Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos - 2024
Oração pela Unidade dos Cristãos
(como é rezada pela Comunidade Chemin Neuf)
Senhor Jesus,
que rezastes para que todos nós fôssemos um,
nós vos rogamos pela unidade dos cristãos,
segundo a vossa vontade,
segundo os vossos meios.
Que o Vosso Espírito nos permita
vivenciar o sofrimento causado pela divisão,
ver o nosso pecado e esperar além de toda esperança.
Amém.
(Inspirada numa oração do Abade Paul Couturier, pioneiro da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos)
Datas fundamentais na história da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos
1740 Na Escócia, surgiu um movimento pentecostal, ligado à América do Norte, cuja mensagem de reavivamento incluía preces por e com todas as Igrejas.
1820 O Rev. James Haldane Stewart publica “Orientações para a união geral dos cristãos para o derramamento do Espírito”.
1840 O Rev. Ignatus Spencer, convertido ao catolicismo romano, sugere uma “União de oração pela unidade”.
1867 A Primeira Conferência de Bispos Anglicanos em Lambeth destaca a oração pela unidade no Preâmbulo de suas Resoluções.
1894 O papa Leão XIII estimula a prática de Oitava de Oração pela Unidade, no contexto de Pentecostes.
1908 Primeira vivência da Oitava da Unidade dos Cristãos, iniciativa do Rev. Paul Wattson.
1926 O movimento Fé e Constituição começa a publicar “Sugestões para uma oitava de oração pela unidade dos cristãos”.
1935 O abade Paul Couturier defende uma “Semana Universal de Orações pela Unidade dos Cristãos”, baseada em preces inclusivas pela “unidade que Cristo quiser, pelos meios que ele quiser”.
1958 A Unidade Cristã (Lyon, França) e a Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas começam a preparar em cooperação os materiais para a Semana de Oração.
1964 Em Jerusalém, o papa Paulo VI e o patriarca Atenágoras I rezam juntos a prece de Jesus para “que todos sejam um” (João 17)
1964 O decreto sobre Ecumenismo do Vaticano II enfatiza que a oração é a alma do movimento ecuménico e incentiva a observância da Semana de Oração.
1966 A Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas e o Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos (desde 1989 Pontifício Conselho e a partir de 2022 Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos) começam a preparar oficialmente juntos o material da Semana de Oração.
1968 Primeiro uso oficial do material da Semana de Oração preparado em conjunto por Fé e Constituição e pelo Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos (desde 1989 Pontifício Conselho, e a partir de 2022 Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos).
1975 Primeiro uso de material da Semana de Oração baseado em uma versão inicial de texto preparada por um grupo ecuménico local. Um grupo australiano foi o primeiro a assumir esse projecto, na preparação do texto inicial de 1975.
1988 Os materiais da Semana de Oração foram usados na celebração de fundação da Federação Cristã da Malásia, que une os grupos cristãos maioritários do país.
1994 Um grupo internacional prepara o texto para 1996, incluindo representantes de YMCA e YWCA (Associação Cristã de Jovens).
2004 Formaliza-se um acordo pelo qual os materiais da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos serão publicados e produzidos no mesmo formato por Fé e Constituição (CMI) e pelo Pontifício Conselho [a partir de 2022 Dicastério] para a Promoção da Unidade dos Cristãos (Igreja Católica).
2008 Comemoração do centésimo aniversário da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (sua predecessora, a Oitava da Unidade dos Cristãos, foi observada pela primeira vez em 1908).
Temas da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos – 1968 a 2024
Desde 1968 os subsídios são elaborados conjuntamente pela Comissão “Fé e Constituição” do Conselho Mundial de Igrejas e pelo Pontifício Conselho (hoje Dicastério) para a Promoção da Unidade dos Cristãos. A partir de 1975, o folheto é realizado tendo como base um texto preparado por um grupo ecuménico local de distintos países.
1968 Para o louvor de sua glória (Efésios 1,14)
1969 Chamados à liberdade (Gálatas 5,13) (Reunião preparatório em Roma, Itália)
1970 Somos colaboradores de Deus (1 Coríntios 3,9) (Reunião preparatório no monastério de Niederaltaich, na República Federal Alemã)
1971 ... e a comunhão do Espírito Santo (2 Coríntios 13.13)
1972 Eu vos dou um novo mandamento (João 13,34) (Reunião preparatório em Genebra, Suíça)
1973 Senhor, ensina-nos a orar (Lucas 11,1) (Reunião preparatório no mosteiro de Montserrat, Espanha)
1974 Que toda língua confesse: Jesus Cristo é o Senhor (Filipenses 2,1-13) (Reunião preparatório em Genebra, Suíça)
1975 Plano de Deus: todas as coisas em Cristo (Efésios 1,3-10) (Texto base da Austrália; Reunião preparatório em Genebra, Suíça)
1976 Seremos como Ele (João 3,2) ou Chamados a ser o que somos (Texto base da Conferência Caribenha de Igrejas; reunião preparatório em Roma, Itália)
1977 A esperança não nos decepciona (Romanos 5,15) (Texto base do Líbano, no meio de uma guerra civil; reunião preparatório em Genebra, Suíça)
1978 Não sois mais estrangeiros (Efésios 2,13-22) (Texto base de Manchester, Inglaterra)
1979 Servi uns aos outros para a glória de Deus (1 Pedro 4,7-11) (Texto base da Argentina; reunião preparatório em Genebra, Suíça)
1980 Que venha o teu Reino! (Mateus 6,10) (Texto base de Berlim, República Democrática Alemã; reunião preparatório em Milão)
1981 Um Espírito – muitos dons – um só corpo (1 Coríntios 12,3b-13) (Texto base de Graymoor Fathers, USA; reunião preparatório em Genebra, Suíça)
1982 Que todos estejam na tua casa, Senhor (Salmo 84) (Texto base do Quénia; reunião preparatório em Milão, Itália)
1983 Jesus Cristo- a Vida do mundo (1 João 1,1-4) (Texto base da Irlanda; reunião preparatório em Céligny, Suíça)
1984 Chamados a ser um pela cruz de nosso Senhor (2 Coríntios 2,2 e Colossenses 1,20) (Reunião preparatório em Veneza, Itália)
1985 Da morte à vida com Cristo (Efésios 2,4-7) (Texto base da Jamaica; reunião preparatório em Grandchamp, Suíça)
1986 Vós sereis minhas testemunhas (Atos 1,6-8) (Texto base da Iugoslávia- Eslovénia; reunião preparatório na Iugoslávia)
1987 Unidos em Cristo – uma nova criação (2 Coríntios 5,17 a 6,4a) (Texto base de Inglaterra; reunião preparatório em Taizé, França)
1988 O amor de Deus afasta o medo (1 João 4,18) (Texto base da Itália; reunião preparatório em Pinerolo, Itália)
1989 Construindo a comunidade: um só corpo em Cristo (Romanos 12,5-6a) (Texto base do Canadá; reunião preparatório em Whaley Bridge, Inglaterra)
1990 Que todos sejam um... para que o mundo creia (João 17) (Texto base da Espanha; reunião preparatório em Madrid, Espanha)
1991 Louvai ao Senhor, todas as nações (Salmo 117 e Romanos 15,5-13) (Texto base da Alemanha; reunião preparatório em Rotenberg an der Fulda, República Federal da Alemanha)
1992 Estou convosco sempre... Ide, portanto (Mateus 28,16-20) (Texto base da Bélgica; reunião preparatório em Bruges, Bélgica)
1993 Dando frutos no Espírito para a unidade cristã (Gálatas 5,22-23) (Texto base do Zaire; reunião preparatório em Zurich, Suíça)
1994 A casa de Deus: chamados a ser um no coração e na mente (At 4,23-37) (Texto base da Irlanda; reunião preparatório em Dublin, República da Irlanda)
1995 Koinonia: comunhão em Deus e uns com os outros (João 15,1-17) (Texto base de Fé e Constituição; reunião preparatório em Bristol, Inglaterra)
1996 Eis que estou à porta e bato (Apocalipse 3,4-22) (Texto base de Portugal; reunião preparatório em Lisboa, Portugal)
1997 Em nome de Cristo, reconciliai-vos com Deus (2 Coríntios 5,20) (Texto base do Conselho Ecuménico Nórdico; reunião preparatório em Estocolmo, Suécia)
1998 O Espírito socorre a nossa fraqueza (Romanos 8,14-27) (Texto base da França; reunião preparatório em Paris, França)
1999 Deus habitará com eles. Será seu Deus e eles serão seu povo (Apocalipse 21,1-7) (Texto base da Malásia; reunião preparatório no mosteiro de Bose, Itália)
2000 Louvado seja Deus, que nos abençoou em Cristo (Efésios 1,3-14) (Texto base do Conselho de Igrejas do Oriente Médio; reunião preparatório em La Verna, Itália)
2001 Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (João 14,1-6) (Texto base da Roménia; reunião preparatório em Vulcan, Roménia)
2002 Em ti está a fonte da vida (Salmo 36,5-9) (Texto base do CEEC e CEC; reunião preparatório perto de Augsburg, Alemanha)
2003 Trazemos este tesouro em vasos de argila (2 Coríntios 4,4-18) (Texto base da Argentina; reunião preparatório em Los Rubios, Espanha)
2004 Eu vos dou a minha paz (João 14,23-31 e João 14,27) (Texto base de Aleppo, Síria; reunião preparatório em Palermo, Sicília)
2005 Cristo, o único fundamento da Igreja (1 Coríntios 3,1-23) (Texto base da Eslováquia; reunião preparatório em Piestany, Eslováquia)
2006 Quando dois ou três se reúnem em meu nome, eu estou no meio deles (Mateus 18,18-20) (Texto base da Irlanda; reunião preparatório em Prosperous, Co. Kildare, Irlanda)
2007 Ele faz os mudos falarem e os surdos ouvirem (Marcos 7,31-37) (Texto base da África do Sul; reunião preparatório em Faverges, França)
2008 Orai sem cessar (1 Tessalonicenses 5,12a.13b-18) (Texto base dos USA; reunião preparatório em Graymoor, Garrison, USA)
2009 Unidos em tua mão (Ezequiel 37,15-28) (Texto base da Coreia; reunião preparatório em Marselha, França)
2010 Vós sois testemunhas disso (Lucas 24,48) (Texto base da Escócia; reunião preparatório em Glasgow, Escócia)
2011 Unidos no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fracção do pão e nas orações (cf. Atos 2,42) (Texto base de Jerusalém; reunião preparatório em Saydnaya, Síria)
2012 Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Coríntios 15,51-58) (Texto base da Polónia; reunião preparatório realizado em Varsóvia, Polónia)
2013 O que Deus exige de nós? (cf. Miqueias 6,6-8) (Texto base da Índia; encontro preparatório realizado em Bangalore, Índia)
2014 A caso o Cristo está dividido? (1 Coríntios 1,1-17) (Texto base do Canadá; encontro preparatório realizado em Montreal, Canadá)
2015 Jesus lhe disse: Dá-me de beber (João 4,7) (Texto base do Brasil; reunião preparatório realizado em São Paulo, Brasil)
2016 Chamados a proclamar os altos feitos do Senhor (cf. 1 Pedro 2,9) (Texto base da Letónia; reunião preparatório realizado em Riga, Látvia)
2017 Reconciliação – É o amor de Cristo que nos impele (cf. 2 Coríntios 5,4-20) (Texto base da Alemanha; reunião preparatório realizado em Wittenberg, Alemanha)
2018 A tua destra, Senhor, esplendorosa de poder (Ex 15,6) (Texto base do Caribe; reunião preparatório realizado em Nassau, Bahamas)
2019 Procurarás a justiça, nada além da justiça (Deuteronómio 16,18-20) (Texto base da Indonésia; reunião preparatório realizado em Jakarta, Indonésia)
2020 Eles nos demonstraram uma benevolência fora do comum (Atos 28,2) (Texto base de Malta; reunião preparatório realizado em Rabat, Malta)
2021 Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos (cf. João 15,8-9) (Texto base da Comunidade de Grandchamp – Reunião preparatória realizada em Areuse, Suíça)
2022 Vimos sua estrela no Oriente e viemos prestar-lhe homenagem (Mt 2,2) (Texto base do Conselho de Igrejas do Oriente Médio, Líbano– Reunião preparatória realizada online)
2023 Aprendei a fazer o bem, procurai a justiça (Isaías 1,7) (Texto base do Conselho de Igrejas de Minnesota, USA – Reunião preparatória realizada em Bossey, Suíça)
2024 Amarás ao Senhor teu Deus... e ao teu próximo como a ti mesmo (Lc 10,27) (Texto base da Burkina Faso; reunião preparatória realizada em Roma, Itália)
Fonte: Dicastéro para a Promoção da Unidade dos Cristãos
e Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas.
Dia Mundial das Missões 2023
Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões 2023
Corações ardentes, pés ao caminho (cf. Lc 24, 13-15)
Queridos irmãos e irmãs!
Para o Dia Mundial das Missões deste ano escolhi um tema que se inspira na história dos discípulos de Emaús, narrada por Lucas no seu Evangelho (cf. 24, 13-35): «Corações ardentes, pés ao caminho». Aqueles dois discípulos estavam confusos e desiludidos, mas o encontro com Cristo na Palavra e no Pão partido acendeu neles o entusiasmo para pôr os pés ao caminho rumo a Jerusalém e anunciar que o Senhor tinha verdadeiramente ressuscitado. Na narração evangélica, apreendemos a transformação dos discípulos a partir de algumas imagens sugestivas: corações ardentes pelas Escrituras explicadas por Jesus, olhos abertos para O reconhecer e, como ponto culminante, pés ao caminho. Meditando sobre estes três aspetos, que traçam o itinerário dos discípulos missionários, podemos renovar o nosso zelo pela evangelização no mundo de hoje.
1. Corações ardentes, «quando nos explicava as Escrituras». A Palavra de Deus ilumina e transforma o coração na missão.
No caminho de Jerusalém para Emaús, os corações dos dois discípulos estavam tristes – como transparecia dos seus rostos – por causa da morte de Jesus, em Quem haviam acreditado (cf. 24, 17). Perante o fracasso do Mestre crucificado, a esperança de que fosse Ele o Messias, desmoronou-se neles (cf. 24, 21).
E eis que, «enquanto conversavam e discutiam, aproximou-Se deles o próprio Jesus e pôs-Se com eles a caminho» (24, 15). Como no início da vocação dos discípulos, também agora, no momento da frustração, o Senhor toma a iniciativa de Se aproximar dos seus discípulos e caminhar a par deles. Na sua grande misericórdia, Ele nunca Se cansa de estar connosco, apesar dos nossos defeitos, dúvidas, fraquezas e não obstante a tristeza e o pessimismo nos reduzam a «homens sem inteligência e lentos de espírito» (24, 25), pessoas de pouca fé.
Hoje como então, o Senhor ressuscitado está próximo dos seus discípulos missionários e caminha a par deles, sobretudo quando se sentem frustrados, desanimados, temerosos perante o mistério da iniquidade que os rodeia e quer sufocá-los. Por isso, «não deixemos que nos roubem a esperança!» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 86). O Senhor é maior do que os nossos problemas, sobretudo quando os encontramos ao anunciar o Evangelho ao mundo, porque esta missão, afinal, é d’Ele e nós somos simplesmente os seus humildes colaboradores, «servos inúteis» (cf. Lc 17, 10).
Em Cristo, expresso a minha proximidade a todos os missionários e missionárias do mundo, especialmente àqueles que atravessam um momento difícil: caríssimos, o Senhor ressuscitado está sempre convosco e vê a vossa generosidade e os vossos sacrifícios em prol da missão evangelizadora em lugares distantes. Nem todos os dias da vida são cheios de sol, mas lembremo-nos sempre das palavras do Senhor Jesus aos seus amigos, antes da Paixão: «No mundo, tereis tribulações; mas tende confiança: Eu já venci o mundo!» (Jo 16, 33).
Depois de ouvir os dois discípulos no caminho de Emaús, Jesus ressuscitado, «começando por Moisés e seguindo por todos os profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que Lhe dizia respeito» (Lc 24, 27). E os corações dos discípulos inflamaram-se, como no fim haviam de confidenciar um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» (24, 32). Na realidade, Jesus é a Palavra viva, a única que pode fazer arder, iluminar e transformar o coração.
Assim compreendemos melhor a afirmação de São Jerónimo: «A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo» (Commentarii in Isaiam, Prologus). «Sem o Senhor que nos introduz na Sagrada Escritura, é impossível compreendê-la em profundidade; mas é verdade também o contrário, ou seja, que, sem a Sagrada Escritura, permanecem indecifráveis os acontecimentos da missão de Jesus e da sua Igreja no mundo» (Francisco, Carta ap. sob forma de Motu Proprio Aperuit illis, 1). Por isso, o conhecimento da Escritura é importante para a vida do cristão e, mais ainda, para o anúncio de Cristo e do seu Evangelho. Caso contrário, que iríamos transmitir aos outros senão as próprias ideias e projetos? E poderia alguma vez um coração frio fazer arder o dos outros?
Portanto, deixemo-nos sempre acompanhar pelo Senhor ressuscitado que nos explica o sentido das Escrituras. Deixemos que Ele faça arder o nosso coração, nos ilumine e transforme, para podermos anunciar ao mundo o seu mistério de salvação com a força e a sabedoria que vêm do seu Espírito.
2. Olhos que «se abriram e O reconheceram» ao partir o pão. Jesus na Eucaristia é ápice e fonte da missão.
Os corações ardentes pela Palavra de Deus impeliram os discípulos de Emaús a pedir ao misterioso Viandante que ficasse com eles ao cair da noite. E, encontrando-se ao redor da mesa, os seus olhos abriram-se e reconheceram-No, quando Ele partiu o pão. O elemento decisivo que abre os olhos dos discípulos é a sequência de ações efetuadas por Jesus: tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-lho. São gestos comuns de qualquer chefe de família judia, mas, realizados por Jesus Cristo com a graça do Espírito Santo, renovam para os dois comensais o sinal da multiplicação dos pães e sobretudo da Eucaristia, o sacramento do Sacrifício da cruz. Mas, precisamente no momento em que reconhecem Jesus n’Aquele-que-parte-o-pão, «Ele desapareceu da sua presença» (Lc 24, 31). Este facto faz compreender uma realidade essencial da nossa fé: Cristo que parte o pão, torna-Se agora o Pão partido, partilhado com os discípulos e depois consumido por eles. Tornou-Se invisível, porque agora entrou dentro do coração dos discípulos para fazê-los arder ainda mais, impelindo-os a retomar sem demora o seu caminho para comunicar a todos a experiência única do encontro com o Ressuscitado! Assim, Cristo ressuscitado é Aquele-que-parte-o-pão e, simultaneamente, o Pão-partido-para-nós. E, por conseguinte, cada discípulo missionário é chamado a tornar-se, como Jesus e n’Ele, graças à ação do Espírito Santo, aquele-que-parte-o-pão e aquele-que-é-pão-partido para o mundo.
A propósito, é preciso ter presente que, se o simples repartir o pão material com os famintos em nome de Cristo já é um ato cristão missionário, quanto mais o será o repartir o Pão eucarístico, que é o próprio Cristo? Trata-se da ação missionária por excelência, porque a Eucaristia é fonte e ápice da vida e missão da Igreja.
Assim no-lo recordou o Papa Bento XVI: «Não podemos reservar para nós o amor que celebramos neste sacramento [da Eucaristia]: por sua natureza, pede para ser comunicado a todos. Aquilo de que o mundo tem necessidade é do amor de Deus, é de encontrar Cristo e acreditar n’Ele. Por isso, a Eucaristia é fonte e ápice não só da vida da Igreja, mas também da sua missão: uma Igreja autenticamente eucarística é uma Igreja missionária» (Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis, 84).
Para dar fruto, devemos permanecer unidos a Ele (cf. Jo 15, 4-9). E esta união realiza-se através da oração quotidiana, particularmente na adoração, no permanecer em silêncio diante do Senhor, que está connosco na Eucaristia. Cultivando amorosamente esta comunhão com Cristo, o discípulo missionário pode tornar-se um místico em ação. Que o nosso coração anele sempre pela companhia de Jesus, suspirando conforme o ardente pedido dos dois de Emaús, sobretudo ao entardecer: «Fica connosco, Senhor!» (cf. Lc 24, 29).
3. Pés ao caminho, com a alegria de proclamar Cristo Ressuscitado. A eterna juventude duma Igreja sempre em saída.
Depois de abrir os olhos ao reconhecerem Jesus na fração do pão, os discípulos partiram sem demora e voltaram para Jerusalém (cf. Lc 24, 33). Este sair apressado para partilhar com os outros a alegria do encontro com o Senhor, mostra que «a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 1). Não se pode encontrar verdadeiramente Jesus ressuscitado, sem se inflamar no desejo de o contar a todos. Por isso, o primeiro e principal recurso da missão são aqueles que reconheceram Cristo ressuscitado, nas Escrituras e na Eucaristia, e que trazem o seu fogo no coração e a sua luz no olhar. Eles podem testemunhar a vida que não morre jamais, mesmo nas situações mais difíceis e nos momentos mais escuros.
A imagem de pôr os «pés ao caminho» recorda-nos mais uma vez a validade perene da missio ad gentes, a missão confiada pelo Senhor ressuscitado à Igreja: evangelizar toda a pessoa e todos os povos até aos confins da terra. Hoje, mais do que nunca, a humanidade, ferida por tantas injustiças, divisões e guerras, precisa da Boa Nova da paz e da salvação em Cristo. Por isso, aproveito esta ocasião para reiterar que «todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de o anunciar sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível» (Ibid., 14). A conversão missionária permanece o principal objetivo que nos devemos propor como indivíduos e como comunidade, porque «a ação missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja» (Ibid., 15).
Como afirma o apóstolo Paulo, o amor de Cristo conquista-nos e impele-nos (cf. 2 Cor 5, 14). Trata-se aqui do duplo amor: o de Cristo por nós que apela, inspira e suscita o nosso amor por Ele. E é este amor que torna sempre jovem a Igreja em saída, com todos os seus membros em missão para anunciar o Evangelho de Cristo, convencidos de que «Ele morreu por todos, a fim de que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou» (2 Cor 5, 15). Todos podem contribuir para este movimento missionário: com a oração e a ação, com ofertas de dinheiro e de sofrimento, com o próprio testemunho. As Pontifícias Obras Missionárias são o instrumento privilegiado para favorecer esta cooperação missionária a nível espiritual e material. Por isso, a recolha de ofertas no Dia Mundial das Missões é destinada à Pontifícia Obra da Propagação da Fé.
A urgência da ação missionária da Igreja comporta naturalmente uma cooperação missionária, cada vez mais estreita, de todos os seus membros a todos os níveis. Este é um objetivo essencial do percurso sinodal que a Igreja está a realizar com as palavras-chave comunhão, participação, missão. Seguramente tal percurso não é um fechar-se da Igreja sobre si mesma; não é um processo de sondagem popular para decidir, como num parlamento, o que é preciso, ou não, acreditar e praticar segundo as preferências humanas. Pelo contrário, é pôr-se a caminho como os discípulos de Emaús, escutando o Senhor ressuscitado que não cessa de vir juntar-Se a nós para nos explicar o sentido das Escrituras e partir o pão para nós, a fim de podermos levar avante, com a força do Espírito Santo, a sua missão no mundo.
Assim como aqueles dois discípulos narraram aos outros o que lhes tinha acontecido pelo caminho (cf. Lc 24, 35), assim também o nosso anúncio há de ser uma jubilosa narração de Cristo Senhor, da sua vida, da sua paixão, morte e ressurreição, das maravilhas que o seu amor realizou na nossa vida.
Portanto saiamos também nós, iluminados pelo encontro com o Ressuscitado e animados pelo seu Espírito. Saiamos com corações ardentes, olhos abertos, pés ao caminho, para fazer arder outros corações com a Palavra de Deus, abrir outros olhos para Jesus Eucaristia, e convidar todos a caminharem juntos pelo caminho da paz e da salvação que Deus, em Cristo, deu à humanidade.
Santa Maria do Caminho, Mãe dos discípulos missionários de Cristo e Rainha das missões, rogai por nós!
Roma, 6 de janeiro de 2023.
Papa Francisco
Viagem Apostólica a Portugal: JMJ
PAPA FRANCISCO
Audiência Geral de 09-08-2023
Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Nos últimos dias fui a Portugal para a 37ª Jornada Mundial da Juventude.
Esta JMJ de Lisboa, que veio depois da pandemia, foi sentida por todos como dom de Deus, que voltou a colocar em movimento os corações e os passos dos jovens, muitos jovens de todas as partes do mundo – muitos! – para se encontrarem e encontrar Jesus.
A pandemia, como bem sabemos, incidiu gravemente nos comportamentos sociais: muitas vezes o isolamento degenerou em fechamento, e os jovens foram particularmente atingidos. Com esta Jornada Mundial da Juventude, Deus deu um “empurrão” na direção oposta: marcou um novo início da grande peregrinação dos jovens pelos continentes, em nome de Jesus Cristo. E não foi por acaso que se realizou em Lisboa, uma cidade virada para o oceano, cidade-símbolo das grandes explorações marítimas.
Assim, na Jornada mundial da juventude o Evangelho propôs aos jovens o modelo da Virgem Maria. No momento mais crítico para ela, [Maria] vai visitar a sua prima Isabel. Diz o Evangelho: «levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39) gosto muito de invocar Nossa Senhora sob este aspeto: Nossa Senhora “apressada”, que sempre faz as coisas apressadamente, nunca nos faz esperar, pois Ela é a mãe de todos. Assim hoje, no terceiro milénio, Maria guia a peregrinação dos jovens no seguimento de Jesus. Como fez há um século em Portugal, em Fátima, quando se dirigiu a três crianças, confiando-lhes uma mensagem de fé e de esperança para a Igreja e para o mundo. Por isso, na JMJ, voltei a Fátima, ao lugar da aparição, e juntamente com alguns jovens doentes rezei para que Deus cure o mundo das doenças da alma: soberba, mentira, inimizade, violência – são doenças da alma e o mundo está doente destas enfermidades. E renovámos a nossa consagração, da Europa, do mundo ao Coração de Maria, ao Imaculado Coração de Maria. Rezei pela paz, pois há muitas guerras em todas as partes do mundo, demasiadas.
Os jovens de todo o mundo foram a Lisboa muito numerosos e com grande entusiasmo. Encontrei-me com eles inclusive em pequenos grupos, e alguns com muitos problemas; o grupo dos jovens ucranianos traziam histórias que eram dolorosas. Não eram férias, nem uma viagem turística e muito menos um evento espiritual por si só; a Jornada da juventude é um encontro com Cristo vivo através da Igreja. Os jovens vão encontrar Cristo. É verdade, onde há jovens há alegria e um pouco de todas as coisas.
A minha visita a Portugal, por ocasião da JMJ, beneficiou do clima festivo dela, onda de jovens. Dou graças a Deus por isso, pensando sobretudo na Igreja de Lisboa que, em troca do grande esforço feito para a organizar e acolher, receberá novas energias para prosseguir o novo caminho, para lançar de novo as redes com paixão apostólica. Os jovens em Portugal já são uma presença vital, e agora, depois desta “transfusão” recebida das Igrejas de todo o mundo, tornar-se-ão ainda mais. E muitos jovens, no regresso, passaram por Roma, estou a vê-los também aqui, há alguns que participaram nesta Jornada. Ei-los! Onde estão os jovens há barulho, sabem fazer isto bem!
Enquanto na Ucrânia e noutros lugares do mundo há combates, e enquanto em certos salões escondidos se planeia a guerra – isto é terrível, planear a guerra! – a JMJ mostrou a todos que outro mundo é possível: um mundo de irmãos e irmãs, onde as bandeiras de todos os povos flutuam juntas, lado a lado, sem ódio, sem medo, sem fechamentos, sem armas! A mensagem dos jovens foi clara: será ouvida pelos “grandes da terra”? Pergunto-me, ouvirão este entusiasmo juvenil que deseja paz? É uma parábola para o nosso tempo, e ainda hoje Jesus diz: «Quem tem ouvidos, ouça! Quem tem olhos, veja!». Esperemos que todo o mundo escute esta Jornada da Juventude e olhe para esta beleza dos jovens indo em frente.
Expresso novamente a minha gratidão a Portugal, a Lisboa, ao Presidente da República, que esteve presente em todas as celebrações, e às demais Autoridades civis; ao Patriarca de Lisboa – que trabalhou muito bem! – ao Presidente da Conferência Episcopal e ao Bispo coordenador da Jornada mundial da juventude, a todos os colaboradores e voluntários. Pensai que os voluntários – encontrei-me com eles no último dia, antes de voltar – eram 25 mil: esta jornada teve 25 mil voluntários! Obrigado a todos! Por intercessão da Virgem Maria, o Senhor abençoe os jovens do mundo inteiro e abençoe o povo português. Peçamos juntos a Nossa Senhora, todos juntos, para que Ela abençoe o povo português.
Papa Francisco, 09-08-2023
Falar com o coração!
A Igreja católica celebra, no próximo dia 21 de maio, o Dia Mundial das Comunicações Sociais. O Papa Francisco, na Mensagem que publicou para este dia, assinala a necessidade de se “falar com o coração” e na importância do coração na atitude da comunicação para que seja possível testemunhar a verdade. Aqui fica a sua mensagem.
Falar com o coração. “Testemunhando a verdade no amor” (Ef 4, 15)
Estimados irmãos e irmãs!
Depois de ter refletido, nos anos anteriores, sobre os verbos «ir e ver» e «escutar» como condição necessária para uma boa comunicação, com esta Mensagem para o LVII Dia Mundial das Comunicações Sociais gostaria de me deter sobre o «falar com o coração». Foi o coração que nos moveu para ir, ver e escutar, e é o coração que nos move para uma comunicação aberta e acolhedora. Após o nosso treino na escuta, que requer saber esperar e paciência, e o treino na renúncia a impor em detrimento dos outros o nosso ponto de vista, podemos entrar na dinâmica do diálogo e da partilha que é, em concreto, comunicar cordialmente. E, se escutarmos o outro com coração puro, conseguiremos também falar testemunhando a verdade no amor (cf. Ef 4, 15). Não devemos ter medo de proclamar a verdade, por vezes incómoda, mas de o fazer sem amor, sem coração. Com efeito «o programa do cristão – como escreveu Bento XVI – é “um coração que vê”» [1]. Trata-se de um coração que revela, com o seu palpitar, o nosso verdadeiro ser e, por essa razão, deve ser ouvido. Isto leva o ouvinte a sintonizar-se no mesmo comprimento de onda, chegando ao ponto de sentir no próprio coração também o pulsar do outro. Então pode ter lugar o milagre do encontro, que nos faz olhar uns para os outros com compaixão, acolhendo as fragilidades recíprocas com respeito, em vez de julgar a partir dos boatos semeando discórdia e divisões.
Jesus chama-nos a atenção de que cada árvore se conhece pelo seu fruto (cf. Lc 6, 44). De igual modo «o homem bom, do bom tesouro do seu coração, tira o que é bom; e o mau, do mau tesouro, tira o que é mau; pois a boca fala da abundância do coração» (6, 45). Por conseguinte, para se poder comunicar testemunhando a verdade no amor, é preciso purificar o próprio coração. Só ouvindo e falando com o coração puro é que podemos ver para além das aparências, superando o rumor confuso que, mesmo no campo da informação, não nos ajuda a fazer o discernimento na complexidade do mundo em que vivemos. O apelo para se falar com o coração interpela radicalmente este nosso tempo, tão propenso à indiferença e à indignação, baseada por vezes até na desinformação que falsifica e instrumentaliza a verdade.
Comunicar cordialmente
Comunicar cordialmente quer dizer que a pessoa que nos lê ou escuta é levada a deduzir a nossa participação nas alegrias e receios, nas esperanças e sofrimentos das mulheres e homens do nosso tempo. Quem assim fala, ama o outro, pois preocupa-se com ele e salvaguarda a sua liberdade, sem a violar. Podemos ver este estilo no misterioso Viandante que dialoga com os discípulos a caminho de Emaús depois da tragédia que se consumou no Gólgota. A eles, Jesus ressuscitado fala com o coração, acompanhando com respeito o caminho da sua amargura, propondo-Se e não Se impondo, abrindo-lhes amorosamente a mente à compreensão do sentido mais profundo do sucedido. De facto, eles podem exclamar com alegria que o coração lhes ardia no peito enquanto Ele conversava pelo caminho e lhes explicava as Escrituras (cf. Lc 24, 32).
Num período da história marcado por polarizações e oposições – de que, infelizmente, nem a comunidade eclesial está imune – o empenho em prol duma comunicação «de coração e braços abertos» não diz respeito exclusivamente aos agentes da informação, mas é responsabilidade de cada um. Todos somos chamados a procurar a verdade e a dizê-la, fazendo-o com amor. De modo particular nós, cristãos, somos exortados a guardar continuamente a língua do mal (cf. Sl 34, 14), pois com ela – como ensina a Escritura – podemos bendizer o Senhor e amaldiçoar os homens feitos à semelhança de Deus (cf. Tg 3, 9). Da nossa boca, não deveriam sair palavras más, «mas apenas a que for boa, que edifique, sempre que necessário, para que seja uma graça para aqueles que a escutam» (Ef 4, 29).
Por vezes, o falar amável abre uma brecha até nos corações mais endurecidos. Encontramos vestígios disto na própria literatura; penso naquela página memorável do cap. XXI do livro Promessi Sposi, onde Luzia fala com o coração ao Inominável até que este, desarmado e atormentado por uma benéfica crise interior, cede à força gentil do amor. Experimentamo-lo na convivência social, onde a gentileza não é questão apenas de «etiqueta», mas um verdadeiro antídoto contra a crueldade, que pode, infelizmente, envenenar os corações e intoxicar as relações. Precisamos daquele falar amável no âmbito dos mass media, para que a comunicação não fomente uma aversão que exaspere, gere ódio e conduza ao confronto, mas ajude as pessoas a refletir calmamente, a decifrar com espírito crítico e sempre respeitoso a realidade onde vivem.
A comunicação de coração a coração: «Basta amar bem para dizer bem»
Um dos exemplos mais luminosos e, ainda hoje, fascinantes deste «falar com o coração» temo-lo em São Francisco de Sales, Doutor da Igreja, a quem dediquei recentemente a Carta Apostólica Totum amoris est, nos 400 anos da sua morte. A par deste aniversário importante e relacionado com a mesma circunstância, apraz-me recordar outro que se celebra neste ano de 2023: o centenário da sua proclamação como padroeiro dos jornalistas católicos, feita por Pio XI com a Encíclica Rerum omnium perturbationem. Mente brilhante, escritor fecundo, teólogo de grande profundidade, Francisco de Sales foi bispo de Genebra no início do século XVII, em anos difíceis marcados por animadas disputas com os calvinistas. A sua mansidão, humanidade e predisposição a dialogar pacientemente com todos, e de modo especial com quem se lhe opunha, fizeram dele uma extraordinária testemunha do amor misericordioso de Deus. Dele se pode dizer que as suas «palavras amáveis multiplicam os amigos, a linguagem afável atrai muitas respostas agradáveis» ( Sir 6, 5). Aliás uma das suas afirmações mais célebres – «o coração fala ao coração» – inspirou gerações de fiéis, entre os quais se conta São John Henry Newman que a escolheu para seu lema: Cor ad cor loquitur. «Basta amar bem para dizer bem»: constituía uma das suas convicções. Isto prova como, para ele, a comunicação nunca deveria reduzir-se a um artifício, a uma estratégia de marketing – diríamos nós hoje –, mas era o reflexo do íntimo, a superfície visível dum núcleo de amor invisível aos olhos. Para São Francisco de Sales, precisamente «no coração e através do coração é que se realiza aquele subtil e intenso processo unitário em virtude do qual o homem reconhece a Deus» [2]. «Amando bem», São Francisco conseguiu comunicar com o surdo-mudo Martinho tornando-se seu amigo, e daí ser recordado também como protetor das pessoas com deficiências comunicativas.
É a partir deste «critério do amor» que o santo bispo de Genebra nos recorda, através dos seus escritos e do próprio testemunho de vida, que «somos aquilo que comunicamos»: uma lição contracorrente hoje, num tempo em que, como experimentamos particularmente nas redes sociais, a comunicação é muitas vezes instrumentalizada para que o mundo nos veja, não por aquilo que somos, mas como desejaríamos ser. São Francisco de Sales difundiu em grande número cópias dos seus escritos na comunidade de Genebra. Esta intuição «jornalística» valeu-lhe uma fama que superou rapidamente o perímetro da sua diocese e perdura ainda nos nossos dias. Como observou São Paulo VI, os seus escritos suscitam «uma leitura sumamente agradável, instrutiva e estimulante» [3]. Pensando no atual panorama da comunicação, não são estas precisamente as caraterísticas de que se deveriam revestir um artigo, uma reportagem, um serviço radiotelevisivo ou uma mensagem nas redes sociais? Possam os agentes da comunicação sentir-se inspirados por este Santo da ternura, procurando e narrando a verdade com coragem e liberdade, mas rejeitando a tentação de usar expressões sensacionalistas e agressivas.
Falar com o coração no processo sinodal
Como já tive oportunidade de salientar, «também na Igreja há grande necessidade de escutar e de nos escutarmos. É o dom mais precioso e profícuo que podemos oferecer uns aos outros» [4]. Duma escuta sem preconceitos, atenta e disponível, nasce um falar segundo o estilo de Deus, que se sustenta de proximidade, compaixão e ternura. Na Igreja, temos urgente necessidade duma comunicação que inflame os corações, seja bálsamo nas feridas e ilumine o caminho dos irmãos e irmãs. Sonho uma comunicação eclesial que saiba deixar-se guiar pelo Espírito Santo, gentil e ao mesmo tempo profética, capaz de encontrar novas formas e modalidades para o anúncio maravilhoso que é chamada a proclamar no terceiro milénio. Uma comunicação que coloque no centro a relação com Deus e com o próximo, especialmente o mais necessitado, e esteja mais preocupada em acender o fogo da fé do que em preservar as cinzas duma identidade autorreferencial. Uma comunicação, cujas bases sejam a humildade no escutar e o desassombro no falar e que nunca separe a verdade do amor.
Desarmar os ânimos promovendo uma linguagem de paz
«A língua branda pode até quebrarossos»: lê-se no livro dos Provérbios (25, 15). Hoje é tão necessário falar com o coração para promover uma cultura de paz, onde há guerra; para abrir sendas que permitam o diálogo e a reconciliação, onde campeiam o ódio e a inimizade. No dramático contexto de conflito global que estamos a viver, urge assegurar uma comunicação não hostil. É necessário vencer «o hábito de denegrir rapidamente o adversário, aplicando-lhe atributos humilhantes, em vez de se enfrentarem num diálogo aberto e respeitoso» [5]. Precisamos de comunicadores prontos a dialogar, ocupados na promoção dum desarmamento integral e empenhados em desmantelar a psicose bélica que se aninha nos nossos corações, como exortava profeticamente São João XXIII na Encíclica Pacem in terris: «a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio [de armamentos], mas sim e exclusivamente na confiança mútua» (n.º 113). Uma confiança que precisa de comunicadores não postos à defesa, mas ousados e criativos, prontos a arriscar na procura dum terreno comum onde encontrar-se. Também agora, como há 60 anos, a humanidade vive uma hora escura temendo uma escalada bélica, que deve ser travada o mais depressa possível, inclusivamente em termos de comunicação. Fica-se apavorado ao ouvir com quanta facilidade se pronunciam palavras que invocam a destruição de povos e territórios; palavras que, infelizmente, se convertem muitas vezes em ações bélicas de celerada violência. Por isso mesmo há que rejeitar toda a retórica belicista, assim como toda a forma de propaganda que manipula a verdade, deturpando-a com finalidades ideológicas. Em vez disso seja promovida, a todos os níveis, uma comunicação que ajude a criar as condições para se resolverem as controvérsias entre os povos.
Como cristãos, sabemos que é precisamente na conversão do coração que se decide o destino da paz, pois o vírus da guerra provém do íntimo do coração humano [6]. Do coração brotam as palavras certas para dissipar as sombras dum mundo fechado e dividido e construir uma civilização melhor do que aquela que recebemos. É um esforço que é exigido a todos e cada um de nós, mas faz apelo de modo particular ao sentido de responsabilidade dos agentes da comunicação a fim de realizarem a própria profissão como uma missão.
Que o Senhor Jesus, Palavra pura que brota do coração do Pai, nos ajude a tornar a nossa comunicação livre, limpa e cordial.
Que o Senhor Jesus, Palavra que Se fez carne, nos ajude a colocar-nos à escuta do palpitar dos corações, para nos reconhecermos como irmãos e irmãs e desativarmos a hostilidade que divide.
Que o Senhor Jesus, Palavra de verdade e caridade, nos ajude a dizer a verdade no amor, para nos sentirmos guardiões uns dos outros.
Roma – São João de Latrão,
na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2023.
FRANCISCO
[1] Carta enc. Deus caritas est (25/XII/2005), 31.
[2] Carta ap. Totum amoris est (28/XII/2022).
[3] Epístola apostólica Sabaudiae gemma, no IV centenário do nascimento de São Francisco de Sales, Doutor da Igreja (29/I/1967).
[4] Mensagem para o LVI Dia Mundial das Comunicações Sociais (24/I/2022).
[5] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (03/X/2020), 201.
[6] Cf. Francisco, Mensagem para o LVI Dia Mundial da Paz a 1 de janeiro de 2023 (08/XII/2022), 4.
A arte de ser mãe
Mensagem da Comissão Episcopal do Laicado e Família para o Dia da Mãe
As mães sabem que não basta dar filhos ao mundo, mas é preciso também dar um mundo aos filhos. Um mundo cheio de valores, de esperança e sonhos.
As mães sabem que ser mãe não é ter, é ser. Ser-se quem se é nos filhos e pelos filhos. As mães são aquelas que amam antes de serem amadas. São aquelas que respondem antes de serem chamadas. São aquelas que beijam antes de serem beijadas. São aquelas que correm para o abraço esquecendo o cansaço. Como ninguém, as mães são capazes de se doar, de perdoar, de compreender, de aceitar e não julgar.
Nenhuma mãe tem em si todas as qualidades humanas e, menos ainda, vive sem erros, mas, apesar de tudo, abraça os filhos tal como são, por poucas qualidades que tenham, por maiores que sejam os seus erros. Uma mãe perdoa sempre. Ainda que de coração sacrificado, prefere pensar que a culpa é sua e não de quem, por vezes, assim a crucifica.
A mãe ensina os filhos a serem mais fortes que os medos, não tanto através de discursos inspirados, mas pela grandeza e humildade do seu exemplo. É capaz de lhes oferecer o mar com um só sorriso e a vida inteira com uma só lágrima, que não será mais que uma gota do imenso mar do seu amor.
Neste tempo de incerteza, confiamos as mães a Maria, que é a mãe de todas as mães. Recordamos as mães que deram à luz durante a pandemia, mães que perderam o emprego ou rendimentos, mães que perderam filhos e estão de luto, mães que lutaram e lutam pela saúde da sua família, mães cuidadoras de idosos e de pessoas com deficiência.
Maria é mãe da esperança, ela que viveu com esta palavra de Simeão: “Uma espada de dor trespassará a tua alma” (Lc 2, 35). Essa alma, por ser toda amor, era infinitamente vulnerável. Quando Maria, durante três dias, andou à procura do seu Filho adolescente, tendo Ele ficado em Jerusalém, quando o seguiu durante a sua vida pública, vendo-o confrontar-se com as incompreensões ou hostilidade de muitos, e – sobretudo – quando o acompanhou no caminho do Calvário, sofreu mais do que qualquer outra mãe.
Contudo, no próprio âmago do seu sofrimento, ela guardou uma confiança inquebrantável. Para lá do seu sofrimento, ela tinha a certeza de que era amada por Deus, mantendo a confiança nele. Maria, que conhece e compreende melhor do que ninguém, os sofrimentos das mães, ensina a viver em paz.
Que as mães não esqueçam que os seus filhos também são filhos de Maria. Com elas, Maria partilha a sua responsabilidade materna, carrega os sofrimentos e as dificuldades dos seus filhos. Com as mães – e ainda mais do que elas – ela deseja a sua felicidade.
Ser mãe é ser feliz somente por ser mãe. Ser mãe é ser amor e amor que ninguém esquece, mas que sempre se agradece.
Que a celebração de mais um Dia da Mãe junte, em coro, as nossas vozes para manifestarmos todo o amor e gratidão para com as nossas mães!
Mensagem da Comissão Episcopal do Laicado e Família








