Mensagem do Papa para a Quaresma 2023
Ascese quaresmal, itinerário sinodal
Queridos irmãos e irmãs!
Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas coincidem em narrar o episódio da Transfiguração de Jesus. Neste acontecimento, vemos a resposta do Senhor a uma falta de compreensão manifestada pelos seus discípulos. De facto, pouco antes, registara-se uma verdadeira divergência entre o Mestre e Simão Pedro; este começara professando a sua fé em Jesus como Cristo, o Filho de Deus, mas em seguida rejeitara o seu anúncio da paixão e da cruz. E Jesus censurara-o asperamente: «Afasta-te, satanás! Tu és para Mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens» (Mt 16, 23). Por isso, «seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte» (Mt 17, 1).
O evangelho da Transfiguração é proclamado, cada ano, no II Domingo da Quaresma. Realmente, neste tempo litúrgico, o Senhor toma-nos consigo e conduz-nos à parte. Embora os nossos compromissos ordinários nos peçam para permanecer nos lugares habituais, transcorrendo uma vida quotidiana frequentemente repetitiva e por vezes enfadonha, na Quaresma somos convidados a subir «a um alto monte» juntamente com Jesus, para viver com o Povo santo de Deus uma particular experiência de ascese.
A ascese quaresmal é um empenho, sempre animado pela graça, no sentido de superar as nossas faltas de fé e as resistências em seguir Jesus pelo caminho da cruz. Aquilo precisamente de que Pedro e os outros discípulos tinham necessidade. Para aprofundar o nosso conhecimento do Mestre, para compreender e acolher profundamente o mistério da salvação divina, realizada no dom total de si mesmo por amor, é preciso deixar-se conduzir por Ele à parte e ao alto, rompendo com a mediocridade e as vaidades. É preciso pôr-se a caminho, um caminho em subida, que requer esforço, sacrifício e concentração, como uma excursão na montanha. Estes requisitos são importantes também para o caminho sinodal, que nos comprometemos, como Igreja, a realizar. Far-nos-á bem refletir sobre esta relação que existe entre a ascese quaresmal e a experiência sinodal.
Para o «retiro» no Monte Tabor, Jesus leva consigo três discípulos, escolhidos para serem testemunhas dum acontecimento singular; Ele deseja que aquela experiência de graça não seja vivida solitariamente, mas de forma compartilhada, como é aliás toda a nossa vida de fé. A Jesus, seguimo-Lo juntos; e juntos, como Igreja peregrina no tempo, vivemos o Ano Litúrgico e, nele, a Quaresma, caminhando com aqueles que o Senhor colocou ao nosso lado como companheiros de viagem. À semelhança da subida de Jesus e dos discípulos ao Monte Tabor, podemos dizer que o nosso caminho quaresmal é «sinodal», porque o percorremos juntos pelo mesmo caminho, discípulos do único Mestre. Mais ainda, sabemos que Ele próprio é o Caminho e, por conseguinte, tanto no itinerário litúrgico como no do Sínodo, a Igreja não faz outra coisa senão entrar cada vez mais profunda e plenamente no mistério de Cristo Salvador.
E chegamos ao momento culminante. O Evangelho narra que Jesus «Se transfigurou diante deles: o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (Mt 17, 2). Aqui aparece o «cimo», a meta do caminho. No final da subida e enquanto estão no alto do monte com Jesus, os três discípulos recebem a graça de O verem na sua glória, resplandecente de luz sobrenatural, que não vinha de fora, mas irradiava d’Ele mesmo. A beleza divina desta visão mostrou-se incomparavelmente superior a qualquer cansaço que os discípulos pudessem ter sentido quando subiam ao Tabor. Como toda a esforçada excursão de montanha, ao subir, é preciso manter os olhos bem fixos na vereda; mas o panorama que se deslumbra no final surpreende e compensa pela sua maravilha. Com frequência também o processo sinodal se apresenta árduo e por vezes podemos até desanimar; mas aquilo que nos espera no final é algo, sem dúvida, maravilhoso e surpreendente, que nos ajudará a compreender melhor a vontade de Deus e a nossa missão ao serviço do seu Reino.
A experiência dos discípulos no monte Tabor torna-se ainda mais enriquecedora quando, ao lado de Jesus transfigurado, aparecem Moisés e Elias, que personificam respetivamente a Lei e os Profetas (cf. Mt 17, 3). A novidade de Cristo é cumprimento da antiga Aliança e das promessas; é inseparável da história de Deus com o seu povo, e revela o seu sentido profundo. De forma análoga, o caminho sinodal está radicado na tradição da Igreja e, ao mesmo tempo, aberto para a novidade. A tradição é fonte de inspiração para procurar estradas novas, evitando as contrapostas tentações do imobilismo e da experimentação improvisada.
O caminho ascético quaresmal e, de modo semelhante, o sinodal, têm como meta uma transfiguração, pessoal e eclesial. Uma transformação que, em ambos os casos, encontra o seu modelo na de Jesus e realiza-se pela graça do seu mistério pascal. Para que, neste ano, se possa realizar em nós tal transfiguração, quero propor duas «veredas» que é necessário percorrer para subir juntamente com Jesus e chegar com Ele à meta.
A primeira diz respeito à ordem que Deus Pai dirige aos discípulos no Tabor, enquanto estão a contemplar Jesus transfigurado. A voz da nuvem diz: «Escutai-O» (Mt 17, 5). Assim a primeira indicação é muito clara: escutar Jesus. A Quaresma é tempo de graça na medida em que nos pusermos à escuta d’Ele, que nos fala. E como nos fala Ele? Antes de mais nada na Palavra de Deus, que a Igreja nos oferece na Liturgia: não a deixemos cair em saco roto; se não podermos participar sempre na Missa, ao menos leiamos as Leituras bíblicas de cada dia valendo-nos até da ajuda da internet. Além da Sagrada Escritura, o Senhor fala-nos nos irmãos, sobretudo nos rostos e vicissitudes daqueles que precisam de ajuda. Mas quero acrescentar ainda outro aspeto, muito importante no processo sinodal: a escuta de Cristo passa também através da escuta dos irmãos e irmãs na Igreja; nalgumas fases, esta escuta recíproca é o objetivo principal, mas permanece sempre indispensável no método e estilo duma Igreja sinodal.
Ao ouvir a voz do Pai, «os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados. Aproximando-Se deles, Jesus tocou-lhes dizendo: “Levantai-vos e não tenhais medo”. Erguendo os olhos, os discípulos apenas viram Jesus e mais ninguém» (Mt 17, 6-8). E aqui temos a segunda indicação para esta Quaresma: não refugiar-se numa religiosidade feita de acontecimentos extraordinários, de sugestivas experiências, levados pelo medo de encarar a realidade com as suas fadigas diárias, as suas durezas e contradições. A luz que Jesus mostra aos seus discípulos é uma antecipação da glória pascal, e é rumo a esta que se torna necessário caminhar seguindo «apenas Jesus e mais ninguém». A Quaresma orienta-se para a Páscoa: o «retiro» não é um fim em si mesmo, mas prepara-nos para viver – com fé, esperança e amor – a paixão e a cruz, a fim de chegarmos à ressurreição. Também o percurso sinodal não nos deve iludir quanto ao termo de chegada, que não é quando Deus nos dá a graça de algumas experiências fortes de comunhão, pois aí o Senho também nos repete: «Levantai-vos e não tenhais medo». Desçamos à planície e que a graça experimentada nos sustente para sermos artesãos de sinodalidade na vida ordinária das nossas comunidades.
Queridos irmãos e irmãs, que o Espírito Santo nos anime nesta Quaresma na subida com Jesus, para fazermos experiência do seu esplendor divino e assim, fortalecidos na fé, prosseguirmos o caminho com Ele, glória do seu povo e luz das nações.
Papa FRANCISCO
25 Janeiro de 2023
Dia Mundial do Doente - 2022
Estar ao lado de quem sofre num caminho de caridade
«Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36)
Queridos irmãos e irmãs!
Há trinta anos, São João Paulo II instituiu o Dia Mundial do Doente para sensibilizar o povo de Deus, as instituições sanitárias católicas e a sociedade civil para a solicitude com os enfermos e quantos cuidam deles [1].
Agradecemos ao Senhor o caminho feito durante estes anos nas Igrejas particulares de todo o mundo. Já se deram muitos passos em frente, mas há ainda um longo caminho a percorrer para garantir a todos os doentes, mesmo nos lugares e situações de maior pobreza e marginalização, os cuidados de saúde, de que necessitam, e também o devido acompanhamento pastoral para conseguirem viver o período da doença unidos a Cristo crucificado e ressuscitado. Que o XXX Dia Mundial do Doente – por causa da pandemia, a sua celebração culminante não poderá ter lugar em Arequipa, no Perú, mas vai realizar-se na Basílica de São Pedro, no Vaticano – nos ajude a crescer na proximidade e no serviço às pessoas enfermas e às suas famílias.
1. Misericordiosos como o Pai
O tema escolhido para este trigésimo Dia Mundial – «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36) – faz-nos, antes de mais nada, voltar o olhar para Deus, «rico em misericórdia» (Ef 2, 4), que olha sempre para os seus filhos com amor de pai, mesmo quando se afastam d’Ele. Com efeito a misericórdia é, por excelência, o nome de Deus, que expressa a sua natureza não como um sentimento ocasional, mas como força presente em tudo o que Ele faz. É conjuntamente força e ternura. Por isso podemos dizer, cheios de maravilha e gratidão, que a misericórdia de Deus tem nela mesma tanto a dimensão da paternidade como a da maternidade (cf. Is 49, 15), porque Ele cuida de nós com a força dum pai e com a ternura duma mãe, sempre desejoso de nos dar vida nova no Espírito Santo.
2. Jesus, misericórdia do Pai
Suprema testemunha do amor misericordioso do Pai para com os enfermos é o seu Filho unigénito. Quantas vezes os Evangelhos nos narram os encontros de Jesus com pessoas que sofriam de várias doenças! Ele «começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando entre o povo todas as doenças e enfermidades» (Mt 4, 23). Podemos perguntar-nos: Porquê esta atenção particular de Jesus para com os doentes, a ponto da mesma se tornar também a atividade principal na missão dos apóstolos, enviados pelo Mestre a anunciar o Evangelho e curar os enfermos (cf. Lc 9, 2)?
Um pensador do século XX sugere-nos uma razão: «A dor isola duma forma absoluta e é deste isolamento absoluto que nasce o apelo ao outro, a invocação ao outro» [2]. Quando uma pessoa experimenta na própria carne fragilidade e sofrimento por causa da doença, também o seu coração se sente acabrunhado, cresce o medo, multiplicam-se as dúvidas, torna-se mais impelente a questão sobre o sentido de tudo o que está a acontecer. A propósito, como não recordar os numerosos enfermos que, durante este tempo de pandemia, viveram a última parte da sua existência na solidão duma Unidade de Terapia Intensiva, certamente cuidados por generosos profissionais de saúde, mas longe dos afetos mais queridos e das pessoas mais importantes da sua vida terrena? Daqui vemos a importância de se ter ao lado testemunhas da caridade de Deus, que a exemplo de Jesus, misericórdia do Pai, derramem sobre as feridas dos enfermos o óleo da consolação e o vinho da esperança [3].
3. Tocar a carne sofredora de Cristo
O convite de Jesus a ser misericordiosos como o Pai adquire um significado particular para os profissionais de saúde. Penso nos médicos, enfermeiros, técnicos de laboratório, auxiliares e cuidadores dos enfermos, bem como nos numerosos voluntários que doam tempo precioso a quem sofre. Queridos profissionais da saúde, o vosso serviço junto dos doentes, realizado com amor e competência, ultrapassa os limites da profissão para se tornar uma missão. As vossas mãos que tocam a carne sofredora de Cristo podem ser sinal das mãos misericordiosas do Pai. Permanecei cientes da grande dignidade da vossa profissão e também da responsabilidade que ela acarreta.
Bendizemos o Senhor pelos progressos que a ciência médica realizou sobretudo nestes últimos tempos; as novas tecnologias permitiram dispor de vias terapêuticas de grande utilidade para os doentes; a pesquisa continua a dar a sua valiosa contribuição para derrotar velhas e novas patologias; a medicina de reabilitação desenvolveu notavelmente os seus conhecimentos e competências. Tudo isso, porém, não deve jamais fazer esquecer a singularidade de cada doente, com a sua dignidade e as suas fragilidades [4]. O doente é sempre mais importante do que a sua doença, e por isso qualquer abordagem terapêutica não pode prescindir da escuta do paciente, da sua história, das suas ansiedades, dos seus medos. Mesmo quando não se pode curar, sempre é possível tratar, consolar e fazer sentir à pessoa uma proximidade que demonstre mais interesse por ela do que pela sua patologia. Espero, pois, que os percursos de formação dos operadores da saúde sejam capazes de os habilitar para a escuta e a dimensão relacional.
4. Os lugares de tratamento, casas de misericórdia
O Dia Mundial do Doente é ocasião propícia também para determos a nossa atenção nos lugares de tratamento. A misericórdia para com os enfermos levou a comunidade cristã a abrir, no decorrer dos séculos, inúmeras «estalagens do bom samaritano» (cf. Lc 10, 34), onde pudessem ser acolhidos e tratados doentes de todo o género, sobretudo aqueles que, por indigência, pela exclusão social ou pelas dificuldades no tratamento dalgumas patologias, não encontravam resposta ao seu pedido de saúde. Em tais situações, são sobretudo as crianças, os idosos e as pessoas mais fragilizadas que pagam o preço mais alto. Misericordiosos como o Pai, muitos missionários acompanharam o anúncio do Evangelho com a construção de hospitais, dispensários e lugares de tratamento. São obras preciosas, através das quais se concretizou a caridade cristã e se tornou mais credível o amor de Cristo, testemunhado pelos seus discípulos. Penso sobretudo nas populações das zonas mais pobres da Terra, onde por vezes é necessário percorrer longas distâncias para encontrar centros de tratamento que, embora com recursos limitados, oferecem tudo o que têm disponível. Ainda há um longo caminho a percorrer e, nalguns países, receber adequados tratamentos continua a ser um luxo. Testemunha-o, por exemplo, a escassa disponibilidade, nos países mais pobres, de vacinas contra a Covid-19 e ainda mais a falta de tratamentos para patologias que requerem medicamentos muito mais simples.
Neste contexto, desejo reafirmar a importância das instituições sanitárias católicas: são um tesouro precioso que deve ser preservado e sustentado; a sua presença caraterizou a história da Igreja pela sua proximidade aos doentes mais pobres e às situações mais esquecidas [5]. Quantos fundadores de famílias religiosas souberam ouvir o clamor de irmãos e irmãs privados de acesso aos tratamentos ou mal atendidos, prodigalizando-se ao seu serviço! Ainda hoje, mesmo nos países mais desenvolvidos, a sua presença é uma bênção, porque, além de cuidar do corpo com toda a competência necessária, sempre podem oferecer também aquela caridade cujo centro da atenção são os doentes e os seus familiares. Numa época em que se difundiu a cultura do descarte e nem sempre se reconhece a vida como digna de ser acolhida e vivida, estas estruturas, como casas da misericórdia, podem ser exemplares na salvaguarda e no cuidado de cada existência, mesmo a mais frágil, desde o próprio início até ao seu termo natural.
5. A misericórdia pastoral: presença e proximidade
No caminho feito ao longo destes trinta anos, a própria pastoral da saúde viu o seu serviço ser cada vez mais reconhecido como indispensável. Na verdade, se a pior discriminação sofrida pelos pobres – e os doentes são pobres de saúde – é a falta dos cuidados espirituais, não podemos exonerar-nos de lhes oferecer a proximidade de Deus, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé [6]. A propósito, gostaria de lembrar que a proximidade aos enfermos e o seu cuidado pastoral não competem apenas a alguns ministros especificamente deputados para o efeito; visitar os enfermos é um convite feito por Cristo a todos os seus discípulos. Quantos doentes e quantas pessoas idosas há que vivem em casa e esperam por uma visita! O ministério da consolação é tarefa de todo o batizado, recordando-se das palavras de Jesus: «Estive doente e visitastes-Me» ( Mt 25, 36).
Queridos irmãos e irmãs, à intercessão de Maria, Saúde dos Enfermos, confio todos os doentes e as suas famílias. Unidos a Cristo, que carrega sobre Si o sofrimento do mundo, possam encontrar sentido, consolação e confiança. Rezo por todos os profissionais de saúde para que, ricos em misericórdia, ofereçam aos pacientes, juntamente com os tratamentos devidos, a sua proximidade fraterna. De coração, a todos concedo a Bênção Apostólica.
Papa Francisco
Mensagem para o Dia Mundial do Doente
Roma, S. João de Latrão, 10-12-2021.
[1] Cf. São João Paulo II, Carta ao Cardeal Fiorenzo Angelini, Presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral no Campo da Saúde, para a instituição do Dia Mundial do Doente (13-05-1992).
[2] E. Levinas, «Une éthique de la souffrance», in J.-M. von Kaenel, Souffrances. Corps et âme, épreuves partagées (Autrement, Paris 1994), 133-135.
[3] Cf. Missal Romano, Prefácio Comum VIII «Cristo, o bom samaritano».
[4] Cf. Francisco, Discurso à Federação Nacional das Ordens dos Médicos Cirurgiões e dos Dentistas (20-09-2019).
[5] Cf. Francisco, Angelus, na Policlínica «Gemelli» em Roma (11-07-2021).
[6] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24-11-2013), 200.
Dia Mundial do Doente - 2023
"Trata bem dele!"
A compaixão como exercício sinodal de cura
Queridos irmãos e irmãs!
A doença faz parte da nossa experiência humana. Mas pode tornar-se desumana, se for vivida no isolamento e no abandono, se não for acompanhada pelo desvelo e a compaixão. Ao caminhar juntos, é normal que alguém se sinta mal, tenha de parar pelo cansaço ou por qualquer percalço no percurso. É em tais momentos que se vê como estamos a caminhar: se é verdadeiramente um caminhar juntos, ou se se vai na mesma estrada mas cada um por conta própria, cuidando dos próprios interesses e deixando que os outros «se arranjem». Por isso, neste XXXI Dia Mundial do Doente e em pleno percurso sinodal, convido-vos a refletir sobre o facto de podermos aprender, precisamente através da experiência da fragilidade e da doença, a caminhar juntos segundo o estilo de Deus, que é proximidade, compaixão e ternura.
O livro do profeta Ezequiel oferece-nos um grande oráculo, que constitui um dos pontos culminantes de toda a Revelação, e lá o Senhor fala assim: «Sou Eu que apascentarei as minhas ovelhas, sou Eu quem as fará descansar – oráculo do Senhor Deus. Procurarei aquela que se tinha perdido, reconduzirei a que se tinha tresmalhado; cuidarei a que está ferida e tratarei da que está doente (...). A todas apascentarei com justiça» (34, 15-16). Naturalmente as experiências do extravio, da doença e da fragilidade fazem parte do nosso caminho: não nos excluem do povo de Deus; pelo contrário, colocam-nos no centro da solicitude do Senhor, que é Pai e não quer perder pela estrada nem sequer um dos seus filhos. Trata-se, pois, de aprender com Ele a ser verdadeiramente uma comunidade que caminha em conjunto, capaz de não se deixar contagiar pela cultura do descarte.
Como sabeis, a encíclica Fratelli tutti propõe uma leitura atualizada da parábola do Bom Samaritano (cf. nº 56). Escolhi-a como charneira, como ponto de viragem para se poder sair das «sombras dum mundo fechado» (cap. I) e «pensar e gerar um mundo aberto» (cap. III). Com efeito, há uma profunda conexão entre esta parábola de Jesus e as múltiplas formas em que é negada hoje a fraternidade. De modo particular, no facto de a pessoa espancada e roubada acabar abandonada na estrada, podemos ver representada a condição em que são deixados tantos irmãos e irmãs nossos na hora em que mais precisam de ajuda. Não é fácil distinguir os atentados à vida e à sua dignidade que provêm de causas naturais e, ao invés, aqueles que são provocados por injustiças e violências. Na realidade, o nível das desigualdades e a prevalência dos interesses de poucos já incidem de tal modo sobre cada ambiente humano que é difícil considerar «natural» qualquer experiência. Cada doença realiza-se numa «cultura» por entre as suas contradições.
Entretanto, o que importa aqui é reconhecer a condição de solidão, de abandono. Trata-se duma atrocidade que pode ser superada antes de qualquer outra injustiça, porque para a eliminar – como conta a parábola – basta um momento de atenção, o movimento interior da compaixão. Dois transeuntes, considerados religiosos, veem o ferido e não param. Mas o terceiro, um samaritano, alguém que é objeto de desprezo, deixa-se mover pela compaixão e cuida daquele estranho na estrada, tratando-o como irmão. Procedendo assim, sem pensar sequer, muda as coisas, gera um mundo mais fraterno.
Irmãos, irmãs, nunca estamos preparados para a doença; e muitas vezes nem sequer para admitir a idade avançada. Tememos a vulnerabilidade, e a invasiva cultura do mercado impele-nos a negá-la. Não há espaço para a fragilidade. E assim o mal, quando irrompe e nos ataca, deixa-nos por terra atordoados. Então pode acontecer que os outros nos abandonem, ou nos pareça que devemos abandoná-los a fim de não nos sentirem um peso para eles. Começa assim a solidão, e envenena-nos a sensação amarga duma injustiça, devido à qual até o Céu parece fechar-se-nos. Na realidade, sentimos dificuldade de permanecer em paz com Deus, quando se arruína a relação com os outros e com nós próprios. Por isso mesmo é tão importante, relativamente também à doença, que toda a Igreja se confronte com o exemplo evangélico do bom samaritano, para se tornar um válido «hospital de campanha»: com efeito a sua missão, especialmente nas circunstâncias históricas que atravessamos, exprime-se na prestação de cuidados. Todos somos frágeis e vulneráveis; todos precisamos daquela atenção compassiva que sabe deter-se, aproximar-se, cuidar e levantar. Assim, a condição dos enfermos é um apelo que interrompe a indiferença e abranda o passo de quem avança como se não tivesse irmãs e irmãos.
De facto, o Dia Mundial do Doente não convida apenas à oração e à proximidade com os que sofrem, mas visa ao mesmo tempo sensibilizar o povo de Deus, as instituições de saúde e a sociedade civil para uma nova forma de avançar juntos. A profecia de Ezequiel, já referida atrás, contém um juízo muito duro sobre as prioridades daqueles que exercem, sobre o povo, o poder económico, cultural e governamental: «Vós bebestes o leite, vestistes-vos com a sua lã, matastes as reses mais gordas e não apascentastes as ovelhas. Não tratastes das que eram fracas, não cuidastes da que estava doente, não curastes a que estava ferida; não reconduzistes a transviada; não procurastes a que se tinha perdido, mas a todas tratastes com violência e dureza» (34, 3-4). A Palavra de Deus – não só na denúncia, mas também na proposta – é sempre iluminadora e de hoje. Na realidade, a conclusão da parábola do Bom Samaritano sugere-nos como a prática da fraternidade, que começou por um encontro de indivíduo com indivíduo, se pode alargar para um tratamento organizado. A estalagem, o estalajadeiro, o dinheiro, a promessa de se manterem mutuamente informados (cf. Lc 10, 34-35)… tudo isto faz pensar no ministério de sacerdotes, no trabalho de operadores de saúde e agentes sociais, no empenho de familiares e voluntários, graças aos quais cada dia, em todo o mundo, o bem se opõe ao mal.
Os anos da pandemia aumentaram o nosso sentimento de gratidão por quem diariamente trabalha em prol da saúde e da investigação médica. Mas, ao sair duma tragédia coletiva assim tão grande, não é suficiente o prestar honras aos heróis. A covid-19 pôs à prova esta grande rede de competências e solidariedade e mostrou os limites estruturais dos sistemas de assistência social existentes. Por isso, é necessário que a gratidão seja acompanhada, em cada país, pela busca ativa de estratégias e recursos a fim de serem garantidos a todo o ser humano o acesso aos cuidados médicos e o direito fundamental à saúde.
«Trata bem dele!» (Lc 10, 35): é a recomendação do samaritano ao estalajadeiro. Mas Jesus repete-a igualmente a cada um de nós na exortação conclusiva: «Vai e faz tu também o mesmo». Como evidenciei na encíclica Fratelli tutti, «a parábola mostra-nos as iniciativas com que se pode refazer uma comunidade a partir de homens e mulheres que assumem como própria a fragilidade dos outros, não deixam constituir-se uma sociedade de exclusão, mas fazem-se próximos, levantam e reabilitam o caído, para que o bem seja comum» (nº 67). Efetivamente «fomos criados para a plenitude que só se alcança no amor. Viver indiferentes à dor não é uma opção possível» (nº 68).
E, no dia 11 de fevereiro de 2023, também o Santuário de Lurdes aparece ao nosso olhar como uma profecia, uma lição confiada à Igreja no coração da modernidade. Não tem valor só o que funciona, nem conta só quem produz. As pessoas doentes estão no âmago do povo de Deus, que avança juntamente com eles como profecia duma humanidade onde cada qual é precioso e ninguém deve ser descartado.
À intercessão de Maria, Saúde dos enfermos, confio cada um de vós que estais doentes; vós que cuidais deles em família, com o trabalho, a investigação e o voluntariado; e vós que vos esforçais por tecer laços pessoais, eclesiais e civis de fraternidade. A todos envio de coração a Bênção Apostólica.
Papa Francisco
Mensagem para o Dia Mundial do Doente
Roma, S. João de Latrão, 10-01-2023.
São Vicente, diácono e mártir (+304)
“Qual é hoje a região, qual é a província, até onde quer que se estenda tanto o império romano como o nome de Cristo, que não rejubile por celebrar o dia consagrado a Vicente?” (Santo Agostinho, Sermão 276)
São Vicente é o mais célebre dos mártires hispânicos e o seu dia celebra-se a 22 de Janeiro.
Foi, desde muito cedo, objecto de um culto amplamente difundido na Península Ibérica, França, Itália e norte de África. As Dioceses de Lisboa e do Algarve comungam do mesmo padroeiro e são muitas as paróquias do nosso país que também o veneram.
São Vicente era natural de Huesca, Espanha, e uma vez ordenado diácono para servir a igreja de Saragoça, vai desempenhar a sua missão com grande piedade e sabedoria no anúncio do Evangelho, levando à fé cristã um grande número de pagãos.
Durante o império de Diocleciano, o delegado imperial, Daciano, moveu uma forte perseguição aos cristãos. E porque ele recusara renegar a sua fé e oferecer sacrifícios aos deuses, será cruelmente martirizado até à morte, em 22 de Janeiro de 304.
O jovem diácono, uma vez denunciado e preso com o seu bispo, Valério, será conduzido à presença de Daciano, em Valência. Ao longo da viagem, os soldados infligiram-lhe todo o tipo de maus-tratos.
Aí chegado, foi encarcerado numa escura prisão e deixado sem comida e sem bebida durante vários dias. Depois disso, levaram-no à presença do delegado imperial que o condenou à morte. Uma vez desnudado, através de cordas e a roda de tortura, desarticularam-lhe os seus ossos e quebraram-lhe os seus membros; com pregos e ganchos de ferro, rasgaram-lhe a carne do seu corpo e, por último, atiraram-no às chamas para que fosse devorado pelo fogo.
O culto das suas relíquias rapidamente se espalhou por toda a Península e diz a tradição que, após a invasão muçulmana de 711, os cristãos para poderem protegê-las dos infiéis colocaram-nas numa antiga ermida do promontório de Sagres. Após a conquista de Lisboa aos mouros, D. Afonso Henriques, vai ordenar que sejam trazidas para Lisboa estas relíquias, onde vão repousar na Sé Patriarcal, desde 1173, estabelecendo-se o seu culto na diocese de Lisboa. O mártir de Valência tornou-se assim o padroeiro principal da cidade e da diocese de Lisboa.
Que São Vicente nos dê coragem de testemunhar a nossa fé em todas as circunstâncias e a manifestarmos em público e sem medo a nossa fidelidade a Jesus.
Pe. Alexandre Santos
Festa de S. Vicente | 21 Janeiro
“Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto.” Jo 12, 24
As Dioceses de Lisboa e do Algarve comungam do mesmo padroeiro: S. Vicente. E a sua festa ocorrendo num Domingo ganha prevalência na liturgia. O jovem diácono de Saragoça que, sendo preso com o seu Bispo, Valério, o acompanhou para Valência onde deu testemunho (martiria) da fé em Cristo, pelas palavras e pelos sofrimentos que lhe infligiram até ser morto, tornou-se um dos santos mais queridos na Ibéria. Desenvolvendo-se o culto às suas relíquias, que a tradição dizia estarem no Cabo que tomou o seu nome, no sul de Portugal, D. Afonso Henriques ordenou que fossem trazidas para Lisboa, tendo repousado uma noite na Igreja de Santas Justa e Rufina, e levadas no dia seguinte para a Sé.
Martírio evoca sofrimento, mas o seu sentido etimológico é “testemunha”. E tornou-se, no contexto das perseguições aos cristãos, o nome que identifica “os que testemunham a sua fé em Cristo até à morte”. Numa profunda união com a paixão e morte de Cristo, com os apóstolos e os cristãos que em todos os tempos, e hoje também, deram, e dão a vida pela Boa Nova de Jesus, eles são venerados como santos. Na celebração do Jubileu do ano 2000, o Papa S. João Paulo II sublinhava a “memória dos mártires” como “sinal da verdade do amor cristão”. Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, em 2006, na apresentação da edição portuguesa do seu livro “O século do martírio”, que reuniu a análise de 9600 relatórios de “martírios” no século XX, apontava o carácter ecuménico do martírio, porque “os cristãos estão unidos no martírio”. Disse então o autor: “existe um cristianismo ao mesmo tempo forte e doce, forte e dialogante. Isto quer dizer, utilizando uma passagem das escrituras, “o amor é forte como a morte”, ou seja, o testemunho do martírio é o testemunho de uma característica peculiar do cristianismo que é essa força que brota da fraqueza”.
Jesus não pediu aos discípulos para serem super-heróis, nem fez uma exaltação do sofrimento. Não ofereceu promessas de impassibilidade perante o mal, nem ofereceu “seguros contra todos os riscos”. Deu-nos uma Boa Nova que, vivida plenamente, liberta de tantos sofrimentos que só existem por causa do egoísmo, da ganância, do ódio e da guerra, de que todos somos autores. E advertiu-nos de que não ia ser fácil “aprender a fazer o bem e a procurar a justiça” (belíssimo o tema desta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos!). Que poderíamos ser perseguidos, torturados e mortos por causa do seu nome que, vale a pena lembrar, é “Deus salva”! Sim, salva, pela força do amor até ao fim, que parece tão fraco!
P. Vítor Gonçalves, Voz da Verdade, 22-01-2023








