as suas chagas, as chagas que Ele levou para o Céu e todos os dias, na sua oração de intercessão, faz ver ao Pai. Contemplemos cada dia as suas chagas. Naqueles buracos, reconheçamos o nosso vazio, as nossas faltas, as feridas do pecado, os golpes que nos fizeram sofrer. E contudo, mesmo ali, vemos que Deus não aponta o dedo contra nós, mas abre-nos os braços. As suas chagas estão abertas para nós e, por aquelas chagas, fomos curados (cf. 1 Ped 2, 24; Is 53, 5). Beijemo-las e compreenderemos que precisamente lá, nos buracos mais dolorosos da vida, Deus nos espera com a sua infinita misericórdia. Porque ali, onde somos mais vulneráveis, onde mais nos envergonhamos, Ele veio ao nosso encontro. E agora que veio ter connosco, convida-nos a regressar a Ele, para voltarmos a encontrar a alegria de ser amados.
Papa Francisco, Vaticano, 17-02-2021
Mensagem do papa para a Quaresma 2021
«Vamos subir a Jerusalém...» (Mt 20, 18).
Quaresma: tempo para renovar fé, esperança e caridade.
Queridos irmãos e irmãs!
Jesus, ao anunciar aos discípulos a sua paixão, morte e ressurreição como cumprimento da vontade do Pai, desvenda-lhes o sentido profundo da sua missão e convida-os a associarem-se à mesma pela salvação do mundo.
Ao percorrer o caminho quaresmal que nos conduz às celebrações pascais, recordamos Aquele que «Se rebaixou a Si mesmo, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz» (Flp 2, 8). Neste tempo de conversão, renovamos a nossa fé, obtemos a «água viva» da esperança e recebemos com o coração aberto o amor de Deus que nos transforma em irmãos e irmãs em Cristo. Na noite de Páscoa, renovaremos as promessas do nosso Batismo, para renascer como mulheres e homens novos por obra e graça do Espírito Santo. Entretanto o itinerário da Quaresma, como aliás todo o caminho cristão, já está inteiramente sob a luz da Ressurreição que anima os sentimentos, atitudes e opções de quem deseja seguir a Cristo.
O jejum, a oração e a esmola – tal como são apresentados por Jesus na sua pregação (cf. Mt 6, 1-18) – são as condições para a nossa conversão e sua expressão. O caminho da pobreza e da privação (o jejum), a atenção e os gestos de amor pelo homem ferido (a esmola) e o diálogo filial com o Pai (a oração) permitem-nos encarnar uma fé sincera, uma esperança viva e uma caridade operosa.
1. A fé chama-nos a acolher a Verdade e a tornar-nos suas testemunhas diante de Deus e de todos os nossos irmãos e irmãs
Neste tempo de Quaresma, acolher e viver a Verdade manifestada em Cristo significa, antes de mais, deixar-nos alcançar pela Palavra de Deus, que nos é transmitida de geração em geração pela Igreja. Esta Verdade não é uma construção do intelecto, reservada a poucas mentes seletas, superiores ou ilustres, mas é uma mensagem que recebemos e podemos compreender graças à inteligência do coração, aberto à grandeza de Deus, que nos ama ainda antes de nós próprios tomarmos consciência disso. Esta Verdade é o próprio Cristo, que, assumindo completamente a nossa humanidade, Se fez Caminho – exigente, mas aberto a todos – que conduz à plenitude da Vida.
O jejum, vivido como experiência de privação, leva as pessoas que o praticam com simplicidade de coração a redescobrir o dom de Deus e a compreender a nossa realidade de criaturas que, feitas à sua imagem e semelhança, n'Ele encontram plena realização. Ao fazer experiência duma pobreza assumida, quem jejua faz-se pobre com os pobres e «acumula» a riqueza do amor recebido e partilhado. O jejum, assim entendido e praticado, ajuda a amar a Deus e ao próximo, pois, como ensina São Tomás de Aquino, o amor é um movimento que centra a minha atenção no outro, considerando-o como um só comigo mesmo [cf. Enc. Fratelli tutti (= FT), 93].
A Quaresma é um tempo para acreditar, ou seja, para receber a Deus na nossa vida permitindo-Lhe «fazer morada» em nós (cf. Jo 14, 23). Jejuar significa libertar a nossa existência de tudo o que a atravanca, inclusive da saturação de informações – verdadeiras ou falsas – e produtos de consumo, a fim de abrirmos as portas do nosso coração Àquele que vem a nós pobre de tudo, mas «cheio de graça e de verdade» (Jo 1, 14): o Filho de Deus Salvador.
2. A esperança como «água viva», que nos permite continuar o nosso caminho
A samaritana, a quem Jesus pedira de beber junto do poço, não entende quando Ele lhe diz que poderia oferecer-lhe uma «água viva» (cf. Jo 4, 10-12); e, naturalmente, a primeira coisa que lhe vem ao pensamento é a água material, ao passo que Jesus pensava no Espírito Santo, que Ele dará em abundância no Mistério Pascal e que infunde em nós a esperança que não desilude. Já quando preanuncia a sua paixão e morte, Jesus abre à esperança dizendo que «ressuscitará ao terceiro dia» (Mt 20, 19). Jesus fala-nos do futuro aberto de par em par pela misericórdia do Pai. Esperar com Ele e graças a Ele significa acreditar que, a última palavra na história, não a têm os nossos erros, as nossas violências e injustiças, nem o pecado que crucifica o Amor; significa obter do seu Coração aberto o perdão do Pai.
No contexto de preocupação em que vivemos atualmente onde tudo parece frágil e incerto, falar de esperança poderia parecer uma provocação. O tempo da Quaresma é feito para ter esperança, para voltar a dirigir o nosso olhar para a paciência de Deus, que continua a cuidar da sua Criação, não obstante nós a maltratarmos com frequência (cf. Enc. Laudato si’, 32-33.43-44). É ter esperança naquela reconciliação a que nos exorta apaixonadamente São Paulo: «Reconciliai-vos com Deus» (2 Cor 5, 20). Recebendo o perdão no Sacramento que está no centro do nosso processo de conversão, tornamo-nos, por nossa vez, propagadores do perdão: tendo-o recebido nós próprios, podemos oferecê-lo através da capacidade de viver um diálogo solícito e adotando um comportamento que conforta quem está ferido. O perdão de Deus, através também das nossas palavras e gestos, possibilita viver uma Páscoa de fraternidade.
Na Quaresma, estejamos mais atentos a «dizer palavras de incentivo, que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam, em vez de palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam» (FT, 223). Às vezes, para dar esperança, basta ser «uma pessoa amável, que deixa de lado as suas preocupações e urgências para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença» (FT, 224).
No recolhimento e oração silenciosa, a esperança é-nos dada como inspiração e luz interior, que ilumina desafios e opções da nossa missão; por isso mesmo, é fundamental recolher-se para rezar (cf. Mt 6, 6) e encontrar, no segredo, o Pai da ternura.
Viver uma Quaresma com esperança significa sentir que, em Jesus Cristo, somos testemunhas do tempo novo em que Deus renova todas as coisas (cf. Ap 21, 1-6), «sempre dispostos a dar a razão da [nossa] esperança a todo aquele que [no-la] peça» (1 Ped 3, 15): a razão é Cristo, que dá a sua vida na cruz e Deus ressuscita ao terceiro dia.
3. A caridade, vivida seguindo as pegadas de Cristo na atenção e compaixão por cada pessoa, é a mais alta expressão da nossa fé e da nossa esperança
A caridade alegra-se ao ver o outro crescer; e de igual modo sofre quando o encontra na angústia: sozinho, doente, sem abrigo, desprezado, necessitado... A caridade é o impulso do coração que nos faz sair de nós mesmos gerando o vínculo da partilha e da comunhão.
«A partir do “amor social”, é possível avançar para uma civilização do amor a que todos nos podemos sentir chamados. Com o seu dinamismo universal, a caridade pode construir um mundo novo, porque não é um sentimento estéril, mas o modo melhor de alcançar vias eficazes de desenvolvimento para todos» (FT, 183).
A caridade é dom, que dá sentido à nossa vida e graças ao qual consideramos quem se encontra na privação como membro da nossa própria família, um amigo, um irmão. O pouco, se partilhado com amor, nunca acaba, mas transforma-se em reserva de vida e felicidade. Aconteceu assim com a farinha e o azeite da viúva de Sarepta, que oferece ao profeta Elias o bocado de pão que tinha (cf. 1 Rs 17, 7-16), e com os pães que Jesus abençoa, parte e dá aos discípulos para que os distribuam à multidão (cf. Mc 6, 30-44). O mesmo sucede com a nossa esmola, seja ela pequena ou grande, oferecida com alegria e simplicidade.
Viver uma Quaresma de caridade significa cuidar de quem se encontra em condições de sofrimento, abandono ou angústia por causa da pandemia de Covid-19. Neste contexto de grande incerteza quanto ao futuro, lembrando-nos da palavra que Deus dera ao seu Servo – «não temas, porque Eu te resgatei» (Is 43, 1) –, ofereçamos, juntamente com a nossa obra de caridade, uma palavra de confiança e façamos sentir ao outro que Deus o ama como um filho.
«Só com um olhar cujo horizonte esteja transformado pela caridade, levando-nos a perceber a dignidade do outro, é que os pobres são reconhecidos e apreciados na sua dignidade imensa, respeitados no seu estilo próprio e cultura e, por conseguinte, verdadeiramente integrados na sociedade» (FT, 187).
Queridos irmãos e irmãs, cada etapa da vida é um tempo para crer, esperar e amar. Que este apelo a viver a Quaresma como percurso de conversão, oração e partilha dos nossos bens, nos ajude a repassar, na nossa memória comunitária e pessoal, a fé que vem de Cristo vivo, a esperança animada pelo sopro do Espírito e o amor cuja fonte inexaurível é o coração misericordioso do Pai.
Que Maria, Mãe do Salvador, fiel aos pés da cruz e no coração da Igreja, nos ampare com a sua solícita presença, e a bênção do Ressuscitado nos acompanhe no caminho rumo à luz pascal.
Roma, 11 de novembro de 2020.
Papa Francisco








