Papa Francisco, na Festa de São José
Ouvimos ler, no Evangelho, que «José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua esposa» (Mt 1, 24). Nestas palavras, encerra-se já a missão que Deus confia a José: ser custos, guardião. Guardião de quem? De Maria e de Jesus, mas é uma guarda que depois se alarga à Igreja, como sublinhou o Beato João Paulo II: «São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo» (Exort. ap. Redemptoris Custos, 1).
Como realiza José esta guarda? Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entender. Desde o casamento com Maria até ao episódio de Jesus, aos doze anos, no templo de Jerusalém, acompanha com solicitude e amor cada momento. Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida, na ida a Belém para o recenseamento e nas horas ansiosas e felizes do parto; no momento dramático da fuga para o Egipto e na busca preocupada do filho no templo; e depois na vida quotidiana da casa de Nazaré, na carpintaria onde ensinou o ofício a Jesus.
Como vive José a sua vocação de guardião de Maria, de Jesus, da Igreja? Numa constante atenção a Deus, aberto aos seus sinais, disponível mais ao projecto d'Ele que ao seu. E isto mesmo é o que Deus pede a David, como ouvimos na primeira Leitura: Deus não deseja uma casa construída pelo homem, mas quer a fidelidade à sua Palavra, ao seu desígnio; e é o próprio Deus que constrói a casa, mas de pedras vivas marcadas pelo seu Espírito. E José é «guardião», porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento àquilo que o rodeia, e toma as decisões mais sensatas. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão; mas vemos também qual é o centro da vocação cristã: Cristo. Guardemos Cristo na nossa vida, para guardar os outros, para guardar a criação!
Entretanto a vocação de guardião não diz respeito apenas a nós, cristãos, mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação, como se diz no livro de Génesis e nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo ambiente onde vivemos. É guardar as pessoas, cuidar carinhosamente de todas elas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. É cuidar uns dos outros na família: os esposos guardam-se reciprocamente, depois, como pais, cuidam dos filhos, e, com o passar do tempo, os próprios filhos tornam-se guardiões dos pais. É viver com sinceridade as amizades, que são um mútuo guardar-se na intimidade, no respeito e no bem. Fundamentalmente tudo está confiado à guarda do homem, e é uma responsabilidade que nos diz respeito a todos. Sede guardiões dos dons de Deus!
E quando o homem falha nesta responsabilidade, quando não cuidamos da criação e dos irmãos, então encontra lugar a destruição e o coração fica ressequido. Infelizmente, em cada época da história, existem «Herodes» que tramam desígnios de morte, destroem e deturpam o rosto do homem e da mulher.
Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos «guardiões» da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para «guardar», devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura.
A propósito, deixai-me acrescentar mais uma observação: cuidar, guardar requer bondade, requer ser praticado com ternura. Nos Evangelhos, São José aparece como um homem forte, corajoso, trabalhador, mas, no seu íntimo, sobressai uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura!
Hoje, juntamente com a festa de São José, celebramos o início do ministério do novo Bispo de Roma, Sucessor de Pedro, que inclui também um poder. É certo que Jesus Cristo deu um poder a Pedro, mas de que poder se trata? À tríplice pergunta de Jesus a Pedro sobre o amor, segue-se o tríplice convite: apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas. Não esqueçamos jamais que o verdadeiro poder é o serviço, e que o próprio Papa, para exercer o poder, deve entrar sempre mais naquele serviço que tem o seu vértice luminoso na Cruz; deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, abrir os braços para guardar todo o Povo de Deus e acolher, com afecto e ternura, a humanidade inteira, especialmente os mais pobres, os mais fracos, os mais pequeninos, aqueles que Mateus descreve no Juízo final sobre a caridade: quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, doente, na prisão (cf. Mt 25, 31-46). Apenas aqueles que servem com amor capaz de proteger.
Na segunda Leitura, São Paulo fala de Abraão, que acreditou «com uma esperança, para além do que se podia esperar» (Rm 4, 18). Com uma esperança, para além do que se podia esperar! Também hoje, perante tantos pedaços de céu cinzento, há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança. Guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor, é abrir o horizonte da esperança, é abrir um rasgo de luz no meio de tantas nuvens, é levar o calor da esperança! E, para o crente, para nós cristãos, como Abraão, como São José, a esperança que levamos tem o horizonte de Deus que nos foi aberto em Cristo, está fundada sobre a rocha que é Deus.
Guardar Jesus com Maria, guardar a criação inteira, guardar toda a pessoa, especialmente a mais pobre, guardarmo-nos a nós mesmos: eis um serviço que o Bispo de Roma está chamado a cumprir, mas para o qual todos nós estamos chamados, fazendo resplandecer a estrela da esperança: Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!
Peço a intercessão da Virgem Maria, de São José, de São Pedro e São Paulo, de São Francisco, para que o Espírito Santo acompanhe o meu ministério, e, a todos vós, digo: rezai por mim! Amen.
Papa Francisco, Homilia por ocasião da Festa de S. José
– início solene do seu Pontificado – 19 março 2013
Exortação Apostólica sobre São José
REDEMPTORIS CUSTOS
Exortação Apostólica sobre a figura e a Missão de S. JOSÉ na vida de Cristo e da Igreja
INTRODUÇÃO
1. Chamado a proteger o Redentor, «José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa» (Mt 1, 24).
Inspirando-se no Evangelho, os Padres da Igreja, desde os primeiros séculos, puseram em relevo que São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo1, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo.
No centenário da publicação da Carta Encíclica Quamquam pluries do Papa Leão XIII2 e na esteira da plurissecular veneração para com São José, desejo apresentar à vossa consideração, amados Irmãos e Irmãs, algumas reflexões sobre aquele a quem Deus «confiou a guarda dos seus tesouros mais preciosos».3 É para mim uma alegria cumprir este dever pastoral, no intuito de que cresça em todos a devoção ao Patrono da Igreja universal e o amor ao Redentor, que ele serviu de maneira exemplar.
Desta forma, todo o povo cristão não só recorrerá a São José com maior fervor e invocará confiadamente o seu patrocínio, mas também terá sempre diante dos olhos o seu modo humilde e amadurecido de servir e de «participar» na economia da salvação.4 Tenho para mim, efectivamente, que o facto de se considerar novamente a participação do Esposo de Maria no mistério divino permitirá à Igreja, na sua caminhada para o futuro juntamente com toda a humanidade, reencontrar continuamente a própria identidade, no âmbito deste desígnio redentor, que tem o seu fundamento no mistério da Incarnação.
Foi precisamente neste mistério que José de Nazaré «participou» como nenhuma outra pessoa humana, à excepção de Maria, a Mãe do Verbo Incarnado. Ele participou em tal mistério simultaneamente com Maria, envolvido na realidade do mesmo evento salvífico, e foi depositário do mesmo amor, em virtude do qual o eterno Pai «nos predestinou a sermos adoptados como filhos, por intermédio de Jesus Cristo» (Ef 1, 5).
I. O CONTEXTO EVANGÉLICO
O matrimónio com Maria
2. «José, filho de David, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1, 20-21).
Nestas palavras está contido o núcleo central da verdade bíblica sobre São José; é o momento da sua existência ao qual se referem em particular os Padres da Igreja.
O evangelista São Mateus explica o significado deste momento, esboçando também a maneira como José o viveu. Todavia, para se compreender plenamente o seu conteúdo e o seu contexto, é importante ter presente a passagem paralela do Evangelho de São Lucas. Com efeito, a origem da gravidez de Maria, por «obra do Espírito Santo» - posta em relação com o versículo que diz «ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua Mãe, desposada com José, antes de habitarem juntos, achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo» (Mt 1, 18) encontra uma descrição mais ampla e mais explícita naquilo que lemos em São Lucas sobre a anunciação do nascimento de Jesus: «O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade de Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David. E o nome da virgem era Maria » (Lc 1, 26-27). As palavras do anjo: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo» (Lc 1, 28) provocaram em Maria uma perturbação íntima e simultaneamente estimularam-na a reflectir. Então, o mensageiro tranquilizou a Virgem e, ao mesmo tempo, revelou-lhe o desígnio especial de Deus a seu respeito: «Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus dar-lhe-á o trono de seu pai David» (Lc 1, 30-32).
O Evangelista tinha afirmado, pouco antes, que, no momento da Anunciação, Maria estava desposada com um homem chamado José, da casa de David. A natureza destes esponsais é explicitada, indirectamente, quando Maria, depois de ter ouvido aquilo que o mensageiro dissera do nascimento do filho, pergunta: «Como se realizará isso, pois eu não conheço homem?» (Lc 1, 34). E então é-lhe dada esta resposta: «O Espírito Santo descerá sobre ti e a potência do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso mesmo, aquele que vai nascer será santo e há-de chamar-se Filho de Deus» (Lc 1, 35). Maria, embora fosse já «desposada» com José, permanecerá virgem, pois o menino, nela concebido desde o momento da Anunciação, era concebido por obra do Espírito Santo.
Neste ponto o texto de São Lucas coincide com o texto de São Mateus (1, 18) e serve-nos para explicar o que lemos neste último. Se, depois do desponsório com José, se verificou que Maria «tinha concebido por obra do Espírito Santo», este facto corresponde a todo o conteúdo da Anunciação e, em particular, às últimas palavras pronunciadas por Maria: «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38). Correspondendo ao desígnio claro de Deus, Maria, com o passar dos dias e das semanas , manifesta-se, diante das pessoas que contactava e diante de José, como estando «grávida», como mulher que deve dar à luz e que traz em si o mistério da maternidade.
3. Nestas circunstâncias, «José, seu esposo, sendo justo e não a querendo expor à infâmia, resolveu desvincular-se dela secretamente» (Mt 1, 19). Ele não sabia como comportar-se perante a «surpreendente» maternidade de Maria. Buscava, certamente, uma resposta para essa interrogação inquietante; mas procurava, sobretudo, uma maneira airosa de sair daquela situação difícil para ele. Enquanto andava «a pensar nisto, apareceu-lhe, em sonho, um anjo do Senhor, que lhe disse: "José, filho de David, não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados"» (Mt 1, 20-21).
Existe uma estreita analogia entre a «Anunciação» do texto de São Mateus e a do texto de São Lucas. O mensageiro divino introduz José no mistério da maternidade de Maria. Aquela que, segundo a lei, é a sua «esposa», permanecendo virgem, tornou-se mãe pela virtude do Espírito Santo. E quando o Filho que Maria traz no seio vier ao mundo há-de receber o nome de Jesus. Este nome era bem conhecido entre os Israelitas; e, por vezes, era por eles posto aos filhos. Neste caso, porém, trata-se de um Filho que - segundo a promessa divina - realizará plenamente o que este nome significa: Jesus - Yehosua, que quer dizer «Deus salva».
O mensageiro dirige-se a José como «esposo de Maria»; dirige-se a quem, a seu tempo, deverá pôr tal nome ao Filho que vai nascer da Virgem de Nazaré, desposada com ele. Dirige-se a José, portanto, confiando-lhe os encargos de um pai terreno em relação ao Filho de Maria.
«Despertando do sono, José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa» (Mt 1, 24). Ele recebeu-a com todo o mistério da sua maternidade ; recebeu-a com o Filho que havia de vir ao mundo, por obra do Espírito Santo: demonstrou deste modo uma disponibilidade de vontade, semelhante à disponibilidade de Maria, em ordem àquilo que Deus lhe pedia por meio do seu mensageiro.
II. O DEPOSITÁRIO DO MISTÉRIO DE DEUS
4. Quando Maria, pouco tempo depois da Anunciação, se dirigiu a casa de Zacarias para visitar Isabel sua parente, ouviu, precisamente quando a saudava, as palavras pronunciadas pela mesma Isabel, «cheia do Espírito Santo» (cf. Lc 1, 41). Para além das palavras que se relacionavam com a saudação do anjo na Anunciação, Isabel disse: «Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que Ihe foram ditas da parte do Senhor» (Lc 1, 45). Estas palavras constituíram o pensamento-guia da Encíclica Redemptoris Mater, com a qual tive a intenção de aprofundar o ensinamento do Concílio Vaticano II, quando afirma: «A Bem-aventurada Virgem Maria avançou no caminho da fé e conservou fielmente a união com seu Filho até à Cruz»,5 «indo adiante»6 de todos aqueles que, pela via da fé, seguem Cristo.
Ora ao iniciar-se esta peregrinação, a fé de Maria encontra-se com a fé de José. Se Isabel disse da Mãe do Redentor: «Feliz daquela que acreditou», esta bem-aventurança pode, em certo sentido, ser referida também a José, porque, de modo análogo, ele respondeu afirmativamente à Palavra de Deus, quando esta lhe foi transmitida naquele momento decisivo. A bem da verdade, José não respondeu ao «anúncio» do anjo como Maria; mas «fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu a sua esposa». Isto que ele fez é puríssima «obediência da fé» (cf. Rom 1, 5; 16, 26; 2 Cor 10, 5-6).
Pode dizer-se que aquilo que José fez o uniu, de uma maneira absolutamente especial, à fé de Maria: ele aceitou como verdade proveniente de Deus o que ela já tinha aceitado na Anunciação. O Concílio ensina: «A Deus que revela é devida a "obediência da fé" [...]; pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus, prestando-lhe "o obséquio pleno da inteligência e da vontade" e dando voluntário assentimento à sua revelação».7 A frase acabada de citar, que diz respeito à própria essência da fé, aplica-se perfeitamente a José de Nazaré.
5. Ele tornou-se, portanto, um depositário singular do mistério «escondido desde todos os séculos em Deus» (cf. Ef 3, 9), como se tornara Maria, naquele momento decisivo que é chamado pelo Apóstolo «plenitude dos tempos», quando «Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher... para resgatar os que se encontravam sob o jugo da lei e para que recebêssemos a adopção de filhos» (Gál 4, 4-5). «Aprouve a Deus – ensina o Concílio – na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1, 9), pelo qual os homens, através de Cristo, Verbo Incarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2, 18; 2 Pdr 1, 4)».8
Deste mistério divino, juntamente com Maria, José é o primeiro depositário. Simultaneamente com Maria - e também em relação com Maria - ele participa nesta fase culminante da auto-revelação de Deus em Cristo; e nela participa desde o primeiro momento. Tendo diante dos olhos os textos de ambos os Evangelistas, São Mateus e São Lucas, pode também dizer-se que José foi o primeiro a participar na mesma fé da Mãe de Deus e que, procedendo deste modo, ele dá apoio à sua esposa na fé na Anunciação divina. Ele é igualmente quem primeiro foi posto por Deus no caminho daquela «peregrinação da fé», na qual Maria, sobretudo na altura do Calvário e do Pentecostes, irá adiante, de maneira perfeita.9
6. A caminhada própria de José, a sua peregrinação da fé terminaria antes; ou seja, antes que Maria esteja de pé junto à Cruz no Gólgota e antes que Ela - tendo Cristo voltado para o seio do Pai se encontre no Cenáculo do Pentecostes, no dia da manifestação ao mundo da Igreja, nascida pelo poder do Espírito da verdade. E contudo, a caminhada da fé de José seguiu a mesma direcção, permaneceu totalmente determinada pelo mesmo mistério, de que ele, juntamente com Maria, se tinha tornado o primeiro depositário. A Incarnação e a Redenção constituem uma unidade orgânica e indissolúvel, na qual a «economia da Revelação se realiza por meio de acções e palavras, intimamente relacionadas entre si».10 Precisamente por causa desta unidade, o Papa João XXIII, que tinha uma grande devoção para com São José, estabeleceu que no Cânone romano da Missa, memorial perpétuo da Redenção, fosse inserido o nome dele, ao lado do nome de Maria e antes do dos Apóstolos, dos Sumos Pontífices e dos Mártires.11
O serviço da paternidade
7. Como se deduz dos textos evangélicos, o matrimónio com Maria é o fundamento jurídico da paternidade de José. Foi para garantir a protecção paterna a Jesus que Deus escolheu José como esposo de Maria. Por conseguinte, a paternidade de José – uma relação que o coloca o mais perto possível de Cristo, termo de toda e qualquer eleição e predestinação (cf. Rom 8, 28-29) – passa através do matrimónio com Maria, ou seja, através da família.
Os Evangelistas, embora afirmem claramente que Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo e que naquele matrimónio a virgindade foi preservada (cf. Mt 1, 18-25; Lc 1, 26-38), chamam a José esposo de Maria e a Maria esposa de José (cf. Mt 1, 16. 18-20; Lc 1, 27; 2, 5).
E também para a Igreja, se por um lado é importante professar a concepção virginal de Jesus, por outro, não é menos importante defender o matrimónio de Maria com José, porque é deste matrimónio que depende, juridicamente, a paternidade de José. Daqui se compreende a razão por que as gerações são enumeradas segundo a genealogia de José: «E porque não o deviam ser - pergunta-se Santo Agostinho - através de José? Não era porventura José o marido de Maria? (...). A Escritura afirma, por meio da autoridade angélica, que ele era o marido. Não temas, diz, receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo. E é-lhe mandado que imponha o nome ao menino, se bem que não seja nascido do seu sémen. Aí se diz, ainda: Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. A Escritura sabe que Jesus não nasceu do sémen de José; e porque ele mostra preocupação quanto à origem da gravidez dela (Maria), é dito: provém do Espírito Santo. E todavia não lhe é tirada a autoridade paterna, uma vez que lhe é ordenado que seja ele a dar o nome ao menino. Por fim, também a própria Virgem Maria, bem consciente de não ter concebido Cristo da união conjugal com ele, chama-o apesar disso pai de Cristo».12
O filho de Maria é também filho de José, em virtude do vínculo matrimonial que os une: «Por motivo daquele matrimónio fiel, ambos mereceram ser chamados pais de Cristo, não apenas a Mãe, mas também aquele que era seu pai, do mesmo modo que era cônjuge da Mãe, uma e outra coisa por meio da mente e não da carne».13 Neste matrimónio não faltou nenhum dos requisitos que o constituem: «Naqueles pais de Cristo realizaram-se todos os bens das núpcias: a prole, a fidelidade e o sacramento. Conhecemos a prole, que é o próprio Senhor Jesus; a fidelidade, porque não houve nenhum adultério; e o sacramento, porque não se deu nenhum divórcio».14
Analisando a natureza do matrimónio, quer Santo Agostinho, quer Santo Tomás de Aquino situam-na constantemente na «união indivisível dos ânimos», na «união dos corações» e no «consenso»;15 elementos estes, que, naquele matrimónio, se verificaram de maneira exemplar. No momento culminante da história da salvação, quando Deus manifestou o seu amor pela humanidade, mediante o dom do Verbo, deu-se exactamente o matrimónio de Maria e José, em que se realizou com plena «liberdade» o «dom esponsal de si» acolhendo e exprimindo um tal amor. 16 «Nesta grandiosa empresa da renovação de todas as coisas em Cristo , o matrimónio, também ele renovado e purificado, torna-se uma realidade nova, um sacramento da Nova Aliança. E eis que no limiar do Novo Testamento, como já sucedera no princípio do Antigo, há um casal. Mas, enquanto o casal formado por Adão e Eva tinha sido a fonte do mal que inundou o mundo, o casal formado por José e Maria constitui o vértice, do qual se expande por toda a terra a santidade. O Salvador deu início à obra da salvação com esta união virginal e santa, na qual se manifesta a sua vontade omnipotente de purificar e santificar a família, que é santuário do amor humano e berço da vida».17
Quantos ensinamentos promanam disto, ainda hoje, para a família! Uma vez que «a essência e as funções da família se definem, em última análise, pelo amor» e que à família «é confiada a missão de guardar, revelar e comunicar o amor, qual reflexo vivo e participação do amor de Deus pela humanidade e do amor de Cristo pela Igreja sua Esposa»,18 é na Sagrada Família, nesta originária «Igreja doméstica»,19 que todas as famílias devem espelhar-se. Nela, efectivamente, «por um misterioso desígnio divino, viveu escondido durante longos anos o Filho de Deus: ela constitui, portanto, o protótipo e o exemplo de todas as famílias cristãs».20
8. São José foi chamado por Deus para servir directamente a Pessoa e a missão de Jesus, mediante o exercício da sua paternidade: desse modo, precisamente, ele «coopera no grande mistério da Redenção, quando chega a plenitude dos tempos»,21 e é verdadeiramente «ministro da salvação». A sua paternidade expressou-se concretamente «em ter feito da sua vida um serviço, um sacrifício, ao mistério da Incarnação e à missão redentora com o mesmo inseparavelmente ligada; em ter usado da autoridade legal, que lhe competia em relação à Sagrada Família, para lhe fazer o dom total de si mesmo, da sua vida e do seu trabalho; e em ter convertido a sua vocação humana para o amor famíliar na sobre-humana oblação de si, do seu coração e de todas as capacidades, no amor que empregou ao serviço do Messias germinado na sua casa».22
A Liturgia, ao recordar que foram confiados «à solícita guarda de São José, na aurora dos novos tempos, os mistérios da salvação»,23 esclarece também que ele «foi constituído por Deus chefe da sua Família, para que, servo fiel e prudente, guardasse com paterna solicitude o seu Filho unigénito».24 O Papa Leão XIII realça a sublimidade desta missão: «Ele entre todos, impõe-se pela sua sublime dignidade, dado que, por disposição divina, foi guardião e, na opinião dos homens, pai do Filho de Deus. Daí se seguia, portanto, que o Verbo de Deus fosse submisso a José, lhe obedecesse e lhe prestasse aquela honra e aquela reverência, que os filhos devem aos próprios pais».25
E uma vez que não se pode conceber que a uma tarefa tão sublime não correspondessem as qualidades requeridas para a desempenhar adequadamente, importa reconhecer que José teve em relação a Jesus, «por especial dom do Céu, todo aquele amor natural e toda aquela solicitude afectuosa que o coração de um pai possa experimentar».26
Com a autoridade paterna sobre Jesus, Deus terá comunicado também a José o amor correspondente, aquele amor que tem a sua fonte no Pai «do qual toda a paternidade, nos céus e na terra, toma o nome» (Ef 3, 15).
Nos Evangelhos acha-se claramente exposto o múnus paterno de José para com Jesus. Com efeito, a salvação, que passa através da humanidade de Jesus, realiza-se nos gestos que fazem parte do quotidiano da vida familiar, respeitando aquela «condescendência» que é inerente à economia da Incarnação. Os Evangelistas estiveram muito atentos ao facto de que na vida de Jesus nada foi deixado ao acaso; mas nela tudo se desenrolou em conformidade com um plano divinamente preestabelecido. A fórmula muitas vezes repetida: «Aconteceu assim, para que se cumprissem ...», acompanhada de uma referência do acontecimento descrito a um texto do Antigo Testamento, tem o intuito de acentuar a unidade e a continuidade do projecto, que tem o seu «cumprimento» em Cristo.
Com a Incarnação, as «promessas» e as «figuras» do Antigo Testamento tornam-se «realidade»: lugares, pessoas, acontecimentos e ritos entrelaçam-se de acordo com ordens divinas bem precisas, transmitidas mediante o ministério dos anjos e recebidas por criaturas particularmente sensíveis à voz de Deus. Maria é a humilde serva do Senhor, preparada desde toda a eternidade para a missão de ser Mãe de Deus; e José é aquele que Deus escolheu para ser o «coordenador do nascimento do Senhor»,27 aquele que tem o encargo de prover ao inserimento «ordenado» do Filho de Deus no mundo, mantendo o respeito pelas disposições divinas e pelas leis humanas. Toda a chamada vida «privada» ou «oculta» de Jesus foi confiada à sua guarda.
O recenseamento
9. Quando José foi de viagem até Belém, para o recenseamento, em observância das disposições da autoridade legítima, ele desempenhou em relação ao menino a tarefa importante e significativa de inserir oficialmente o nome de «Jesus, filho de José de Nazaré» (cf. Jo 1, 45), no registo do império. Essa inscrição manifesta de modo bem claro o facto de Jesus pertencer ao género humano, homem entre os homens, cidadão deste mundo, sujeito às leis e instituições civis, mas também «Salvador do mundo». Origines descreveu bem o significado teológico inerente a este facto histórico, que não é nada marginal: «Dado que o primeiro recenseamento de toda a terra se verificou no tempo de César Augusto, e que entre todos os demais também José se foi registar, juntamente com Maria sua esposa, que se encontrava grávida; e dado que Jesus veio ao mundo antes de o censo ter sido feito, para quem considerar a coisa com diligente atenção parecerá que se expressa uma espécie de mistério no facto de que, na declaração de toda a terra, devesse ser recenseado também Cristo. Dessa maneira, registado juntamente com os demais, a todos podia santificar; inscrito com toda a terra no recenseamento, à terra oferecia a comunhão consigo; e, depois desta declaração, recenseava consigo todos os homens da terra no livro dos vivos, para que quantos viessem a acreditar nele, fossem depois inscritos no céu, com os Santos d'Aquele a quem pertencem a glória e o império pelos séculos dos séculos. Amén».28
O nascimento de Belém
10. Como depositário do mistério «escondido desde todos os séculos em Deus» e que começa a realizar-se diante dos seus olhos na «plenitude dos tempos», José encontra-se juntamente com Maria na noite de Belém, qual testemunha privilegiada da vinda do Filho de Deus ao mundo. São Lucas exprime-se assim: «Enquanto eles ali (em Belém) se encontravam, completaram-se para ela os dias da gestação. E deu à luz o seu filho primogénito, que envolveu em faixas e recostou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria» (Lc 2, 6-7).
José foi testemunha ocular deste nascimento, que se verificou em condições humanamente humilhantes, primeiro anúncio daquele «despojamento», no qual Cristo consentiu livremente, para a remissão dos pecados. Na mesma ocasião, José foi testemunha da adoração dos pastores, que acorreram ao lugar onde Jesus nascera, depois de um anjo lhes ter levado esta grande e jubilosa notícia (cf. Lc 2, 15-16); mais tarde, foi testemunha também da homenagem dos Magos, vindos do Oriente (cf. Mt 2, 11).
A circuncisão
11. Sendo a circuncisão de um filho o primeiro dever religioso do pai, José, com esta cerimónia (cf. Lc 2, 21), exercitou um seu direito e dever em relação a Jesus.
O princípio segundo o qual todos os ritos do Antigo Testamento são como que a sombra da realidade (cf. Hebr 9, 9s.; 10, 1), explica o motivo por que Jesus os aceita. Como sucedeu com os outros ritos, também o da circuncisão teve em Jesus o seu «cumprimento». A Aliança de Deus com Abraão, de que a circuncisão era sinal (cf. Gn 17, 13), obteve em Jesus o seu pleno efeito e a sua cabal realização, sendo Jesus o «sim» de todas as antigas promessas (cf. 2 Cor 1, 20).
A imposição do nome
12. José deu ao menino, na ocasião em que o levaram a circuncidar, o nome de Jesus. Este nome é o único em que há salvação (cf. Act 4, 12); e a José tinha sido revelado o seu significado, no momento da sua «anunciação»: E tu «pôr-lhe-ás o nome de Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1, 21). Quando lhe deu o nome, José declarou a própria paternidade legal em relação a Jesus; e, pronunciando esse nome, proclamou a missão deste menino, de ser o Salvador.
A apresentação de Jesus no templo
13. Esta cerimónia, referida por São Lucas (2, 22ss.), incluía o resgate do primogénito e projecta luz sobre o episódio posterior da permanência de Jesus no templo aos doze anos.
O resgate do primogénito é um outro dever do pai, que é cumprido por José. No primogénito estava representado o povo da Aliança, resgatado da escravidão para passar a pertencer a Deus. Também a propósito disto, Jesus, que é o verdadeiro «preço» do resgate (cf. 1Cor 6, 20; 7, 23; 1Pe 1, 19), não somente «cumpre» o rito do Antigo Testamento, mas ao mesmo tempo supera-o, não sendo ele um simples homem sujeito a ser resgatado, mas o próprio autor do resgate.
O Evangelista põe em relevo que «o pai e a mãe de Jesus estavam admirados com as coisas que se diziam dele» (Lc 2, 33); e, em particular, com aquilo que Simeão disse, no seu cântico dirigido ao Senhor, indicando Jesus como «a salvação preparada por Deus em favor de todos os povos» e «luz para iluminar as nações e glória de Israel, seu povo»; e, mais adiante, também como «sinal de contradição» (Lc 2, 30-34).
A fuga para o Egipto
14. A seguir à apresentação no templo, o evangelista São Lucas anotou: «Depois de terem cumprido tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. Entretanto, o menino crescia e robustecia-se, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele» (Lc 2, 39-40).
Mas, segundo o texto de São Mateus, ainda antes deste retorno à Galileia, tem de ser colocado um acontecimento muito importante, para o qual a Providência divina de novo recorre a José. Aí lemos: «Depois de eles (os Magos) partirem, eis que um anjo do Senhor apareceu, em sonho, a José e disse-lhe: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egipto e fica lá até eu te avisar, porque Herodes está a procurar o menino para o matar"» (Mt 2, 13). Na ocasião da vinda dos Magos do Oriente, Herodes tinha sabido do nascimento do «rei dos Judeus» (Mt 2, 2). E quando os Magos partiram, ele mandou «matar todos os meninos que havia em Belém e em todo o seu território, da idade de dois anos para baixo» (Mt 2, 16). Deste modo, matando todas as crianças, queria matar aquele recém-nascido «rei dos Judeus», de quem chegara ao conhecimento durante a visita dos Magos à sua corte. Então José, tendo recebido o aviso em sonho, «de noite, tomou o menino e sua mãe e retirou-se para o Egipto, onde ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor tinha anunciado por meio do profeta: "Do Egipto chamei o meu Filho"» (Mt 2, 14-15; cf. Os 11, 1).
Deste modo, o caminho do regresso de Jesus de Belém a Nazaré passou pelo Egipto. Assim como Israel tinha tomado o caminho do êxodo «da condição de escravidão» para iniciar a Antiga Aliança, assim José, depositário e cooperador do mistério providencial de Deus, também no exílio vela por Aquele que vai tornar realidade a Nova Aliança.
A permanência de Jesus no templo
15. Desde o momento da Anunciação, José, juntamente com Maria, encontrou-se, em certo sentido, no íntimo do mistério escondido desde todos os séculos em Deus e que se tinha revestido de carne: «O Verbo fez-se carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14). Sim, Ele habitou entre os homens e o âmbito da sua morada foi a Sagrada Família de Nazaré, uma das tantas famílias desta pequena cidade de Galileia, uma das tantas famílias da terra de Israel. Aí, Jesus crescia e «robustecia-se , cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele» (Lc 2, 40). Os Evangelhos resumem em poucas palavras o longo período da vida «oculta», durante o qual Jesus se preparou para a sua missão messiânica. Há um só momento que é subtraído a este «escondimento» e é descrito pelo Evangelho de São Lucas: a Páscoa de Jerusalém, quando Jesus tinha doze anos de idade.
Jesus participou nesta festa, como um jovem peregrino, juntamente com Maria e José. E eis o que aconteceu: «Passados aqueles dias (da festa), ao regressarem, o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que os pais se apercebessem disso» (Lc 2, 43). Depois de um dia de viagem deram pela sua falta; e começaram a procurá-lo «entre os parentes e conhecidos ... Depois de três dias, encontraram-no no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos os que o ouviam ficavam admirados da sua inteligência e das suas respostas» (Lc 2, 46-47). Maria pergunta: «Filho, por que procedeste assim connosco? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura» (Lc 2, 48). A resposta de Jesus foi de tal sorte que os dois «não entenderam as palavras que lhes disse». Tinha-lhes respondido: «Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo encontrar-me na casa de meu Pai?» (Lc 2, 49-50).
Ouviu estas palavras José, em relação ao qual Maria tinha acabado de dizer «teu pai». Com efeito, era assim que as pessoas diziam e pensavam: Jesus, «como se supunha, era filho de José» (Lc 3, 23). Apesar disso, a resposta do próprio Jesus no templo devia reavivar na consciência do «suposto o pai» aquilo que numa noite, doze anos antes, ele tinha ouvido: «José ... não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo». Já desde então ele sabia que era depositário do mistério de Deus; e Jesus, com doze anos de idade, evocou exactamente este mistério: «Devo encontrar-me na casa de meu Pai».
A sustenção e a educação de Jesus em Nazaré
16. O crescimento de Jesus «em sabedoria, em estatura e em graça» (Lc 2, 52), deu-se no âmbito da Sagrada Família, sob o olhar de São José, que tinha a alta função de o «criar»; ou seja, de alimentar, vestir e instruir Jesus na Lei e num ofício, em conformidade com os deveres estabelecidos para o pai.
No Sacrifício eucarístico a Igreja venera «a memória da gloriosa sempre Virgem Maria... e também a de São José»,29 porque foi quem «sustentou Aquele que os fiéis deviam comer como Pão de vida eterna».30
Por sua parte, Jesus «era-lhes submisso» (Lc 2, 51), correspondendo com o respeito às atenções dos seus «pais». Dessa forma quis santificar os deveres da família e do trabalho, que ele próprio executava ao lado de José.
III. O HOMEM JUSTO – O ESPOSO
17. No decorrer da sua vida, que foi uma peregrinação na fé, José, como Maria, permaneceu fiel até ao fim ao chamamento de Deus. A vida de Maria foi o cumprimento até às últimas consequências daquele primeiro fiat (faça-se) pronunciado no momento da Anunciação; ao passo que José - como já foi dito – não proferiu palavra alguma, aquando da sua «anunciação»: «fez como o anjo do Senhor lhe ordenara» (Mt 1, 24). E este primeiro «fez» tornou-se o princípio da «caminhada de José». Ao longo desta caminhada, os Evangelhos não registam palavra alguma que ele tenha dito. Mas esse silêncio de José tem uma especial eloquência: graças a tal atitude, pode captar-se perfeitamente a verdade contida no juízo que dele nos dá o Evangelho: o «justo» (Mt 1, 19).
é necessário saber ler bem esta verdade, porque nela está contido um dos mais importantes testemunhos acerca do homem e da sua vocação. No decurso das gerações a Igreja lê, de maneira cada vez mais atenta e mais cônscia este testemunho, como que tirando do tesouro desta insígne figura «coisas novas e coisas velhas» (Mt 13, 52).
18. O homem «justo» de Nazaré possui sobretudo as características bem nítidas do esposo. O Evangelista fala de Maria como de «uma virgem desposada com um homem ... chamado José» (Lc 1, 27). Antes de começar a realizar-se «o mistério escondido desde todos os séculos em Deus» (Ef 3, 9), os Evangelhos põem diante de nós a imagem do esposo e da esposa. Segundo o costume do povo hebraico, o matrimónio constava de duas fases: primeiro, era celebrado o matrimónio legal (verdadeiro matrimónio); e depois, só passado um certo período, é que o esposo introduzia a esposa na própria casa. Antes de viver junto com Maria, portanto, José já era o seu «esposo»; Maria, porém, conservava no seu íntimo o desejo de fazer o dom total de si mesma exclusivamente a Deus. Poder-se-ia perguntar de que modo este desejo se conciliava com as «núpcias». A resposta vem-nos somente do desenrolar dos acontecimentos salvíficos, isto é, da acção especial do próprio Deus. Desde o momento da Anunciação, Maria sabe que deve realizar-se o seu desejo virginal, de entregar-se a Deus de modo exclusivo e total, precisamente tornando-se mãe do Filho de Deus. A maternidade por obra do Espírito Santo é a forma de doação que o próprio Deus espera da Virgem, «desposada» com José. E Maria pronuncia o seu fiat (faça-se).
O facto de ela ser «desposada» com José está incluído no mesmo desígnio de Deus. Isso é indicado por ambos os Evangelistas citados, mas de maneira particular por São Mateus. São muito significativas as palavras ditas a José: «Não temas receber contigo Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é obra do Espírito Santo» (Mt 1, 20). Elas explicam o mistério da esposa de José: Maria é virgem na sua maternidade. Nela «o Filho do Altíssimo» assume um corpo humano e torna-se «o Filho do homem».
Dirigindo-se a José com as palavras do anjo, Deus dirige-se a ele como sendo esposo da Virgem de Nazaré. Aquilo que nela se realizou por obra do Espírito Santo exprime ao mesmo tempo uma confirmação especial do vínculo esponsal, que já existia antes entre José e Maria. O mensageiro diz claramente a José: «Não temas receber contigo, Maria, tua esposa». Por conseguinte, aquilo que tinha acontecido anteriormente – os seus esponsais com Maria – tinha acontecido por vontade de Deus e, portanto, devia ser conservado. Na sua maternidade divina, Maria deve continuar a viver como «uma virgem, esposa de um esposo» (cf. Lc 1, 27).
19. Nas palavras da «anunciação» nocturna, José escuta não apenas a verdade divina acerca da inefável vocação da sua esposa, mas ouve novamente também a verdade acerca da própria vocação. Este homem «justo», que, segundo o espírito das mais nobres tradições do povo eleito, amava a Virgem de Nazaré e a ela se encontrava ligado por amor esponsal, é novamente chamado por Deus para este amor.
«José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor e recebeu consigo a sua esposa»; o que se gerou nela «é obra do Espírito Santo». Ora, de tais expressões, não se imporá porventura deduzir que também o seu amor de homem tinha sido regenerado pelo Espírito Santo? Não se imporá porventura pensar que o amor de Deus, que foi derramado no coração humano pelo Espírito Santo (cf. Rom 5, 5), forma do modo mais perfeito todo o amor humano? Ele forma também — e de maneira absolutamente singular — o amor esponsal dos cônjuges, nele dando profundidade a tudo aquilo que seja humanamente digno e belo e tenha as marcas da exclusiva entrega, da aliança das pessoas e da comunhão autêntica, a exemplo de Mistério trinitário.
«José ... recebeu consigo a sua esposa, a qual, sem que ele a conhecesse, deu à luz um filho» (Mt 1, 24-25). Estas palavras indicam ainda outra proximidade esponsal. A profundeza desta proximidade, a intensidade espiritual da união e do contacto entre pessoas – do homem e da mulher – provêm em última análise do Espírito que dá a vida (cf. Jo 6, 63). José, obediente ao Espírito, encontra precisamente nele a fonte do amor, do seu amor esponsal de homem; e este amor foi maior do que aquele «homem justo» poderia esperar, segundo a medida do próprio coração humano.
20. Na Liturgia, Maria é celebrada como tendo estado «unida a José, homem justo, por um vínculo de amor esponsal e virginal».31 Trata-se, de facto , de dois amores que , conjuntamente, representam o mistério da Igreja, virgem e esposa, a qual tem no matrimónio de Maria e José o seu símbolo. «A virgindade e o celibato por amor do Reino de Deus não só não se contrapõem à dignidade do matrimónio, mas pressupõem-na e confirmam-na. O matrimónio e a virgindade são os dois modos de exprimir e de viver o único Mistério da Aliança de Deus com o seu povo»,32 que é comunhão de amor entre Deus e os homens.
Mediante o sacrifício total de si próprio, José exprime o seu amor generoso para com a Mãe de Deus, fazendo-lhe «dom esponsal de si». Muito embora decidido a afastar-se, para não ser obstáculo ao plano de Deus que nela estava a realizar-se, por ordem expressa do anjo ele manteve-a consigo e respeitou a sua condição de pertencer exclusivamente a Deus.
Por outro lado, foi do matrimónio com Maria que advieram para José a sua dignidade singular e os seus direitos em relação a Jesus. «é certo que a dignidade da Mãe de Deus assenta tão alto, que nada pode haver de mais sublime; mas, por isso mesmo que entre a Santíssima Virgem a José foi estreitado o vínculo conjugal, não há dúvida de que ele se aproximou como ninguém dessa altíssima dignidade, em virtude da qual a Mãe de Deus ocupa lugar eminente, a grande distância de todas as criaturas. Uma vez que o casamento é a comunidade e a amizade máxima a que, por sua natureza, anda ligada a comunhão de bens, segue-se que, se Deus quis dar José como esposo à Virgem, deu-lo não apenas como companheiro na vida, testemunha da sua virgindade e garante da sua honestidade, mas também para que ele participasse, mediante o pacto conjugal, na sua excelsa grandeza.33
21. Um tal vínculo de caridade constituiu a vida da Sagrada Família; primeiro, na pobreza de Belém, depois, durante o exílio no Egipto e, em seguida, quando ela morava em Nazaré. A Igreja rodeia de profunda veneração esta Família, apresentando-a como modelo para todas as famílias. A Família de Nazaré, directamente inserida no mistério da Incarnação, constitui ela própria um mistério particular. E ao mesmo tempo – como na Incarnação – é a este mistério que pertence a verdadeira paternidade: a forma humana da família do Filho de Deus, verdadeira família humana, formada pelo mistério divino. Nela, José é o pai: a sua paternidade, porém, não é só «aparente», ou apenas «substitutiva»; mas está dotada plenamente da autenticidade da paternidade humana, da autenticidade da missão paterna na família. Nisto está contida uma consequência da união hipostática: humanidade assumida na unidade da Pessoa divina do Verbo-Filho, Jesus Cristo. Juntamente com a assunção da humanidade, em Cristo foi também «assumido» tudo aquilo que é humano e, em particular, a família, primeira dimensão da sua existência na terra. Neste contexto foi «assumida» também a paternidade humana de José.
Com base neste princípio, adquirem o seu significado profundo as palavras dirigidas por Maria a Jesus, no templo, quando ele tinha doze anos: «Teu pai e eu ... andávamos à tua procura». Não se trata de uma frase convencional: as palavras da Mãe de Jesus indicam toda a realidade da Incarnação, que pertence ao mistério da Família de Nazaré. José, que desde o princípio aceitou, mediante «a obediência da fé», a sua paternidade humana em relação a Jesus, seguindo a luz do Espírito Santo que por meio da fé se doa ao homem, por certo ia descobrindo cada vez mais amplamente o dom inefável desta sua paternidade.
IV. O TRABALHO EXPRESSÃO DO AMOR
22. A expressão quotidiana deste amor na vida da Família de Nazaré é o trabalho. O texto evangélico especifica o tipo de trabalho, mediante o qual José procurava garantir a sustentação da Família: o trabalho de carpinteiro. Esta simples palavra envolve toda a extensão da vida de José. Para Jesus este período abrange os anos da vida oculta, de que fala o Evangelista, a seguir ao episódio que sucedeu no templo: «Depois, desceu com eles para Nazaré e era-lhes submisso» (Lc 2, 51). Esta «submissão, ou seja, a obediência de Jesus na casa de Nazaré é entendida também como participação no trabalho de José. Aquele que era designado como o «filho do carpinteiro», tinha aprendido o ofício de seu «pai» putativo. Se a Família de Nazaré, na ordem da salvação e da santidade, é exemplo e modelo para as famílias humanas, é-o analogamente também o trabalho de Jesus ao lado de José carpinteiro. Na nossa época, a Igreja pôs em realce isto mesmo, também com a memória litúrgica de São José Operário, fixada no primeiro de Maio. O trabalho humano, em particular o trabalho manual, tem no Evangelho uma acentuação especial. Juntamente com a humanidade do Filho de Deus ele foi acolhido no mistério da Incarnação, como também foi redimido de maneira particular. Graças ao seu banco de trabalho, junto do qual exercitava o próprio ofício juntamente com Jesus, José aproximou o trabalho humano do mistério da Redenção.
23. No crescimento humano de Jesus «em sabedoria, em estatura e em graça» teve uma parte notável a virtude da laboriosidade, dado que «o trabalho é um bem do homem», que «transforma a natureza» e torna o homem, «em certo sentido, mais homem».34
A importância do trabalho na vida do homem exige que se conheçam e assimilem todos os seus conteúdos, «para ajudar os demais homens a aproximarem-se através dele de Deus, Criador e Redentor, e a participarem nos seus desígnios salvíficos quanto ao homem e quanto ao mundo; e ainda, a aprofundarem na sua vida e amizade com Cristo, tendo, mediante a fé vivida, uma participação no seu tríplice múnus: de Sacerdote, de Profeta e de Rei».35
24. Trata-se, em última análise, da santificação da vida quotidiana, no que cada pessoa deve empenhar-se, segundo o próprio estado, e que pode ser proposta apontando para um modelo accessível a todos: São José é o modelo dos humildes, que o Cristianismo enaltece para grandes destinos; ... é a prova de que para ser bons e autênticos seguidores de Cristo não se necessitam «grandes coisas», mas requerem-se somente virtudes comuns, humanas, simples e autênticas».36
V. O PRIMADO DA VIDA INTERIOR
25. Também quanto ao trabalho de carpinteiro na casa de Nazaré se estende o mesmo clima de silêncio, que acompanha tudo aquilo que se refere à figura de José. Trata-se, contudo, de um silêncio que desvenda de maneira especial o perfil interior desta figura. Os Evangelhos falam exclusivamente daquilo que José «fez»; no entanto, permitem-nos auscultar nas suas «acções», envolvidas pelo silêncio, um clima de profunda contemplação. José estava quotidianamente em contacto com o mistério «escondido desde todos os séculos», que «estabeleceu a sua morada» sob o tecto da sua casa. Isto explica, por exemplo, a razão por que Santa Teresa de Jesus, a grande reformadora do Carmelo contemplativo, se tornou promotora da renovação do culto de São José na cristiandade ocidental.
26. O sacrifício total, que José fez da sua existência inteira, às exigências da vinda do Messias à sua própria casa, encontra a motivação adequada na «sua insondável vida interior, da qual lhe provêm ordens e consolações singularíssimas; dela lhe decorrem também a lógica e a força, própria das almas simples e límpidas, das grandes decisões, como foi a de colocar imediatamente à disposição dos desígnios divinos a própria liberdade, a sua legítima vocação humana e a felicidade conjugal, aceitando a condição, a responsabilidade e o peso da família e renunciando, por um incomparável amor virgíneo, ao natural amor conjugal que constitui e alimenta a mesma família».37
Esta submissão a Deus, que é prontidão de vontade para se dedicar às coisas que dizem respeito ao seu serviço, não é mais do que o exercício da devoção, que constitui uma das expressões da virtude da religião. 38
27. A comunhão de vida entre José e Jesus leva-nos a considerar ainda o mistério da Incarnação precisamente sob o aspecto da humanidade de Cristo, instrumento eficaz da divindade para a santificação dos homens: «Por força da divindade, as acções humanas de Cristo foram salutares para nós, produzindo em nós a graça, quer em razão do mérito, quer por uma certa eficácia».39
Entre estas acções os Evangelistas privilegiam aquelas que dizem respeito ao mistério pascal; mas não deixam de frisar bem a importância do contacto físico com Jesus em ordem às curas de enfermidades (cf., por exemplo, Mc 1, 41) e a influência por ele exercida sobre João Baptista, quando ambos estavam ainda no seio materno (cf. Lc 1, 41-44).
O testemunho apostólico não transcurou – como já se viu – a narração do nascimento de Jesus, da circuncisão, da apresentação no templo, da fuga para o Egipto e da vida oculta em Nazaré, por motivo do «mistério» de graça contido em tais «gestos», todos eles salvíficos, porque todos participavam da mesma fonte de amor: a divindade de Cristo. Se este amor se irradiava, através da sua humanidade, sobre todos os homens, certamente eram por ele beneficiados, em primeiro lugar, aqueles que a vontade divina tinha posto na sua maior intimidade: Maria, sua Mãe, e José, seu pai putativo.40
Uma vez que o amor «paterno» de José não podia deixar de influir sobre o amor «filial» de Jesus e, vice-versa, o amor «filial» de Jesus não podia deixar de influir sobre o amor «paterno» de José, como chegar a conhecer as profundezas desta singularíssima relação? Justamente, pois, as almas mais sensíveis aos impulsos do amor divino vêem em José um exemplo luminoso de vida interior.
Mais ainda, a aparente tensão entre a vida activa e a vida contemplativa tem em José uma superação ideal, possível para quem possui a perfeição da caridade. Atendo-nos à conhecida distinção entre o amor da verdade (caritas veritatis) e as exigências do amor (necessitat caritatis), podemos dizer que José fez a experiência quer do amor da verdade, ou seja, do puro amor de contemplação da Verdade divina que irradiava da humanidade de Cristo, quer das exigências do amor, ou seja, do amor igualmente puro do serviço, requerido pela protecção e pelo desenvolvimento dessa mesma humanidade. 41
VI. PATRONO DA IGREJA DO NOSSO TEMPO
28. Em tempos difíceis para a Igreja, Pio IX, desejando confiá-la à especial protecção do Santo Patriarca José, declarou-o «Patrono da Igreja católica».42 Esse Sumo Pontífice sabia que não estava a levar a efeito um gesto peregrino, porque, em virtude da excelsa dignidade concedida por Deus a este seu servo fidelíssimo, «a Igreja, depois da Virgem Santíssima, esposa dele, teve sempre em grande honra e cumulou de louvores o Bem-aventurado José e, no meio das angústias, de preferência foi a ele que recorreu».43
Quais são os motivos de tão grande confiança? O Papa Leão XIII expõe-nos assim: «As razões pelas quais o Bem-aventurado José deve ser considerado especial Patrono da Igreja, e a Igreja, por sua vez, deve esperar muitíssimo da sua protecção e do seu patrocínio, provêm principalmente do facto de ele ser esposo de Maria e pai putativo de Jesus (...). José foi a seu tempo legítimo e natural guardião, chefe e defensor da divina Família (...). É algo conveniente e sumamente digno para o Bem-aventurado José, portanto, que, de modo análogo àquele com que outrora costumava socorrer santamente, em todo e qualquer acontecimento, a Família de Nazaré, também agora cubra e defenda com o seu celeste patrocínio a Igreja de Cristo».44
29. Este patrocínio deve ser invocado e continua sempre a ser necessário à Igreja, não apenas para a defender dos perigos, que continuamente se levantam, mas também e sobretudo para a confortar no seu renovado empenho de evangelização do mundo e de levar por diante a nova evangelização dos países e nações «onde – como eu escrevia na Exortação Apostólica Christifideles laici – a religião e a vida cristã foram em tempos tão prósperas», mas «se encontram hoje submetidas a dura provação».45 Para levar o primeiro anúncio de Cristo ou para voltar a apresentá-lo onde ele foi transcurado ou esquecido, a Igreja precisa de uma particular «força do Alto» (cf. Lc 24, 49), que é dom do Espírito do Senhor, certamente, mas não anda disjunta da intercessão e do exemplo dos seus Santos.
30. Além da confiança na protecção segura de José, a Igreja tem confiança no seu exemplo insigne, um exemplo que transcende cada um dos estados de vida e se propõe a toda a comunidade cristã, sejam quais forem a condição e as tarefas de cada um dos fiéis.
Como se diz na constituição do Concílio Vaticano II sobre a Divina Revelação, a atitude fundamental de toda a Igreja deve ser de «religiosa escuta da palavra de Deus»;46 ou seja, de absoluta disponibilidade para se pôr fielmente ao serviço da vontade salvífica de Deus, revelada em Jesus. Logo no princípio da Redenção humana, nós encontramos o modelo da obediência encarnado, depois de Maria, precisamente em José, aquele que, se distingue pela execução fiel das ordens de Deus.
O Papa Paulo VI exortava a invocar o seu patrocínio, «como a Igreja, nestes últimos tempos, tem o costume de fazer, para si mesma, antes de mais nada, para uma espontânea reflexão teológica sobre o conúbio da acção divina com a acção humana na grande economia da Redenção, no qual, a primeira, a acção divina, é só por si totalmente suficiente, mas a segunda, a acção humana, a nossa, embora não seja capaz de fazer coisa alguma sozinha (cf. Jo 15, 5), nunca está dispensada de uma humilde, mas condicional e nobilitante colaboração. Além disso, a Igreja invoca-o como protector, por um desejo profundo e actualíssimo de rejuvenescer a sua existência secular, com autênticas virtudes evangélicas, como as que refulgem em São José».47
31. A Igreja transforma estas exigências em oração. Recordando que Deus confiou os inícios da nossa Redenção à guarda desvelada de São José, suplica-lhe: que lhe conceda colaborar fielmente na obra da salvação; e que lhe dê a mesma fidelidade e pureza de coração que animaram José no serviço do Verbo Incarnado; e, ainda, a graça de caminhar diante do mesmo Deus pelas vias da santidade e da justiça, amparados pelo exemplo e pela intercessão de São José. 48
Há cem anos, exactamente, o Papa Leão XIII exortava o mundo católico a rezar para obter a protecção de São José, Patrono de toda a Igreja. A Carta Encíclica Quamquam pluries fazia apelo para aquele «amor paterno» que José «dedicava ao Menino Jesus» e recomendava-lhe, a ele «próvido guarda da divina Família, a preciosa herança que Jesus Cristo adquiriu com o próprio sangue». Desde então, a Igreja – como foi recordado mais acima – implora a protecção de São José, «em virtude daquele vínculo de caridade que o uniu à imaculada Virgem Mãe de Deus», e recomenda-lhe todas as suas solicitudes, também pelo que se refere às ameaças que incumbem sobre a família humana.
Nos dias de hoje, temos ainda numerosos motivos para rezar da mesma maneira: «Afastai de nós, ó pai amantíssimo, esta peste de erros e de vícios..., assisti-nos propício, do céu, nesta luta contra o poder das trevas...; e assim como outrora livrastes da morte a vida ameaçada do Menino Jesus, assim hoje defendei a santa Igreja de Deus das ciladas do inimigo e de todas as adversidades».49 Hoje ainda temos motivos que perduram para recomendar todos e cada um dos homens a São José.
32. Desejo vivamente que esta evocação da figura de São José renove também em nós o ritmo da oração que, há um século atrás, o meu Predecessor estabeleceu que lhe fosse elevada. É fora de dúvida, efectivamente, que esta oração e a própria figura de São José se revestem de actualidade renovada para a Igreja do nosso tempo, em relação com o novo Milénio cristão.
O Concílio Vaticano II procurou sensibilizar-nos novamente a todos para «as grandes coisas de Deus» e para aquela «economia da salvação» de que São José foi particularmente ministro. Recomendando-nos, pois, à protecção daquele a quem o próprio Deus «confiou a guarda dos seus tesouros mais preciosos e maiores»,50 aprendamos com ele, ao mesmo tempo, a servir a «economia da salvação». Que São José se torne para todos um mestre singular no serviço da missão salvífica de Cristo, que, na Igreja, compete a cada um e a todos: aos esposos e aos pais, àqueles que vivem do trabalho das próprias mãos e de todo e qualquer outro trabalho, às pessoas chamadas para a vida contemplativa e às que são chamadas ao apostolado.
O homem justo, que trazia em si o património da Antiga Aliança, foi também introduzido no «princípio» da nova e eterna Aliança em Jesus Cristo. Que ele nos indique os caminhos desta Aliança salvífica no limiar do próximo Milénio, durante o qual deve perdurar e desenvolver-se ulteriormente a «plenitude dos tempos» própria do mistério inefável da Incarnação do Verbo.
Que São José obtenha para a Igreja e para o mundo, assim como para um de nós, a bênção do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Vaticano, 15 de Agosto – solenidade da Assunção de Nossa Senhora – no ano de 1989, undécimo ano de Pontificado. JOÃO PAULO II
Notas
(1) Cf. S. Ireneu, Adversus Haereses, IV, 23, 1: S. Ch. 100/72, pp. 692-694.
(2) Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): Leonis XIII P. M. Acta, IX (1890), pp. 175-182.
(3) Sacror. Rituum Congreg., Decr. Quemadmodum Deus (8 de Dezembro de 1870): Pii IX P. M. Acta, pars I, Vol. V, p. 282; Pio IX, Carta Apost. Inclytum Partiarcham (7 de Julho de 1871), l.c., pp. 331-335.
(4) Cf. S. João Crisóstomo, In Matth. Hom., V, 3: PG 57, 57-58. Os Doutores da Igreja e os Sumos Pontífices, também baseando-se na identidade do nome, indicaram em José do Egipto o protótipo de José de Nazaré, na medida em que se teriam esboçado no primeiro as funções e a grandeza do segundo, de ser guardião dos mais preciosos tesouros de Deus Pai, o Verbo Incarnado e a sua Santíssima Mãe: cf., por exemplo, S. Bernardo, Super missus est, Hom. II, 16: S. Bernardi Opera, Ed. Cist., IV, 33-34; Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., p. 179.
(5) Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, n. 58.
(6) Cf. ibid., n. 63.
(7) Const. dogm. sobre a Divina Revelação Dei Verbum, n. 5.
(8) Ibid., n. 2.
(9) Cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, n. 63.
(10) Conc. Ecum. Vaticano II, Const. dogm. sobre a Divina Revelação Dei Verbum, n. 2.
(11) S. Congr. dos Ritos, Decr. Novis hisce temporibus (13 de Novembro de 1962): AAS 54 (1962), p. 873.
(12) S. Agostinho, Sermo 51, 10, 16: PL 38, 342.
(13) S. Agostinho, De nuptiis et concupiscentia, I, 11, 12: PL 44, 421; cf. De consensu evangelistarum, II, 1, 2: PL 34, 1071; Contra Faustum, III, 2: PL 42, 214.
(14) S. Agostinho, De nuptiis et concupiscentia, I, 11, 13: PL 44, 421; cf. Contra Julianum, V, 12, 46: PL 44, 810.
(15) Cf. S. Agostinho, Contra Faustum, XXIII, 8: PL 42, 470-471; De consensu evangelistarum, II, 1, 3: PL 34, 1072; Sermo 51, 13, 21: PL 38, 344-345; S. Tomás de Aquino, Summa Theol., III, q. 29, a. 2 in conclus.
(16) Cf. as Alocuções de 9 e 16 de Janeiro e de 20 de Fevereiro de 1980: Insegnamenti, III/1 (1980), pp. 88-92; 148-152; e 428-431.
(17) Paulo VI, Alocução ao Movimento « Equipes Notre-Dame » (4 de Maio de 1970), n. 7: AAS 62 (1970), p. 431; uma exaltação análoga da Família de Nazaré, como exemplar absoluto da comunidade doméstica, encontra-se, por exemplo, em Leão XIII, Carta Apost. Neminem fugit (14 de Junho de 1892): Leonis XIII Acta, XII (1892), pp. 149-150; Bento XV, Motu Proprio Bonum sane (25 de Julho de 1920): AAS 12 (1920), pp. 313-317.
(18) Exort. Apost. Familiaris consortio (22 de Novembro de 1981), n. 17: AAS 74 (1982), p. 100.
(19) Ibid., n. 49: l.c., p. 140; cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, n. 11; Decr. sobre o Apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, n. 11.
(20) Exort. Apost. Familiaris consortio (22 de Novembro de 1981), n. 85: AAS 74 (1982), pp. 189-190.
(21) Cf. S. João Crisóstomo, In Matth. Hom., V, 3: PG 57, 57-58.
(22) Paulo VI, Alocução (19 de Março de 1966): Insegnamenti, IV (1966), p. 110.
(23) Cf. Missale Romanum, Collecta in « Sollemnitate S. Joseph Sponsi B.M.V.».
(24) Cf. Ibid., Praefatio in o Sollemnitate S. Joseph Sponsi B. M. V. ».
(25) Carta Enc. Quamquam Pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., p. 178.
(26) Pio XII, Radiomensagem aos estudantes das escolas católicas dos Estados Unidos da América (19 de Fevereiro de 1958): AAS 50 (1958), p. 174.
(27) Origenes, Hom. XIII in Lucam, 7: S. Ch. 87, pp. 214-215.
(28) Origenes, Hom. XIII in Lucam, 6: S. Ch. 87, pp. 195-197.
(29) Cf. Missale Romanum, Prex Eucaristica, 1.
(30) Sacror. Rituum Congreg., Decr. Quemadmodum Deus (8 de Dezembro de 1870): l.c., p. 282.
(31) Collectio Missarum de Beata Maria Virgine, I, « Sancta Maria de Nazareth », Praefatio.
(32) Exort. Apost. Familiaris consortio (22 de Novembro de 1981), n. 16: AAS 74 (1982), p. 98.
(33) Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., pp. 177-178.
(34) Cf. Carta Enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), n. 9: AAS 73 (1981), pp. 599-600.
(35) Ibid., n. 24: l.c., p. 638. Os Sumos Pontífices, nos tempos mais recentes, têm apresentado constantemente S. José como « modelo » dos operários e dos trabalhadores em geral, cf., por exemplo, Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., p. 180; Bento XV, Motu proprio Bonum sane (25 de Julho de 1920): l.c., pp. 314-316; Pio XII, Alocução (11 de Março de 1945), n. 4: AAS 37 (1945), p. 72; Alocução (1 de Maio de 1955): AAS 47 (1955), p. 406; João XXIII, Radiomensagem (1 de Maio de 1960): AAS 52 (1960), p. 398.
(36) Paulo VI, Alocução (19 de Março de 1969): Insegnamenti, VII (1969), p. 1268.
(37) Ibid., 1.c., p. 1267.
(38) Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theol., II-II ae, q. 82, a. 3, ad 2.
(39) Ibid., III, q. 8, a. 1, ad 1.
(40) Pio XII, Carta Enc. Haurietis aquas (15 de Maio de 1956), III: AAS 48 (1956), pp. 329-330.
(41) Cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theol., II-II ae, q. 182, a. 1, ad 3.
(42) Cf. Sacror. Rituum Congreg., Decr. Quemadmodum Deus (8 de Dezembro de 1870): l.c., p. 283.
(43) Ibid., l.c., pp. 282-283.
(44) Leão XIII, Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): l.c., pp. 177-179.
(45) Cf. Exort. Apost. pós-sinodal Christifideles laici (30 de Dezembro de 1988), n. 34: AAS 81 (1989), p. 456.
(46) Const. dogm. sobre a Divina Revelação Dei Verbum, n. 1.
(47) Paulo, Alocução (19 de Março de 1969): Insegnamenti, VII (1969), p. 1269.
(48) Cf. Missale Romanum, Collecta; Super oblata in « Sollemnitate S. Joseph Sponsi B.M.V. »; e Post commun. in «Missa Votiva S. Joseph ».
(49) Cf. Leão XIII, « Oratio ad Sanctum Josephum », contida imediatamente a seguir ao texto da Carta Enc. Quamquam pluries (15 de Agosto de 1889): Leonis XIII P.M. Acta, IX (1890), p. 183.
(50) Sacror. Rituum. Congreg., Decr. Quemadmodum Deus (8 de Dezembro de 1870): l.c., p. 282.
Adorar a Deus em Espírito e Verdade (Jo 4,23)
Espírito Santo, concedei-me o dom do temor de Deus, para que eu me lembre sempre, com suma reverência e profundo respeito, a Vossa divina presença, trema como os próprios anjos diante da Vossa divina majestade e nada receie tanto como desagradar-Vos!
O ponto de partida
Na sua mais recente passagem por Portugal, aquando da Jornada Mundial da Juventude, o papa Francisco, na homilia das Vésperas do dia 2 de Agosto, em pleno Mosteiro dos Jerónimos, disse o seguinte:
«Como rezo eu? Como um papagaio, blá, blá, blá, ou dormitando diante do Sacrário, porque não sei como falar com o Senhor? Rezo? Como rezo? Apenas na adoração, só diante do Senhor, é que recuperamos o gosto e a paixão pela evangelização. E, curiosamente, perdemos a oração de adoração; e todos, sacerdotes, bispos, consagradas, consagrados têm que a recuperar: recuperar aquele permanecer em silêncio diante do Senhor. A Madre Teresa [de Calcutá], envolvida em tantas coisas da vida, nunca deixou a adoração, mesmo nos momentos em que a sua fé vacilava, questionando-se se tudo aquilo era verdade ou não».
Penso que este parágrafo é suficiente para voltar a centrar a nossa atenção na adoração. Afinal de contas, o Papa diz que a adoração é fundamental para recuperarmos o gosto e a paixão pela evangelização, ou seja, para evangelizar com entusiasmo e audácia é preciso permanecer em silêncio diante do Senhor; para ir ao encontro dos outros é preciso aprender a estar só diante do Senhor. Não são duas dimensões opcionais ou exclusivas, mas implicam-se e compenetram-se mutuamente. É assim que seremos verdadeiramente “contemplativos na acção”; é assim que seremos verdadeiros “discípulos-missionários”.
Esta conclusão é surpreendente, porque questiona o nosso activismo desenfreado e o nosso voluntarismo ingénuo. Só arderemos do desejo de levar Jesus a todos, se gastarmos tempo de qualidade em silêncio diante d’Ele, porque ninguém pode dar aquilo que não tem. A nossa fecundidade apostólica decorre destes momentos diante do Santíssimo.
O papa Francisco põe ainda o dedo na ferida, ao dizer «perdemos a oração de adoração». É preciso ter em conta que esta é uma denúncia que ele vai repetindo paulatinamente e que nós demoramos em reconhecer, aceitar e mudar de rumo. Serve como exemplo aquilo que ele nos diz na encíclica sobre o cuidado da criação:
«Quando o ser humano se coloca no centro, acaba por dar prioridade absoluta aos seus interesses contingentes, e tudo o mais se torna relativo. Por isso, não deveria surpreender que, juntamente com a omnipresença do paradigma tecnocrático e a adoração do poder humano sem limites, se desenvolva nos indivíduos este relativismo no qual tudo o que não serve os próprios interesses imediatos se torna irrelevante» (LS 122).
Quando deixamos de adorar a Deus, passamos a adorar deuses menores, feitos pelas nossas próprias mãos. Note-se que aqui não há meios-termos: ou adoramos a Deus ou adoramos objectos; ou crescemos na união a Deus ou nos amarramos a ídolos.
O que é a adoração?
A adoração, como atitude fundamental do crente que reconhece a Deus como infinitamente superior às suas criaturas, «não é algo especificamente cristão» (1), mas assume um lugar especial na vida daqueles que querem seguir Jesus, o perfeito adorador do Pai.
O Catecismo da Igreja Católica define a adoração como «o primeiro acto da virtude da religião. Adorar a Deus é reconhecê-Lo como tal, Criador e Salvador, Senhor e Dono de tudo quanto existe, Amor infinito e misericordioso. “Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto” (Lc 4, 8) – diz Jesus, citando o Deuteronómio (Dt 6, 13)» (2).
O fim da religião é ligar o ser humano a Deus e a adoração aparece como a primeira atitude humana perante o Criador. Este primeiro acto não deve ser entendido do ponto de vista cronológico nem designa uma precedência temporal; este primeiro acto refere-se a uma prioridade ontológica, ou seja, «adorar é o acto que mais adequadamente condensa as diversas e fecundas relações do homem com Deus» (3). Adorar torna-se, portanto, uma necessidade para o ser humano, sob pena de ele próprio se desorientar e perder o rumo.
O Catecismo da Igreja Católica acrescenta ainda: «adorar a Deus é reconhecer, com respeito e submissão absoluta, o “nada da criatura”, que só por Deus existe. Adorar a Deus é, como Maria no Magnificat, louvá-Lo, exaltá-Lo e humilhar-se, confessando com gratidão que Ele fez grandes coisas e que o seu Nome é santo. A adoração do Deus único liberta o homem de se fechar sobre si próprio, da escravidão do pecado e da idolatria do mundo» (4).
A adoração leva-nos a centrar-nos unicamente em Deus. Quem adora descentra-se de si mesmo, descentra-se dos ídolos, descentra-se das criaturas, para se centrar no Deus único. Neste sentido, «a adoração é o pórtico de acesso à intimidade com Deus. Os passos mais elevados da vida espiritual apoiam-se na adoração, porque têm por base o Amor recebido de Deus; e este Amor só se apreende em todo o seu esplendor, quando se capta a grandeza de Deus e a pequenez da criatura. Ou seja, quando se começa a adorar» (5).
Em geral, tendemos a considerar que a expressão mais imediata da adoração é a reverência, o acatamento ou o assombro, mas é preciso compreendê-la a partir do amor. Como refere M. Ordeig, «uma das acepções linguísticas de adorar é, precisamente, amar em extremo» (6). É por isso que a fé genuína e autêntica do povo cristão o leva a dizer tantas vezes que «adorar só a Deus».
Quando adora a Deus, «reconheço que Ele me criou com toda a liberdade, sem ser obrigado, para me comunicar o seu amor. A dependência que tenho dele, Ele que possui sobre mim todos os direitos, não produz em mim nem angústia nem alienação. Ao contrário, é fonte de uma imensa confiança e de um abandono. Só nos podemos abandonar a quem cuida de nós e que nos é benevolente» (7). Só nos podemos abandonar a quem nos ama verdadeiramente.
A adoração é uma forma de oração contemplativa, ou seja, é «uma oração sossegada em que não é preciso fazer nada, senão “expor-se” simplesmente à mais sólida prova do amor de Deus» (8). Neste sentido, é adoração o reconhecimento pleno de gratidão diante d’Aquele que é o nosso criador e salvador. Se a adoração for um acorde, as notas que o compõem são a fé, o louvor, a gratidão e o amor.
Numa catequese a crianças que se preparavam para receber a Primeira Comunhão, o papa Bento XVI explicava-lhes a adoração do seguinte modo: «adorar é reconhecer que Jesus é o meu Senhor, que Jesus me mostra o caminho a tomar, me faz entender que vivo bem somente se conheço a estrada indicada por Ele, somente se sigo a via que Ele me mostra. Portanto, adorar é dizer: “Jesus, eu sou teu e sigo-Te na minha vida; não quereria jamais perder esta amizade, esta comunhão contigo”. Poderia também dizer que a adoração, na sua essência é um abraço com Jesus, em que eu digo: “eu sou teu e peço-Te que Tu também estejas sempre comigo”» (9). Esta parece-me uma definição muito inspiradora para aqueles tempos em que estamos sentados, diante do Santíssimo Sacramento exposto na custódia. Fala-nos do desejo de uma união com Jesus, feita de amizade e comunhão com Ele. Fala-nos da adoração como um estar com um amigo com quem nos sentimos bem.
Jean-Hilaire Ardillier adverte que «a adoração não considera Deus sob um “ângulo” particular: ela vê-o naquilo que Ele é nele mesmo. Ela faz-me perceber que só Ele é absolutamente primeiro, e que todo o resto, mesmo aquilo que me é mais querido, mesmo a minha própria vida, mesmo os meus maiores desejos, lhe são relativos. Esta primazia de Deus na minha vida, que coloca todas as outras coisas no seu lugar certo, introduz a paz» (10). Segundo este autor, a adoração é «o ato interior através do qual me coloco na presença de Deus, reconhecendo, com a minha inteligência, o seu domínio absoluto sobre a minha vida» (11).
Esta relação entre primado de Deus e adoração é muito sugestiva e pode ser uma interessante pista para a nossa meditação pessoal, porque a vida consagrada deseja ser uma afirmação existencial do primeiro lugar dado a Deus na vida humana. Poderíamos ir um pouco mais longe e dizer que ser consagrado é abraçar um estado de adoração perpétua de Deus. As nossas Constituições dizem que somos chamados para «testemunhar o primado do Reino» (Cst 13).
Saber adorar, portanto, é «reconhecer-se pequeno perante a grandeza de Deus e deixar-se conduzir pela sua mão» (12). Esta tomada de consciência do próprio pecado e da própria pequenez é uma condição sine qua non para que o crente possa adorar a Deus «em espírito e verdade» (Jo 4, 23).
Por seu lado, Pablo d’Ors escreve que «esta é uma palavra que hoje nos parece estranha, mas adoração significa, muito simplesmente, que o homem não se realiza pela via do ego, mas saindo do seu micromundo e superando essa tendência tão nefasta como generalizada da apropriação e autoafirmação. Adoração quer dizer apenas deixar de viver desde o pequeno eu para dar lugar ao eu profundo, onde mora o hóspede divino. A adoração ou oração contemplativa é a única medicina frente à idolatria do eu. “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás” é a resposta de Jesus à última tentação com que o diabo o põe à prova. Isto hoje poderia traduzir-se assim: tu não és o centro do mundo, sai de ti mesmo» (13).
Provavelmente, a nossa dificuldade para adorar encontra-se aqui mesmo. É a nossa autorreferencialidade que impossibilita que nos prostremos diante do Criador e lhe prestemos a nossa adoração. Quando o papa Francisco diz que perdemos a adoração, não quererá dizer que vivemos demasiado centrados em nós e nas nossas preocupações quotidianas?
Quando o ser humano toma consciência da presença de Deus, sente o desejo de O adorar. Perante a proximidade do Criador, a atitude humana natural é a adoração. Nas palavras do papa Francisco, «existimos não só pelo poder de Deus, mas também na sua presença e companhia. Por isso O adoramos» (LS 72).
Concluo com a definição de M. Ordeig: «adorar pressupõe render-se totalmente ante a Bondade, a Grandeza, o Amor, a Misericórdia e a Humildade de Deus. A sua consequência mais imediata é o despojamento pessoal: sentir com inusitada força a pequenez pessoal. E o fruto é pôr a vida inteira à disposição de Deus: gastar o próprio eu a glorificar, louvar, bendizer, exaltar e dar graças… a esse Deus infinitamente bom e infinitamente humilde» (14). Esta tentativa de definição da adoração parece-me muito dehoniana, no sentido em que associa adoração e oblação, adoração e entrega, adoração e disponibilidade, adoração e união com Deus.
Jesus, o Adorador por Excelência
Ao longo de toda a sua vida, e sobretudo na cruz, Jesus é aquele que adora «em espírito e verdade» (Jo 4,23). Se a nossa adoração é frágil e sempre ameaçada, a adoração de Jesus é plena e ardente de caridade. Com a sua Paixão e Morte, Jesus tributa um acto de perfeita adoração ao Pai. Por isso, Jesus é o perfeito adorador, que, em nenhum momento, se deixa levar pela tentação de adorar outros deuses para além do Pai, como se pode ler em S. Mateus: «de novo o Diabo o levou consigo a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória. E disse-lhe: “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”. Jesus respondeu-lhe, então: “Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto” (Mt 4,8-10).
Jesus é o perfeito adorador do Pai, porque, neste contínuo confronto entre adorar a Deus ou adorar os ídolos, Ele nunca resvalou para a adoração dos falsos deuses. Jesus é o perfeito adorador do Pai, porque adora-O sempre a partir do imenso amor que os une e nunca a partir daquele temor que tende a afastar a criatura do seu Criador. Jesus é o perfeito adorador do Pai, porque a verdadeira adoração é aquela que aceita a vontade de Deus, mesmo apesar das profundas resistências que se podem erguer: «Meu Pai, se é possível, que se aparte de mim este cálice! No entanto, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres» (15).
O Evangelho de João mostra-nos Jesus a dar glória a Deus: «Pai, dou-te graças, porque me ouviste. Eu já o sabia, porque sempre me ouves, mas disse-o por causa da multidão que me rodeia, para que acreditem que Tu me enviaste» (16). «Dar glória a Deus é um destacado ingrediente da adoração. Quem louva e glorifica a Deus, adora-O. E muitas vezes a adoração nasce da gratidão, noutras da admiração, e noutras da verdade» (17).
Adorar a Cristo no Sacrifício e no Sacramento
De forma clara e peremptória, Bento XVI escreveu que, «na Eucaristia, o Filho de Deus vem ao nosso encontro e deseja unir-Se connosco; a adoração eucarística é apenas o prolongamento visível da celebração eucarística, a qual, em si mesma, é o maior acto de adoração da Igreja: receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração d'Aquele que comungamos. Precisamente assim, e apenas assim, é que nos tornamos um só com Ele e, de algum modo, saboreamos antecipadamente a beleza da liturgia celeste. O acto de adoração fora da Santa Missa prolonga e intensifica aquilo que se fez na própria celebração litúrgica» (18).
Talvez nos soe estranho e surpreendente escutar que a Eucaristia é «o maior acto de adoração da Igreja», porque tendemos a olhar a Eucaristia a partir de outros prismas igualmente válidos. No entanto, desta citação podemos extrair algumas conclusões relevantes para a nossa compreensão da adoração eucarística.
Em primeiro lugar, se o grande momento de adoração é a própria celebração eucarística, então, nas palavras de C. Cabecinhas, «a adoração eucarística vive-se, antes de mais, na participação activa, interior e consciente na celebração da Eucaristia. A celebração é a forma primeira e mais importante da adoração eucarística» (19). Com efeito, já desde a Idade Média, que a elevação da hóstia e do cálice, durante a consagração, suscitam a adoração interior e exterior dos fiéis e não será por acaso que o Missal pede ao presidente da celebração que faça uma genuflexão nestes momentos.
Não pode haver qualquer separação ou ruptura entre Eucaristia e a adoração eucarística. Em nenhum momento, esta é concorrente ou substituta daquela, mas orienta-se e encaminha-se sempre para a Eucaristia. Caso contrário, teríamos uma divergência entre piedade privada e piedade litúrgica, algo que o Vaticano II recusava (cf. SC 13). «A nossa piedade eucarística da adoração deve inserir-se e estar em continuidade com o sacrifício da missa, cume de toda a oração cristã» (20).
Este vínculo estreito entre ambas compreende-se melhor a partir das palavras de Bento XVI: «não é que na Eucaristia nós simplesmente recebemos uma coisa qualquer. Ela é o encontro e a unificação de pessoas; porém a pessoa que vem ao nosso encontro e deseja unir-se a nós é o Filho de Deus. Tal unificação somente pode realizar-se segundo o modo de adoração. Receber a Eucaristia significa adorar Aquele que recebemos. Precisamente assim e somente assim nos tornamos um só com ele. Por isso, o desenvolvimento da adoração eucarística, como se formou durante a Idade Média, era a consequência mais coerente do próprio mistério eucarístico: somente na adoração pode amadurecer um acolhimento profundo e verdadeiro» (21). Estas palavras lembram-nos que a nossa presença diante do Santíssimo Sacramento é uma questão de abertura, disponibilidade e acolhimento d’Aquele que deseja unir-se a nós.
Daqui deriva uma segunda conclusão que nos diz que a adoração eucarística fora da missa há-de ser sempre prolongamento da adoração de Cristo na celebração da Eucaristia, também porque, como refere Marianne Schlosser, «a recepção do Sacramento requer ser revivida a posteriori mediante a meditação orante pessoal» (22). Meditar significa interiorizar, aprofundar, personalizar e permanecer… Neste sentido, a adoração eucarística é um «acto de culto que permite viver, mais profundamente e com maior fruto, a própria celebração litúrgica» (23). A adoração, portanto, é a «continuação contemplativa» (24) da eucaristia.
Recorda-nos o liturgista Pere Tena que «a adoração eucarística nasceu da celebração, ainda que se tenha desenvolvido fora dela. Se se perde o sentido de adoração no interior da celebração, dificilmente se encontrará justificação para a promover fora dela… Talvez esta consideração possa ser interessante para rever as celebrações em que os sinais de referência a uma realidade transcendente quase se esfumam» (25). Daqui pode derivar uma pergunta que nos pode ajudar posteriormente na nossa meditação pessoal: como cuidamos dos nossos gestos eucarísticos de adoração, nomeadamente a genuflexão, a vénia, o ajoelhar-se e o estar em silêncio diante do Santíssimo Sacramento? Apesar da idade poder não permitir alguns destes gestos, como manifestamos a Deus a nossa adoração interior?
A partir da eucaristia, a adoração «é um viver interiormente a missa, é o seu prolongamento contemplativo, uma missa espiritual» (26). A adoração eucarística é um «tempo de oblação pura, para participar interiormente e com total liberdade de espírito no sacrifício de Cristo e deixar-nos invadir pelo Seu amor» (27). Talvez a grande dificuldade seja precisamente aquele espírito activista e voluntarista que torna estes momentos de repouso diante do Senhor uma perda de tempo, quando não um sem-sentido.
A Adoração como Compromisso: Reparação e Entrega de Si
A adoração reforça que o mais importante não é o que fazemos, mas aquilo que recebemos. Quando celebramos a Eucaristia e a prolongamos na adoração, estamos a acolher a revelação de Deus. Este acolhimento transforma o nosso coração e daqui nasce o compromisso social.
A adoração «torna-se também o primeiro passo da resposta a este Deus que se revela como amor, como caminho de santificação» (28). Na Eucaristia e na adoração, «deixamo-nos transfigurar para colaborar na transfiguração do mundo no sentido do mistério pascal» (29). A adoração não nos retira do mundo, ela devolve-nos ao mundo com um espírito diferente.
Não podemos celebrar a Eucaristia sem a celebrar também na vida e na história. Celebrar a Eucaristia na vida e na história implica lutar contra todas as formas injustas de discriminação, contra todas as exclusões e marginalizações, com uma vontade efectiva de dom, de partilha, de reconciliação. Caso contrário, estamos a comer e beber sem discernir o Corpo do Senhor e, portanto, comer e beber a própria condenação (1 Cor 11,29).
«A nossa celebração eucarística abre-se às necessidades dos irmãos, abre-nos ao mundo que nos rodeia. Na adoração, renovamos esta tomada de consciência, esta “atenção às necessidades do mundo” (Cst 35), procurando vê-las com os olhos de Cristo. Renovamos as nossas forças para as compreender e enfrentar com o mesmo amor de Jesus» (30). A adoração, tal como a própria eucaristia, tem uma dimensão social muito forte. Aquilo que celebramos e rezamos aspira, pela sua própria dinâmica interna, a ser transformado em vida oferecida.
Compreendemos a reparação «como dom, como acolhimento da redenção de Cristo» (31), como uma resposta ao amor de Deus contemplado e adorado. A adoração reparadora torna-nos mais atentos às necessidades do mundo. Na adoração, «reparamos tantos esquecimentos e descuidos nossos e dos nossos irmãos: reparamos tudo aquilo que se fez e faz para apagar a recordação de Cristo na mente dos homens e empenhamo-nos para que, por meio do exemplo da nossa vida, por meio das nossas palavras e escritos, cada vez mais os homens experimentem que Cristo é seu irmão, salvador e libertador» (32).
Os Gestos de Adoração
Se é verdade que a adoração «em espírito e verdade» não está vinculada a lugares ou gestos específicos, não é menos verdade que o corpo humano tem uma capacidade natural de exprimir a atitude adorante. «São Tomás de Aquino, reflectindo sobre a adoração, pergunta-se se a adoração, como acto principalmente espiritual, exige algum gesto corporal; e responde afirmativamente: pela genuflexão e pela prostração exprimimos a atitude adorante» (33). Adorar, portanto, é uma acção do ser humano na sua corporeidade. Para adorar a Deus as palavras não são imprescindíveis e nem sequer são o mais importante. O gesto corporal é suficientemente eloquente para prestar adoração. Neste sentido, «não há verdadeira adoração, sem que o corpo traduza em gestos concreto a reverência de uma criatura perante o seu Criador» (34).
No mundo bíblico, «os grandes gestos de adoração são a prostração, a genuflexão, a inclinação e o beijo. Mas todos os gestos e atitudes dos actos cultuais podem ser expressão de adoração» (35). A própria palavra adoração parece ter a sua origem no latim ad os, que significa levar à boca, beijar. Com efeito, era frequente, no mundo antigo, a associação entre a prostração e o beijo (36) como expressão adorante.
O Ritual da Sagrada Comunhão e Culto do Mistério Eucarístico fora da Missa recorda que, «diante do Santíssimo Sacramento, quer conservado no tabernáculo quer exposto à adoração pública, genuflecte-se só com um joelho» (37). Esta genuflexão é um gesto de adoração eloquente por si mesma, especialmente quando acompanhada do sentimento respectivo. A realidade, porém, parece ir em direcção bem diferente: genuflexões feitas a correr, pouco conscientes e que levantam a dúvida quanto ao real significado do gesto. Há poucos meses podia-se ler no jornal Voz Portucalense o seguinte:
«raros são os catequistas que se esmeram na educação das crianças para fazerem bem a genuflexão. Contentam-se com uma vénia que, de modo algum, tem uma capacidade equivalente para exprimir o sentido da adoração. Veja-se a diferença claramente expressa em IGMR 274 (38) e 275 (39)» (40).
A este propósito escreveu R. Guardini:
«quando dobrares o joelho, não o faças apressadamente e de forma descuidada. Dá alma ao teu acto! E que a alma do teu ajoelhar consista em inclinar também o coração diante de Deus, em profunda reverência. Quando entrares ou saíres da igreja ou passares diante do altar, dobra o joelho profunda e lentamente e que todo o teu coração acompanhe este flectir. Isto há-de significar: “Meu Deus altíssimo!...”. Isto sim que é humildade e verdade, e fará sempre bem à tua alma» (41).
Efectivamente, não podemos perder de vista que a verdadeira adoração é aquela que une a alma e o coração a cada palavra e a cada gesto. Caso contrário, os gestos perderão a sua força e reduzir-se-ão até se tornarem numa encenação vazia de significado, sentimento e espírito.
Redescobrir o Valor das Visitas ao Santíssimo
Ainda que a nossa adoração eucarística se possa revestir da formalidade e solenidade associada à exposição pública do Santíssimo Sacramento, a verdade é que ela se pode expressar de formas mais simples e acessíveis, nomeadamente através das visitas ao Santíssimo Sacramento, presente no sacrário. Com efeito, se a adoração é sempre um acto voluntário e livre, isto significa que eu posso adorar a Deus quando quiser e em todas as circunstâncias. A minha adoração pode durar um minuto ou mais. Hoje pode durar dez minutos, amanhã só três e, no dia seguinte, outro tanto. As circunstâncias podem determinar a sua duração, mas não têm a palavra final.
A visita ao Santíssimo é uma forma de adoração eucarística pessoal (42) e é também uma excelente pedagogia para «iniciar as crianças no sentido e na beleza de demorar-se na companhia de Jesus, cultivando o enlevo pela sua presença na Eucaristia» (43). As palavras de S. Teresa de Calcutá são, a este respeito, um poderoso testemunho disto mesmo: «o tempo que cada um passa com Jesus no Santíssimo Sacramento é o melhor momento que pode passar na terra».
Dentro da nossa espiritualidade, quero acrescentar ainda que a visita ao Santíssimo é um instrumento muito útil e válido para crescer na união com Jesus. De facto, esta união corre o risco de se tornar meramente abstracta, se não é alimentada por momentos frequentes de encontro com Jesus. A visita ao Santíssimo, não sendo a única via para fortalecer a nossa união a Jesus, é, sem dúvida, uma prática que pode contribuir eficazmente para isso.
A visita ao Santíssimo aparece também como uma modalidade daquele «orai sem cessar» pedido por Jesus. Recordo-me do exemplo da minha mãe que, quando via uma igreja de portas abertas, não hesitava em entrar e aí permanecer em oração diante do sacrário, durante o tempo que lhe era possível.
A visita ao Santíssimo proporciona um tempo de oração pessoal, de grande liberdade, em que cada um pode apresentar a Jesus aquilo que muito bem lhe aprouver em cada momento. Desta forma, seja ao iniciar ou concluir uma actividade, seja ao sair de casa ou regressar a ela, pode haver um encontro adorante com Jesus (44), com aquela mesma facilidade com que nós vamos tomar um café com um amigo de quem temos saudade. Como escreve M. Ordeig: «os momentos em que te aproximas e visitas Jesus Sacramentado são ocasiões privilegiadas para corresponderes ao amor de Deus que te inunda, para Lhe mostrares o teu agradecimento, para te saciares da sua companhia, para te acenderes no seu amor… e depois voltares aos teus afazeres, com a alma trespassada pela solicitude de quem deu a vida por ti e ficou entre nós para que nunca te sintas sozinho» (45).
Concluo este tema, com o testemunho do Francisco Marto, nas palavras da Ir. Lúcia:
«Quando ia à escola, por vezes, ao chegar a Fátima, [o Francisco] dizia-me:
– Olha: tu vai à escola. Eu fico aqui na igreja, junto de Jesus escondido. Não me vale a pena aprender a ler; daqui a pouco vou para o Céu. Quando voltares, vem por cá chamar-me.
O Santíssimo estava, então, à entrada da Igreja, do lado esquerdo. Metia-se entre a pia baptismal e o altar e aí o encontrava, quando voltava. (O Santíssimo estava aí por andar a Igreja em obras).
Depois que adoeceu, dizia-me, às vezes, quando, a caminho da escola, passava por sua casa:
– Olha: vai à Igreja e dá muitas saudades minhas a Jesus escondido. Do que tenho mais pena é de não poder já ir a estar uns bocados com Jesus escondido» (46).
A Adoração na Mensagem de Fátima
Parece-me importante trazer aqui a mensagem de Fátima, não apenas porque somos portugueses e vamos muitas vezes a Fátima ao longo da nossa vida, mas porque, «na mensagem de Fátima, a adoração ocupa um lugar central» (47). Este é, desde logo, um dos vários pontos de proximidade entre a espiritualidade de Fátima e a espiritualidade dehoniana.
Trago à nossa meditação a mensagem de Fátima, porque «o que há de essencial em Fátima é, em última instância, o despertar para a urgência de centrar radicalmente a nossa vida em Deus, como o único que deve ser amado e adorado» (48). Fátima alerta para a nossa indiferença perante o amor divino e exorta-nos a despertarmos deste adormecimento espiritual.
Ainda que não de forma exclusiva, particularmente sugestivas para este tema são as três aparições do Anjo aos Pastorinhos, em 1916, que constituem uma preparação para as aparições de Nossa Senhora, no ano seguinte. Por razões de brevidade, cingir-me-ei apenas à primeira e terceira aparições, porque nelas ressalta, de forma muito clara e compreensível, o tema que estamos a meditar.
Na primeira aparição, conta a Ir. Lúcia, o Anjo da paz «ajoelhando em terra, curvou a fronte até ao chão. Levados por um movimento sobrenatural, imitámo-lo e repetimos as palavras que lhe ouvimos pronunciar:
– Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam» (49).
Esta oração, simples e breve, está profundamente arraigada e popularizada entre nós. Repetimo-lo quase diariamente nas nossas adorações eucarísticas. Chamo a vossa atenção para o gesto corporal que a acompanha: todos se prostram por terra. Voz e corpo revelam uma unidade singular entre si.
O mais surpreendente, porém, é que esta oração intercala a adoração entre as virtudes teologais: «creio, adoro, espero e amo-Vos». Chama a atenção esta interrupção da sequência das três virtudes teologais, mas, de algum modo, ela expressa que a adoração «concentra em si mesma as três virtudes» (50). Crer, esperar e amar são variações da adoração. A nossa adoração a Deus é sempre resultado da fé, esperança e caridade.
A impressão que esta experiência de adoração deixou nas três crianças, nas palavras da Ir. Lúcia, foi muito forte:
«A atmosfera do sobrenatural que nos envolveu era tão intensa, que quase não nos dávamos conta da própria existência, por um grande espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha deixado, repetindo sempre a mesma oração. A presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar. No dia seguinte, sentíamos o espírito ainda envolvido por essa atmosfera que só muito lentamente foi desaparecendo» (51).
Se a voz e o gesto corporal eram concordes, percebemos que os sentimentos interiores experimentados pelos três pastorinhos estavam igualmente sintonizados com aquilo que era dito e feito. Esta experiência de adoração constituiu um verdadeiro encontro com Deus, que deixou uma marca profunda em todos aqueles que a viveram. Os verdadeiros momentos de encontro com Deus são sempre ocasiões de transformação, porque não é possível ficar igual diante do Deus que se revela ao ser humano.
Na terceira aparição, o Anjo ensina aos videntes outra oração, igualmente muito conhecida entre nós, em que a adoração emerge como atitude fundamental:
«Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E, pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores» (52).
Nesta oração, a expressão «adoro-Vos profundamente» parece «remeter para o gesto exterior da prostração, mas sobretudo para a atitude interior. A adoração é atitude interior que se exprime exteriormente e que implica todo o ser da pessoa» (53). Tal como na primeira oração, a adoração aparece intimamente unida à reparação. Aquele que adora a Deus está consciente que o amor divino não é devidamente correspondido e mostra-se disponível para responder positivamente a esse amor.
Uma vez mais, os efeitos desta experiência nos Pastorinhos foram marcantes:
«Levados pela força do sobrenatural que nos envolvia, imitávamos o Anjo em tudo, isto é, prostrando-nos como Ele e repetindo as orações que Ele dizia. A força da presença de Deus era tão intensa que nos absorvia e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos sentidos corporais por um grande espaço de tempo. Nesses dias, fazíamos as acções materiais como que levados por esse mesmo ser sobrenatural que a isso nos impelia. A paz e felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima, completamente concentrada a alma em Deus. O abatimento físico, que nos prostrava, também era grande (54) ».
Ainda que estas expressões de adoração sejam graças extraordinárias, que não se podem impor como normais, elas falam-nos de um encontro entre Deus e o crente, um encontro que nos transforma, porque reconhecer a nossa pequenez diante de Deus engrandece-nos.
Os pastorinhos de Fátima aparecem, por conseguinte, como mestres de adoração para nós hoje. Eles ensinam-nos a prostrar-nos diante de Deus e a deixar-nos habitar e transformar pelo Seu amor infinito. Eles desafiam-nos a não recitar estas orações como simples sucessões de palavras, mas associando sempre os sentimentos mais profundos do nosso coração.
A Adoração na Regra de Vida SCJ
As nossas Constituições apresentam três números que falam directamente da adoração. Passo a transcrevê-los:
«Para o Padre Dehon, fazem parte desta missão, em espírito de oblação e de amor, a adoração eucarística, como autêntico serviço de Igreja (cf. NQT 1.3.1893)» (Cst 31).
«Além disso, cada um deverá prever o tempo suficiente de oração quotidiana, conforme as orientações do Directório particular e a recomendação do Padre Fundador: para viverdes a vida interior, dedicareis todos os dias uma boa meia hora à oração da manhã e uma meia hora à adoração reparadora (Test. Esp.)» (Cst 79 b).
«Na adoração, intimamente ligada à celebração eucarística, meditamos nas riquezas desse mistério da nossa fé, a fim de que a carne e o sangue de Cristo, alimento de vida eterna, transformem mais profundamente as nossas vidas. […] Correspondemos, assim, a uma exigência da nossa vocação reparadora. Na adoração eucarística, queremos aprofundar a nossa união ao sacrifício de Cristo para a reconciliação dos homens com Deus» (Cst 83).
1. Ainda que o nosso Instituto «não tenha sido fundado em vista de uma obra determinada» (Cst 30), a verdade é que «herdou do Fundador certas orientações apostólicas, que caracterizam a sua missão na Igreja» (Cst 30), na medida em que se ordenam ao elemento essencial do carisma dehoniano: a oblação. Na minha perspectiva, orientações apostólicas é algo mais do que obras.
Dentre estas orientações, a adoração eucarística aparece em primeiro lugar. Os dehonianos, nos mais diversos campos da sua actividade apostólica, são chamados a promover a adoração eucarística. Seria natural que os dehonianos fossem conhecidos por serem aqueles que vivem e promovem a adoração eucarística. Aliás, já ouvi um padre diocesano que se referia a nós como aqueles que fazem a adoração eucarística.
Apesar disto, a mim chamou-me a atenção quando, há uns tempos, numa comunidade, se quis fazer adoração eucarística, após a missa de domingo. Como sempre, houve quem gostasse da ideia e houve quem não gostasse tanto assim. Mas o mais surpreendente foi que havia gente, que levando mais de 25 anos de colaboração com a comunidade, que não entendia a razão daquela ideia, porque nunca se tinham apercebido que nós fazemos adoração eucarística. Esta invisibilidade de uma dimensão relevante do nosso carisma deve fazer-nos pensar.
2. A adoração eucarística é apresentada, no n. 31, na perspectiva da oblação reparadora, não como um simples “exercício” espiritual nem como um acto de piedade pessoal ou comunitário, mas «como um autêntico serviço» na Igreja (55). Ainda que o Pe. Dehon, num momento ou noutro, fale da adoração como um “exercício espiritual”, pensa-a sobretudo em termos de serviço. Com efeito, nas Notes Quotidiennes, escreveu que «sem a adoração a nossa obra não realiza a sua missão na Igreja» (56). Além disso, uma testemunha, no seu processo de beatificação, refere esta afirmação do nosso Fundador: «nenhum trabalho pode tomar o lugar deste exercício importante das nossas regras. Não reconheço como meu filho espiritual aquele que habitualmente não faz a adoração» (57). Recordemos ainda a última recomendação do testamento espiritual: «a minha última palavra será para recomendar-vos ainda a adoração diária, a adoração reparadora oficial, que fazemos em nome da Igreja, para consolar Nosso Senhor e para apressar o Reino do Sagrado Coração de Jesus nas almas e nas nações» (58).
3. Cst 83 apresenta a adoração, intimamente ligada à celebração eucarística, como um tempo de meditação que transforma a nossa vida, no qual se opera um aprofundamento da nossa união ao sacrifício de Cristo. Neste sentido, a adoração eucarística é «um momento característico da nossa vida eucarística» (59). As palavras de Bento XVI, que apresenta a adoração eucarística como um prolongamento e intensificação da eucaristia, têm aqui uma explicitação muito clara. À luz do pensamento espiritual do Padre Dehon, a adoração aparece como um modo especial para transformar cada dia e toda a nossa vida «numa missa permanente» (Cst 5).
O padre Dehon estava convencido de que «a eucaristia é o fogo, a base, o centro de toda a vida, de toda a obra, de todo o apostolado. Toda a redenção gravita em torno do Calvário, e toda a sua aplicação gravita em torno do altar. O operário evangélico, que não viva uma vida eucarística, não tem mais do que uma palavra sem vida e uma acção ineficaz» (60).
4. Na minha opinião, é muito interessante esta apresentação da adoração, que a situa numa tensão entre o «autêntico serviço de Igreja» (Cst 31) e a «exigência da nossa vocação reparadora» (Cst 83). A adoração aparece nesta tensão entre serviço (apostólico: para os outros, para a Igreja) e exigência (vocacional: para mim). Se por um lado, a Igreja espera que vivamos e sejamos promotores da adoração eucarística, ela é também uma exigência de fidelidade à nossa vocação. Se a missão e a vocação se identificam com muita naturalidade, para nós, dehonianos, o modo como vivemos a adoração reforça ainda mais esta identificação.
Como exigência vocacional, a adoração aparece como «um tempo puro da nossa oblação reparadora» (61), como serviço de Igreja aparece como «elemento vital da nossa eficácia apostólica» (62). Sendo um “tempo puro” da oblação e da reparação, a adoração é o tempo em que devemos «aprofundar a nossa união ao sacrifício de Cristo para a reconciliação dos homens com Deus» (Cst 83). Por isso, «a adoração é um serviço prestado à Igreja e tem já em si mesmo uma real fecundidade apostólica» (63).
Sabemos que a palavra exigência é um termo forte, mas situar a adoração como uma exigência e um serviço significa que ela é importante em si e também importante para mim. Situada neste eixo, compreende-se de uma forma bastante lógica que sejamos chamados a um tempo de 30 minutos diários de adoração. A adoração é importante para nós como apostolado, mas também como espiritualidade (exercício/prática).
5. Para um dehoniano, a adoração eucarística é fundamental: não é opcional, não é um capricho do momento, não é algo descartável. «Não é para nós uma prática facultativa. É um acto essencial da nossa vocação e da nossa missão aprovada pela Igreja» (64). Ela é um elemento que dá identidade SCJ e a Igreja espera de nós este serviço.
Atenção!!! Quando a Igreja reconheceu o carisma dehoniano e o aprovou, isso significa que espera de nós a adoração eucarística diária e não necessariamente outras coisas. Podemos andar a correr atrás de muitas coisas e esquecemo-nos que «uma pausa de verdadeira adoração tem maior valor e fruto espiritual do que a mais intensa actividade, ainda que seja a própria actividade apostólica» (65). Ao longo destes 25 anos de vida consagrada dehoniana, fiquei com a impressão que falhamos muito neste aspecto e, como já nos habituamos tanto a isso, já não nos custa assim tanto.
6. Nas palavras do padre Manzoni, «vista nesta perspectiva, a nossa adoração eucarística, como é reparadora por si mesma, é por si mesma apostolado. Se a adoração eucarística é para nós, Oblatos-SCJ um autêntico serviço prestado à Igreja, devemos estar atentos que não se transforme em simples exercício de piedade, mais ou menos devocional, atulhado de leituras, de fórmulas, de orações» (66).
«Na adoração eucarística, estamos, de modo muito especial, unidos “à oblação reparadora de Cristo ao Pai pelos homens” (Cst 6); manifestamos que, para nós, “o único necessário” é a “vida de união à oblação de Cristo” (Cst 26); realizamos “o nosso carisma profético” que “nos coloca ao serviço da missão salvífica do Povo de Deus no mundo de hoje” (Cst 27); vivemos “a adoração eucarística”, como nossa primeira orientação apostólica, “como autêntico serviço de Igreja” (Cst 30). (67)
Em suma, «a adoração é mais do que um aspecto “especial” da nossa missão. É também mais do que um momento estabelecido do nosso dia. Ela qualifica o espírito, a mentalidade que deve animar todas as responsabilidades da nossa missão e todas as dimensões da nossa vida. Mais uma vez, acreditamos que, quanto menos a isolarmos, quanto menos a reduzirmos a um simples rito, e quanto mais a ligarmos à nossa vida religiosa e ao nosso trabalho apostólico, melhor encontraremos o seu sentido correcto. E é com esta atitude que poderemos, ao mesmo tempo, ser mais fiéis e mais criativos quanto às maneiras de a realizar»(68).
Encerro esta meditação com as palavras do Pe. Dehon, nas suas Memórias (14.3.1912). Diz-nos ele que a adoração «é a nossa audiência real de cada dia. É a nossa vocação. Devemos ser como os amigos de Betânia junto dos quais Jesus toma as suas refeições»(69). Não esqueçamos que tomar uma refeição juntos remete para o valor da hospitalidade, da convivialidade, da amizade e da fraternidade…
Pe. José Domingos Moreira Costa Ferreira, scj
NOTAS
1. C. CABECINHAS, A Adoração no Contexto da Mensagem de Fátima, 91
2. CIC 2096.
3. M. ORDEIG, A Adoração, Encontro da Escrita, Damaia 2019, 11.
4. CIC 2097.
5. M. ORDEIG, A Adoração, Encontro da Escrita, Damaia 2019, 9.
6. M. ORDEIG, A Adoração, Encontro da Escrita, Damaia 2019, 12.
7. J. H. ARDILLIER, SNPC.
8. M. SCHLOSSER, 129.
9. M. ORDEIG, A Adoração, Encontro da Escrita, Damaia 2019, 12.
10. J. H. ARDILLIER, SNPC
11. J. H. ARDILLIER, SNPC
12. Ibidem, 9.
13. Pablo D’ORS, “Un padre del desierto para hoy. Las siete palabras de Charles de Foucauld”, Razón y fe 1418 (2016) 520-521.
14. M. ORDEIG, A Adoração, Encontro da Escrita, Damaia 2019, 14-15.
15. Mt 26,39.
16. Jo 11,41-42.
17. M. ORDEIG, A Adoração, Encontro da Escrita, Damaia 2019, 93.
18. BENTO XVI, Sacramentum Caritatis, 66.
19. C. CABECINHAS, A Adoração no Contexto da Mensagem de Fátima, 97.
20. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 224.
21. BENTO XVI, Discurso de 22/12/2005.
22. M. SCHLOSSER, 129.
23. BENTO XVI, Sacramentum Caritatis, 66.
24. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 224.
25. PERE TENA in IRABURU, 23, 1ª col.: 212)
26. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 224.
27. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 224.
28. C. CABECINHAS, A adoração no contexto da mensagem de Fatima, 100.
29. A. PANTEGHINI, Carta Circular sobre a Adoração Eucarística, 18.
30. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 225.
31. Carisma e Devozioni: Verso una Identità Dehoniana Inculturata, STD 63, CSD 2017, 225.
32. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 228.
33. C. CABECINHAS, A adoração no contexto da mensagem de Fatima, 99 (Summa Theologica, IIª-IIae q. 84 a. 2 ad 2)
34. A. PINTO, A Adoração e o Padre Dehon, Edições Dehonianas, Porto, 1999, 9.
35. C. CABECINHAS, A adoração no contexto da mensagem de Fatima, 99.
36. Serve a seguinte afirmação como testemunho: «segundo o costume tradicional, a veneração do altar e do Evangeliário é significada pelo ósculo» (IGMR 273).
37. Ritual da Sagrada Comunhão e Culto do Mistério Eucarístico fora da Missa, 84.
38. «A genuflexão, que se faz dobrando o joelho direito até ao solo, significa adoração; é por isso reservada ao Santíssimo Sacramento e à santa Cruz desde a solene adoração na Acção litúrgica da Sexta-Feira da Paixão do Senhor, até ao início da Vigília pascal. Na Missa, o sacerdote celebrante faz três genuflexões: após a ostensão da hóstia, após a ostensão do cálice e antes da Comunhão. As peculiaridades a observar na Missa concelebrada indicam-se nos lugares respectivos (cf. nn. 210-251). Mas, se o sacrário com o Santíssimo Sacramento estiver no presbitério, o sacerdote, o diácono e os outros ministros genuflectem, quando chegam ao altar, e quando se afastam dele, não, porém, durante a própria celebração da Missa. Aliás, todos os que passam diante do Santíssimo Sacramento genuflectem, a não ser quando se vai em procissão. Os ministros que levam a cruz processional ou os círios, em vez de genuflectirem fazem uma inclinação de cabeça» (IGMR 274).
39. «A inclinação significa a reverência e a honra que se presta às próprias pessoas ou aos seus símbolos. As inclinações são de duas espécies: inclinação de cabeça e inclinação do corpo.
a) A inclinação de cabeça faz-se ao nomear as três Pessoas divinas conjuntamente, ao nome de Jesus, da Virgem Santa Maria e do Santo em cuja honra é celebrada a Missa.
b) A inclinação do corpo, ou inclinação profunda, faz-se: ao altar; durante as orações Purificai o meu coração (Munda cor meum) e De coração humilhado (In spiritu humilitatis); no Símbolo às palavras E encarnou pelo Espírito Santo (Et incarnatus est); no Cânone romano às palavras Humildemente Vos suplicamos (Supplices te rogamus).
Também o diácono faz inclinação profunda ao pedir a bênção, antes da proclamação do Evangelho. Além disso, o sacerdote faz uma pequena inclinação enquanto diz as palavras do Senhor, na consagração» (IGMR 275).
40. SECRETARIADO DIOCESANO DE LITURGIA, Atitudes e Gestos de Adoração (2) in Voz Portucalense, 03.10.2023, p. 16.
41. R. GUARDINI, Sinais Sagrados, SNL, Fátima 2017, pp. 17-18.
42. Cf. BENTO XVI, Sacramentum Caritatis, 67-68.
43. BENTO XVI, Sacramentum Caritatis, 67.
44. Cf. BENTO XVI, discurso de 22/12/2005.
45. M. ORDEIG, A Adoração, Encontro da Escrita, Damaia 2021, 150-151.
46. Quarta Memória, p. 170-171.
47. C. CABECINHAS, A Adoração no Contexto da Mensagem de Fátima, 92.
48. J. J. F. FARIAS, Um fogo que arde, mas não queima. Um ensaio teológico sobre a Mensagem de Fátima, como contributo para a entender e viver hoje em Portugal, Prior Velho 2010, p. 69.
49. Quarta Memória, p. 169.
50. J. DUQUE, «Santíssima Trindade, adoro-Vos profundamente. O percurso temático para 2011-2012», in Santíssima Trindade, adoro-Vos profundamente. Itinerário temático do Centenário das Aparições de Fátima, 1º Ciclo, Fátima 2010, p. 18.
51. Quarta Memória, p. 169.
52. Quarta Memória, p. 170.
53. C. CABECINHAS, A Adoração no Contexto da Mensagem de Fátima, 95.
54. Quarta Memória, p. 171.
55. Cf. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 82.
56. NQ VI, 24; 1.3.1893.
57. AD. B 48/2d. Doc. 12.
58. L. DEHON, Directório Espiritual, pp. 261-262.
59. A. PANTEGHINI, Carta Circular sobre a Adoração Dehoniana, 3.
60. L. DEHON, NQ XXV, 46-47.
61. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 82.
62. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 82.
63. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 83.
64. LC, 196.
65. Descobrir quem disse isto.
66. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 83.
67. G. MANZONI, Oblatos-SCJ. Comentário aos nn. 1-85 das Constituições, STD 26, Aveiro 2000, 224.
68. Carta sobre a adoração eucarística, n. 21.24.
69. LC n. 401.
Mensagem do Patriarca para a Quaresma de 2025
Começamos a caminhada quaresmal iluminados pela esperança posta em Cristo vivo e ressuscitado. Assim, os quarenta dias de preparação para a Páscoa são uma oportunidade para prepararmos o íntimo de cada um de nós para acolher o dom da vida nova, a graça divina, que dissipa as trevas do erro, da morte e do pecado e implanta a luz da fé, da esperança e da caridade.
Na vivência do Ano Jubilar, somos convidados de forma particular a dirigir o nosso coração para Deus: Ele é a fonte da vida verdadeira. A recordação da travessia do deserto pelo Povo de Israel, depois da libertação da escravidão do Egipto, recorda os vários níveis de esperança.
Primeiro, somos chamados a uma esperança que tem consequências sociais: o Deus que libertou da escravidão é o mesmo Deus que hoje quer libertar a humanidade da guerra, da violência e do ódio. Só uma sociedade totalmente voltada para Deus pode encontrar razões para encetar caminhos de verdadeira paz, construtora de uma civilização do amor e da cultura do encontro.
Em segundo lugar, somos chamados a uma esperança que tem consequências nas nossas famílias e nas nossas paróquias e comunidades cristãs: o Deus que liberta é também o Deus que faz o dom do culto novo da liberdade e da dedicação a Deus. As comunidades cristãs são chamadas a ser lugar da esperança, em que cada um é acolhido e em que se faz verdadeiro caminho de comunhão com Deus, lugares e espaços em que não se desiste de ninguém, mas em que se vive o verdadeiro compromisso de fraternidade cristã.
Em terceiro lugar, somos chamados a uma esperança que tem consequências na vida de cada um de nós: o Deus que liberta é também o Deus que faz o dom dos Mandamentos. A Quaresma é tempo particular de renovação interior, de purificação dos esquemas mesquinhos e egoístas e de um encontro com Deus que oferece uma nova forma de viver.
Finalmente, os frutos renovadores operados pela força da esperança, repercutem-se ainda na conceção da própria história. O empenho do cristão no mundo deve ser pautado pelo mistério da Eucaristia, onde os elementos da terra (pão e vinho) passam para a definitiva dimensão divina, o Corpo e o Sangue de Cristo; assim, o «já» do presente da humanidade abre-se ao «ainda-não» da plenitude da vida de Deus. Em Cristo, a esperança recoloca Deus no centro da história, tal como abre, nos factos e acontecimentos do tempo, janelas e estradas que nos encaminham nos horizontes da santidade para a plenitude da vida eterna.
Não podemos chegar ao fim da Quaresma e ficar tudo na mesma. Rezamos e lutamos para que se encontrem verdadeiros caminhos de renovação espiritual, comunitária e social. Por isso, faço votos de uma Quaresma muito cheia de frutos de vida eterna para todos, revivendo as tradicionais práticas do jejum, da esmola e da oração, de forma sempre nova e criativa.
De toda esta caminhada de conversão, resulta habitualmente a renúncia quaresmal, sinal de partilha com algumas realidades que se veem necessitadas de ajuda. Assim, resultou da renúncia quaresmal de 2024 do Patriarcado de Lisboa o valor de 195 906,71€ que é dedicada ao apoio das finalidades anunciadas.
Neste Ano Jubilar de 2025, a renúncia quaresmal será destinada a alguns dos sinais de esperança que o Papa Francisco indicou na bula de convocação do Ano Jubilar, Spes non confundit. Para «que o Jubileu seja, na Igreja, ocasião para um impulso a favor» dos jovens (n.º 12), destina-se parte da renúncia ao Centro «Tsarazaza», uma instituição que acolhe crianças órfãs e outras originárias de famílias muito pobres na diocese de Mananjary-Madagáscar, cujo Bispo é D. Alfredo Caires.
E como podemos não responder ao desafio do Santo Padre de «olhar para o futuro com esperança [que] equivale a ter uma visão da vida carregada de entusiasmo para transmitir» (n.º 9)? Assim, outra parte da renúncia será destinada à Associação Apoio à Vida.
Depois, o pensamento do Papa para os presos que, «privados de liberdade, além da dureza da reclusão, experimentam dia a dia o vazio afetivo, as restrições impostas e, em não poucos casos, a falta de respeito», em vista de percorrerem «percursos de reinserção na comunidade» (n.º 10), leva-nos a dedicar outra parte da renúncia à Associação O Companheiro, uma Instituição Particular de Solidariedade Social, sem fins lucrativos e de utilidade pública, que promove a reintegração na sociedade e previne a reincidência criminal de reclusos.
Invoco sobre cada um de vós a bênção de Deus e faço votos de uma Santa Quaresma!
Lisboa, 5 de março de 2025.
† RUI, Patriarca de Lisboa
Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2025
Caminhemos juntos na Esperança
Queridos irmãos e irmãs!
Com o sinal penitencial das cinzas sobre as nossas cabeças, iniciamos na fé e na esperança a peregrinação anual da Santa Quaresma. A Igreja, mãe e mestra, convida-nos a preparar os nossos corações e a abrir-nos à graça de Deus para podermos celebrar com grande alegria o triunfo pascal de Cristo, o Senhor, sobre o pecado e a morte, como exclamava São Paulo: «A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?» (1Cor 15, 54-55). Realmente, Jesus Cristo, morto e ressuscitado, é o centro da nossa fé e a garantia da nossa esperança na grande promessa do Pai, já realizada n’Ele, Seu Filho amado: a vida eterna (cf. Jo 10,28; 17,3) [1].
Nesta Quaresma, enriquecida pela graça do Ano Jubilar, gostaria de oferecer algumas reflexões sobre o que significa caminhar juntos na esperança e evidenciar os apelos à conversão que a misericórdia de Deus dirige a todos nós, enquanto indivíduos e comunidades.
Antes de tudo, caminhar. O lema do Jubileu – “Peregrinos de Esperança” – traz à mente a longa travessia do povo de Israel em direção à Terra Prometida, narrada no livro do Êxodo: a difícil passagem da escravidão para a liberdade, desejada e guiada pelo Senhor, que ama o seu povo e sempre lhe é fiel. E não podemos recordar o êxodo bíblico sem pensar em tantos irmãos e irmãs que, hoje, fogem de situações de miséria e violência e vão à procura de uma vida melhor para si e para seus entes queridos. Aqui, surge um primeiro apelo à conversão, porque todos nós somos peregrinos na vida, mas cada um pode perguntar-se: como me deixo interpelar por esta condição? Estou realmente a caminho ou estou paralisado, estático, com medo e sem esperança, acomodado na minha zona de conforto? Busco caminhos de libertação das situações de pecado e falta de dignidade? Seria um bom exercício quaresmal confrontar-nos com a realidade concreta de algum migrante ou peregrino e deixar que ela nos interpele, a fim de descobrir o que Deus pede de nós para sermos melhores viajantes rumo à casa do Pai. Esse é um bom “exame” para o viandante.
Em segundo lugar, façamos esta viagem juntos. Caminhar juntos, ser sinodal, é esta a vocação da Igreja [2]. Os cristãos são chamados a percorrer o caminho em conjunto, jamais como viajantes solitários. O Espírito Santo impele-nos a sair de nós mesmos para ir ao encontro de Deus e dos nossos irmãos, e nunca a fechar-nos em nós mesmos [3]. Caminhar juntos significa ser tecelões de unidade, partindo da nossa dignidade comum de filhos de Deus (cf. Gl 3, 26-28); significa caminhar lado a lado, sem pisar ou subjugar o outro, sem alimentar invejas ou hipocrisias, sem deixar que ninguém fique para trás ou se sinta excluído. Sigamos na mesma direção, rumo a uma única meta, ouvindo-nos uns aos outros com amor e paciência.
Nesta Quaresma, Deus pede-nos que verifiquemos se nas nossas vidas e famílias, nos locais onde trabalhamos, nas comunidades paroquiais ou religiosas, somos capazes de caminhar com os outros, de ouvir, de vencer a tentação de nos entrincheirarmos na nossa autorreferencialidade e de olharmos apenas para as nossas próprias necessidades. Perguntemo-nos diante do Senhor se somos capazes de trabalhar juntos ao serviço do Reino de Deus, como bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e leigos; se, com gestos concretos, temos uma atitude acolhedora em relação àqueles que se aproximam de nós e a quantos se encontram distantes; se fazemos com que as pessoas se sintam parte da comunidade ou se as mantemos à margem [4]. Este é o segundo apelo: a conversão à sinodalidade.
Em terceiro lugar, façamos este caminho juntos na esperança de uma promessa. A esperança que não engana (cf. Rm 5,5), mensagem central do Jubileu [5], seja para nós o horizonte do caminho quaresmal rumo à vitória pascal. Como o Papa Bento XVI nos ensinou na Encíclica Spe salvi, «o ser humano necessita do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o faz exclamar: “Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38-39)» [6]. Jesus, nosso amor e nossa esperança, ressuscitou [7] e, vivo, reina glorioso. A morte foi transformada em vitória e aqui reside a fé e a grande esperança dos cristãos: na ressurreição de Cristo!
Eis o terceiro apelo à conversão: o da esperança, da confiança em Deus e na sua grande promessa, a vida eterna. Devemos perguntar-nos: estou convicto de que Deus me perdoa os pecados? Ou comporto-me como se me pudesse salvar sozinho? Aspiro à salvação e peço a ajuda de Deus para a receber? Vivo concretamente a esperança que me ajuda a ler os acontecimentos da história e me impele a um compromisso com a justiça, a fraternidade, o cuidado da casa comum, garantindo que ninguém seja deixado para trás?
Irmãs e irmãos, graças ao amor de Deus em Jesus Cristo, somos conservados na esperança que não engana (cf. Rm 5,5). A esperança é “a âncora da alma”, inabalável e segura [8]. Nela, a Igreja reza para que «todos os homens sejam salvos» (1Tm 2,4) e ela própria anseia estar na glória do céu, unida a Cristo, seu esposo. Santa Teresa de Jesus expressou isso da seguinte forma: «Espera, espera, que não sabes quando virá o dia nem a hora. Vela com cuidado, que tudo passa com brevidade, embora o teu desejo faça o certo duvidoso e longo o tempo breve» (Exclamações, XV, 3) [9].
Que a Virgem Maria, Mãe da Esperança, interceda por nós e nos acompanhe no caminho quaresmal.
Roma, 6 de fevereiro de 2025.
Papa FRANCISCO
[1] Cf. Dilexit nos, 220.
[2] Cf. Homilia na Missa de canonização dos Beatos João Batista Scalabrini e Artemide Zatti, 9-10-2022.
[3] Cf. Ibid.
[4] Cf. Ibid.
[5] Cf. Spes non confundit, 1.
[6] Spe salvi, 26.
[7] Cf. Sequência do Domingo de Páscoa.
[8] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1820.
[9] Ibid., 1821.








