PARÓQUIA S. MIGUEL DE QUEIJAS

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catequese

Pátio dos Gentios nasceu para derrubar muros

«Pátio dos Gentios» nasceu para derrubar muros

Inaugurado em Paris, o encontro internacional do «Pátio dos Gentios», nova estrutura para o diálogo com não crentes, afirmando que este pretende ser um “espaço aberto”.

Na abertura dos trabalhos, que decorreram na tarde desta quinta feira na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), o cardeal Gianfranco Ravasi destacou que esta iniciativa quer “derrubar” muros.

A Igreja Católica, disse o prravasiesidente do Conselho Pontifício da Cultura, quer convidar os não crentes a “iniciar uma viagem” conjunta, em busca da “verdade”, do “sentido da existência” e da “comunhão”.

O nome «Pátio dos Gentios» evoca o espaço homónimo que, no antigo Templo de Jerusalém, hospedava os não judeus.

Juntando diplomatas, escritores, pensadores e representantes do mundo da cultura, a conferência inaugural deixou vários apelos ao diálogo, como o da directora geral da UNESCO, Irina Bokova, em videomensagem.

O filósofo católica Fabrice Hadjadj, falou sobre o homem que se “espanta por existir” e precisa, por isso de um “céu, uma esperança, uma razão”.

Trata-se, disse, de colocar a questão do homem e reconhecer que o que faz a sua especificidade não é ser um superanimal”, mas recolhe todas as criaturas, “pela sua oração, pela sua poesia” e as encaminha “rumo a uma fonte misteriosa”.

Aziza Bennani, embaixadora de Marrocos na UNESCO, destacou a importância de “alargar o diálogo inter-religioso e assim ultrapassar o separatismo”. Esta responsável apelou a um diálogo mais concentrado sobre as “convergências” entre crentes e não crentes, “para promover uma cultura da paz, uma paz duradoura”.

O ex-primeiro-ministro italiano Giuliano Amato falou, por seu lado, das dificuldades que se colocam no diálogo intercultural e convidou a uma “aliança entre crentes e não crentes” para dar “sentido” à liberdade e à democracia.

Jean Vanier, fundador da comunidade de «L'Arche», que trabalha com pessoas portadoras de deficiências, falou na necessidade de “reconhecimento”, de haver quem olhe o outro como “um ser humano”. “A diferença não é uma ameaça, mas um tesouro”, precisou.

Francesco Follo, observador da Santa Sé na UNESCO, encerrou os trabalhos desta primeira conferência, sublinhando que o caminho da reflexão continua “aberto” e que qualquer monólogo é “patológico”.

Na manhã desta sexta-feira, os trabalhos tiveram lugar na Universidade de Sorbonne e, à tarde, na Academia de França. Depois dos colóquios, decorre uma mesa-redonda no Colégio dos Bernardinos, edifício histórico, do século XIII.

A iniciativa inclui ainda uma festa especialmente pensada para os mais jovens, tendo como tema «No pátio do Desconhecido», na catedral Notre Dame de Paris, no dia 25 de Março, com música, espectáculos e um encontro de reflexão, seguindo-se uma vigília de oração e uma meditação. Durante este último momento, haverá uma ligação em directo ao Vaticano para que o Papa se dirija a todos os presentes sobre o “significado e os objectivos” desta iniciativa.

Depois de Paris, as iniciativas do «Pátio dos Gentios» vão passar por Florença (Itália), Tirana (Albânia), Estocolmo (Suécia), Berlim (Alemanha), Moscovo (Rússia), Quebeque (Canadá), Praga (República Checa), Chicago e Washington (EUA).

Rádio Vaticano, 25 de Março de 2011

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Criado o Pátio dos Gentios

Criado o “Pátio dos Gentios” Ravasi1

Cidade do Vaticano, 07-02-2011 – Há pouco mais de um ano, no dia 21 de Dezembro de 2009, o Papa Bento XVI expressou o desejo de que a Igreja abrisse uma espécie de “Pátio dos Gentios”, um lugar – disse então o Santo Padre – “no qual os homens possam, de alguma forma, entrar em contacto com Deus, sem conhecê-lo e antes de terem encontrado o acesso ao seu mistério”. Estas palavras inspiraram a criação, no âmbito do Pontifício Conselho para a Cultura de uma nova estrutura permanente destinada a incentivar o intercâmbio e o encontro entre crentes e não-crentes.

O “Pátio dos Gentios”, nome que evoca o espaço do Templo de Jerusalém aberto também aos não-crentes, será oficialmente lançado em Paris nos dias 24 e 25 de Março, mas a apresentação terá um preâmbulo italiano em Bolonha, no próximo dia 12 de Fevereiro. O Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, Cardeal Gianfranco Ravasi, comunicou os detalhes do projecto em uma nota de 25 de Janeiro na qual explica que o "Pátio dos Gentios" é "uma nova estrutura permanente do Vaticano para promover o diálogo e o encontro entre crentes e não-crentes".

Para a inauguração foi programada uma série de eventos para os dois dias entre os quais se encontram algumas exposições sobre o tema “religião, iluminação e razão comum” que serão apresentadas na sede da UNESCO, na Universidade de Sorbone e no Institut de France.

Para o dia 25 de Mpatio_gentios1arço está prevista uma mesa redonda no Colégio dos Bernardinos, o lugar onde o Papa Bento XVI se dirigiu aos representantes do mundo da cultura em sua viagem a França em 2008. No mesmo dia haverá uma “festa aberta a todos, particularmente aos jovens, com o tema 'o Átrio do desconhecido' que se realizará nas proximidades da Catedral de Notre Dame” com espectáculos artísticos e música, entre outros. Após os espectáculos a Catedral estará aberta para quem quiser participar de uma vigília de oração e de meditação.

Verbonet

Catequeses Quaresmais 2011

PolicarpoO Seminário dos Olivais, em parceria com o jornal Voz da Verdade, está a transmitir em directo - via internet -, as Catequeses Quaresmais proferidas por D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa.

Em exemplo de anos anteriores, estas Catequeses estão a ser realizadas na Sé Patriarcal de Lisboa, aos Domingos - pelas 18h00, seguidas da oração de Vésperas. Podem ser acompanhadas online através da página electrónica da Voz da Verdade (www.jornalw.org), bem como do site do próprio Seminário dos Olivais.


 “A Igreja é o Povo do Senhor”

Catequese do 1.º Domingo da Quaresma
Introdução

1. As minhas Catequeses durante a Quaresma deste ano, tratarão temas que enquadram a renovação da missão evangelizadora da Igreja, a sua fidelidade ao envio do Senhor. A renovação da missão evangelizadora, que o Papa João Paulo II designou por “Nova Evangelização”, só acontecerá se a Igreja e cada cristão viverem profundamente o seu mistério, acolhendo a Palavra de Deus com fé e deixando-se atrair pelo amor, que é a caridade. Para evangelizar, a Igreja precisa de acreditar na Mensagem e precisa de amar a Deus em Jesus Cristo, de modo a sentir que evangelizar é uma fidelidade de amor. “Ai de mim se não evangelizar”, exclamava o Apóstolo Paulo.

Assim, temos de perscrutar o desígnio de Deus acerca da humanidade, e o infinito amor de Jesus Cristo por todos os homens. Foi por isso que escolhi, como primeiro tema, aquele onde estão impressos esse desígnio eterno de Deus e a paixão amorosa de Jesus Cristo pelos homens. Deus quis formar para Si um Povo com o qual exercite, já neste mundo, a comunhão amorosa entre pessoas, pois criou o homem à sua imagem, Ele que é comunhão de pessoas distintas, unidas no amor. A Igreja é este Povo que o Senhor escolheu.

Porquê um Povo?

2. Na mentalidade contemporânea, a compreensão da pessoa humana, a busca da felicidade como plenitude de vida, estão marcadas pela perspectiva do indivíduo, desenvolvida no pensamento filosófico dos últimos séculos, o que levou à perda do sentido do colectivo como unidade, como verdadeiro sujeito inter-agindo com os sujeitos individuais. A sociedade, a Igreja, a família ou outras expressões de comunidade não são somatórios de indivíduos, mas são uma realidade nova, com uma identidade própria, que não anulam o indivíduo, mas o enquadram na sua realização pessoal, que nunca é separável da realização do “eu colectivo”. No desígnio de Deus, nenhuma pessoa humana é apenas um “eu”, é necessariamente um “nós”. Este desígnio de Deus está impresso no próprio acto criador. Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, porque Ele, sendo várias pessoas individuais, iguais e distintas, é “um só”, fruto do amor dessas pessoas. Este dinamismo divino, de vários a constituírem um só, Deus exprimiu-o, antes de mais, na criação do homem e da mulher: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus Ele o criou, homem e mulher os criou” (Gn 1,27).

Na linguagem bíblica, em toda a Sagrada Escritura, o primeiro interlocutor de Deus é sempre o “eu colectivo”, a família humana, o Povo escolhido, a família que é a união, num só, do homem e da mulher. É a esse “eu colectivo” que Deus fala e Se revela, com ele faz aliança, estabelece intimidade, tornando-se próximo e vivendo com ele, e o conduz à Terra Prometida. Esse é o Povo que o Senhor escolheu, e envia a atrair todos os homens para que um dia toda a família humana seja o Povo do Senhor.

A Igreja, Povo do Senhor, é que foi enviada a evangelizar. Se considerarmos a missão de evangelizar apenas como uma obrigação pessoal, não poderemos perceber o dinamismo da nova evangelização. Foi a Igreja, novo Povo do Senhor, que Ele enviou a anunciar o Evangelho como boa-nova da salvação. Tudo o que cada um de nós possa fazer, deve fazê-lo em Igreja, ouvindo a Igreja, amando como a Igreja ama, contribuindo para que ela seja fiel ao mandato que recebeu do Senhor.

Da promessa à realização histórica

3. A primeira manifestação de que é desígnio de Deus formar, para Si, um Povo, está expressa na promessa feita a Abraão. A revelação deste desígnio, sob a forma de promessa, revela já que se trata de um desígnio de amor mútuo entre Deus e o seu Povo. A promessa é uma das palavras chave de uma linguagem do amor. Quem ama faz promessas à pessoa amada. Elas brotam da abundância do seu coração, da força e poder para as cumprir. A promessa faz parte da atracção do amor. Aquele a quem é prometido, acredita na promessa, confia e põe-se a caminho com um sentido novo.

A promessa é feita a Abraão, homem crente e temente a Deus. Deus convida-o a começar de novo, a abandonar o seu país e a vida concreta que leva, porque, promete-lhe Deus, “farei de ti um grande Povo”. A promessa exprime-se sob a forma de bênção, o que indica que ela pode ser aceite com a força de Deus. “Abençoarei aqueles que te abençoarem [...] em ti serão abençoadas todas as nações da terra” (cf. Gn 12,1-3). Abraão, o amigo de Deus, participa, assim, da solicitude de Deus por todos os povos da terra. Esta universalidade da promessa está expressa também quando Deus promete a Abraão que a sua descendência, esse Povo que o Senhor deseja, será tão numeroso como as estrelas do Céu. A reacção de Abraão é a atitude protótipa que Deus espera do seu Povo: “Abraão acreditou em Deus, que teve em conta esta atitude de Abraão como justiça” (cf. Gn 15,6), isto é, de santidade. Acreditou em Deus e pôs-se a caminho: “Abraão partiu como Deus lhe tinha dito” (cf. Gn 12,4).

É esta descendência de Abraão que dá origem à primeira concretização histórica do Povo de Deus. Emigrado para o Egipto, nos tempos de glória, mas sobretudo na experiência da opressão, esse Povo vai aprendendo a confiar na promessa feita aos seus antepassados, encontrando só nela a esperança da libertação. O Deus de Israel apresentar-se-á sempre como o Deus da promessa: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob” (Ex 3,6). É este cartão de visita com que Deus se apresenta a Moisés e lhe revela que está perante o Deus vivo.

Ao longo da História, Deus será para o seu Povo, o Deus da promessa, sobretudo o Deus que cumpre a promessa. Ela vai-se realizando, antes de mais, sob a forma da sua renovação. Deus é fiel à promessa, prometendo de novo e prometendo mais: promete a libertação do Egipto, promete uma terra “onde corre leite e mel”, promete um Rei justo e definitivo que será o Messias, o ungido do Senhor. O próprio Jesus que é a máxima realização das promessas de Deus, também promete: ressuscitar dos mortos, enviar o Espírito Santo, ficar com o seu Povo até ao fim dos tempos, regressar um dia, na sua Glória, para inaugurar a humanidade definitiva, recriada porque resgatada. O nosso Deus nunca é o Deus do definitivamente feito, é sempre o Deus da promessa. E perante a sua Palavra, continua a esperar de nós a atitude de Abraão: acreditar, confiar, pôr-se a caminho. Este é o dinamismo da nova evangelização.

Do Povo de Israel à Igreja

4. Na vocação de Moisés está claro que Deus considera aqueles descendentes de Abraão, hoje escravos no Egipto, o seu Povo, concretização da promessa feita a Abraão. Lembrou-se da promessa e comoveu-se. “Deus ouviu os seus gemidos e lembrou-se da sua Aliança com Abraão, Isaac e Jacob” (Ex 2,24). No sofrimento e na aventura da sua caminhada na história, Israel será o Povo predilecto de Deus. É isso que Moisés lhes comunica em nome do Senhor: “Tu és um povo consagrado ao Senhor, teu Deus. Na verdade, o Senhor, teu Deus, escolheu-te para seres para Ele um povo particular entre todos os povos que há sobre a face da terra” (Dt 7,6).

Esta convicção de que Israel é o Povo escolhido e amado por Deus, atravessa toda a história da salvação até aos nossos dias. O Concílio Vaticano II afirmou: “Agradou a Deus que os homens não recebessem a santificação e a salvação separadamente, fora de qualquer laço comunitário; ao contrário quis formar um Povo que o conheceria na verdade e o serviria na santidade. Foi por isso que escolheu o Povo de Israel, para ser o seu Povo” (LG 9).

Não admira, pois, que seja no seio deste Povo que nasce Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, o Messias prometido. Ele é a realização plena da promessa e a manifestação definitiva da fidelidade de Deus. Na sua ressurreição, inaugurou o homem novo, com a vitória definitiva sobre o individualismo. A unidade do “eu colectivo”, entre os diversos membros de um mesmo Povo, radicalizou-se em Jesus Cristo. Pela fé e pelo baptismo, os discípulos unem-se a Jesus Cristo, são um só com Ele, são o novo Povo de Deus. Com essa nova unidade em Cristo, os cristãos são, antes de mais, um Povo, uma comunhão, eles são o novo Povo, o Povo do Senhor. Eles são, no dizer do Apóstolo Pedro, “uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, um Povo que Deus adquiriu para Si, os que outrora não eram um Povo, são agora o Povo de Deus” (1Pe 2,9-10).

A união entre Deus e o seu Povo

5. Em toda a Sagrada Escritura, a união entre Deus e o seu Povo é vista como umas núpcias: Deus é o esposo do seu Povo. E não se trata apenas de uma comparação, a partir da realidade humana das núpcias, para sugerir alguma compreensão sobre esta união misteriosa e privilegiada entre Deus e um Povo que escolheu. É exactamente o contrário. São as núpcias humanas que encontram a sua verdade na realidade misteriosa de Deus, Ele que sendo vários, é um só no amor. Já vimos que Deus ao criar o homem e a mulher, os criou à Sua imagem, permitindo-lhe que sem deixarem de ser diferentes, sejam um só no amor. “E serão dois uma só carne”. O Verbo encarnado, que desde toda a eternidade é um só com o Pai e o Espírito Santo, na sua humanidade ressuscitada, unindo a Si aqueles que acreditam n’Ele, é um só com todos eles, todos os membros da Igreja, que sem deixarem de ser muitos e diferentes, são um só com ele, são verdadeiramente uma só carne, expressa no corpo eucarístico de Cristo. A Carta aos Efésios é clara a este respeito, ao falar do mistério das núpcias cristãs: “Ninguém de facto, odiou jamais a própria carne, antes a nutre e acalenta, como Cristo à Igreja, pois nós somos membros do seu corpo. Por isso o homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à mulher e passarão os dois a ser uma só carne. É grande este mistério; mas digo-o relativamente a Cristo e à Igreja” (Ef 5,29-32).

As expressões da união de Deus com o Seu Povo

6. A Aliança. É o pacto de amor e fidelidade para sempre, celebrado entre os esposos. Desde a antiguidade inspirou os pactos entre povos e nações, em ordem à convivência e à paz, pactos esses que eram ratificados com o próprio sangue. Sem negar a influência que estes pactos entre reis e povos tiveram na compreensão vetero-testamentária da Aliança de Deus com o Povo de Israel, o seu verdadeiro modelo inspirador é a aliança nupcial. Perante a dificuldade de Israel se comportar como a “esposa fiel”, Deus renova continuamente a sua Aliança, até à última e definitiva, ratificada com o sangue de Cristo. Ao dar o seu corpo a comer e o seu sangue a beber, declara: “Isto é o Meu sangue, sangue de Aliança, que vai ser derramado por uma multidão em remissão dos pecados” (Mt 26,28). Esta Aliança, ratificada no sangue de Cristo, é nova e definitiva, porque Cristo exerce na Aliança o papel do “esposo” (de Deus) e da esposa (a Igreja). Ele exprime a fidelidade radical de Deus, no seu amor infinito pelos homens. A primeira Aliança falhou, porque a “esposa” (o Povo de Deus) foi infiel. Nesta nova Aliança, a “esposa” (a Igreja) será fiel, porque Cristo Homem, membro desse Povo, é sempre fiel. Mesmo quando os cristãos são infiéis, a Igreja será sempre fiel em Jesus Cristo.

7. A revelação da própria intimidade. Numa aliança nupcial os contraentes estão dispostos a revelar-se, a abrir e partilhar a sua intimidade. Deus fez isso de modo maravilhoso, revelando-se, partilhando com os membros do Povo, pela sua Palavra, a sua própria intimidade, o seu próprio ser, os segredos do seu coração, os desejos acerca do Povo. Em Cristo, essa abertura de Deus é total. Quem o ouve, ouve Deus. A Igreja tem de escutar o Senhor e abrir-lhe o seu coração, deixando-se envolver pelo seu amor e confiar na sua misericórdia.

Desta partilha de intimidade faz parte o desejo de proximidade, de viver em comunhão. Qual é o Povo que pode ufanar-se de ter Deus tão próximo de si como nós? “Vós sois o meu Povo e Eu sou o vosso Deus”. Esta é a disposição de Cristo em relação à Igreja: “Eu ficarei convosco até ao fim” (Mt 28,20); “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome Eu estarei no meio deles” (Mt 18,20). A Igreja deve cultivar esta intimidade de convivência. Quando cada um de nós se deixa envolver por essa intimidade com Cristo, que não viva isso só individualmente, mas saiba que está a exprimir a Cristo “esposo” o amor de toda a Igreja, sua “esposa”. E como a Sagrada Escritura no-lo exprime continuamente, o amor da esposa dá prioridade à ternura, à ousadia do amor, que não é catalogável em código de atitudes, mas irrompe de forma ousada ao sabor das circunstâncias. Nessa explosão de amor a Igreja percebe que o amor de Deus, esposo, é um amor de misericórdia.

A Igreja é enviada com amor

8. Uma das manifestações da intimidade amorosa entre Cristo e a Igreja é o facto de Ele a associar à sua missão: anunciar a boa-nova da salvação, comunicar a sua Palavra, amar como Ele ama. A Igreja é enviada com amor. É por isso que ela, ao anunciar o Evangelho, a sua primeira palavra é sempre para falar d’Ele, do amor que nos une. Evangelizar é uma fidelidade de amor. Ao enviá-la, Cristo manifestou o Seu amor pelos homens. “Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16,15). A Igreja não se limita a anunciar. Ela é anúncio e este é o pregão da alegria que sentimos em ser o Povo do Senhor.

Neste ano em que celebro o meu jubileu sacerdotal, quero manifestar essa alegria de ter procurado viver toda uma vida, amando este Povo como o Senhor o ama, servir a Igreja, Povo do Senhor, tornando-a cada vez mais a esposa adornada com a beleza da salvação, para que seja, cada vez mais, a alegria do seu esposo.

 Sé Patriarcal, 13 de Março de 2011
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


“Escutar a Palavra do Senhor”

Catequese do 2.º Domingo da Quaresma

Sé Patriarcal, 20 de Março de 2011

Introdução

1. Na primeira Catequese vimos que Deus, ao escolher para Si um Povo, quis ser um Deus amigo, íntimo, a viver com esse Povo. Uma expressão desse desejo de proximidade e de relação, é a Revelação. Revelar-se é dar a outro acesso a uma intimidade pessoal que de outro modo não seria conhecida. Ao revelar-se, Deus deseja ser conhecido, tanto quanto o pode ser, por criaturas pecadoras. Abre os segredos do seu Ser íntimo, do seu desígnio acerca do homem que criou. Deus revela-se e o próprio facto de o fazer é uma manifestação de amor.

A principal expressão desta revelação é a sua Palavra: Deus fala ao seu Povo. A Exortação Apostólica Post-Sinodal “Verbum Domini”, afirma logo no início: “A novidade da revelação bíblica consiste no facto de Deus se dar a conhecer no diálogo que deseja ter connosco” (VD 6). Um Deus que se exprime no diálogo é um Deus comunhão. Deus está com os homens na verdade do seu próprio mistério íntimo: Ele é comunhão de Pessoas. E a Palavra que dirige ao seu Povo, em linguagem humana, é a Encarnação da Palavra eterna de Deus, o Logos. Sempre que nos fala, convida-nos a entrar na sua intimidade, na comunhão das pessoas divinas. A nossa caminhada neste mistério é tornarmo-nos capazes de, ao escutar as palavras dos Profetas, dos Evangelistas ou da Igreja, escutarmos o próprio Logos eterno de Deus, que se nos tornou acessível em Jesus Cristo. São João resume assim toda a aventura da Palavra, na Igreja: “E o Verbo faz-se carne e habitou entre nós, e nós vimos a sua Glória, glória que recebe de seu Pai, como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Depois da Encarnação da Palavra eterna, em Jesus Cristo, ouvir Deus é sempre ouvir o seu Filho, escutar Deus é sempre escutar Jesus Cristo. É por isso que a primeira resposta que Deus espera do seu Povo, é que O escute, que acolha a sua Palavra. Antes de anunciar é preciso escutar.

Uma Palavra actual

2. A Exortação Apostólica diz-nos, logo no início, que a Bíblia não é uma Palavra do passado, mas uma Palavra viva e actual (VD 5). Esta preocupação vem ao encontro de uma dificuldade real dos cristãos de hoje frente à Palavra de Deus. Qual é a perspectiva: Deus falou no passado e nós tentamos compreender o que disse e tirar daí ensinamentos? Ou Deus fala hoje, continua a interpelar-nos e a surpreender-nos com a Palavra que nos dirige? “A fé cristã não é uma religião do Livro; o cristianismo é a religião da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo” (VD 7).

Se o cristianismo fosse só “uma religião do Livro”, o esforço da Igreja limitar-se-ia a analisar o texto para ver o que Deus disse ao seu Povo, nas diversas etapas da sua história. Mas nós acreditamos que a Palavra de Deus é actual, Ele continua a ser um Deus em diálogo com o seu Povo, a conduzi-lo pela sua Palavra em cada momento e circunstância da história. Se acreditamos que Deus continua a falar-nos, a atitude da Igreja tem de ser outra: a da escuta, coração aberto para escutar agora o que Deus diz à Igreja, que é o seu Povo.

Como é que Deus nos fala hoje

3. Para bem escutarmos a Palavra do Senhor, temos de ter uma consciência clara dos modos como Deus fala hoje ao seu Povo e a cada um de nós.

Ele fala-nos pelo seu Filho Jesus Cristo. Palavra eterna de Deus fez-se Homem e ficou connosco. N’Ele, Deus diz-nos tudo e sempre o que tem para nos dizer. Na encarnação do Verbo “a Palavra não se exprime primariamente num discurso, em conceitos ou regras; mas vemo-nos colocados diante da própria Pessoa de Jesus. A sua história, única e singular, é a Palavra definitiva que Deus diz à humanidade. Daqui se compreende por que motivo, no início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte” (VD 11).

Na escuta amorosa da Palavra que Deus dirige hoje ao seu Povo, é essencial a relação com a Pessoa de Jesus nas suas diversas expressões: a adoração, a celebração da Eucaristia, as suas palavras que nos foram transmitidas pelos Evangelhos. Só na relação com Jesus Cristo se escuta a Palavra do Pai. Cristo é, para todos os tempos, a Palavra do Pai.

Desde que esteja garantida esta relação de fé e de amor com a Pessoa de Jesus, a Igreja pode escutar a Palavra de Deus através de outros meios e caminhos. No Sínodo “falou-se justamente de uma sinfonia da Palavra, de uma Palavra única que se exprime de diversos modos, um canto a várias vozes” (VD 7). A unidade desta sinfonia é a Pessoa de Jesus, Palavra eterna de Deus, a Quem devo escutar numa relação de fé e de amor”. A própria expressão Palavra de Deus indica a Pessoa de Jesus Cristo, Filho eterno do Pai que se fez Homem” (VD 7).

Nesta sintonia de vozes, através das quais Deus nos fala por Jesus Cristo, avulta a Sagrada Escritura que se tornou linguagem de Jesus Cristo. Só n’Ele e por Ele a Escritura se torna Palavra de Deus hoje. Santo Ambrósio afirmava que “o Corpo do Filho é a Escritura que nos foi transmitida”. “Deus através de todas as palavras da Escritura diz só uma Palavra, o seu único Verbo em que se diz inteiramente a Si Mesmo”. E Santo Agostinho afirmava: “lembrai-vos de que o discurso de Deus que se desenvolve em todas as Escrituras é um só, e um só é o Verbo, que se faz ouvir na boca de todos os escritores sagrados” (VD 17).

Outras vozes que nos podem ajudar, hoje, a ouvir o que Deus nos diz em Jesus Cristo, são a maneira como em todos os tempos a Igreja escutou o Senhor, lendo as Escrituras. É a fé da Igreja, conduzida pelo Espírito, em todos os tempos, na escuta da Palavra de Deus. A Exortação Apostólica afirma-o claramente: “Em última análise é a Tradição viva da Igreja que nos faz compreender adequadamente a Sagrada Escritura como Palavra de Deus” (VD 17).

E, finalmente, podemos escutar o que Deus nos diz hoje em Jesus Cristo, contemplando a Criação, se acreditarmos que, por Ele, foram feitas todas as coisas (cf. Jo 1,3), que Ele é o primogénito de toda a criação (cf. Col. 1,15) e que todas as coisas foram criadas por meio d’Ele e em vista d’Ele (cf. Col. 1,16). É possível escutar o Criador, observando as criaturas. Aí a sinfonia alarga-se à imensa beleza da variedade das criaturas. Como afirmava São Boaventura “toda a criatura é Palavra de Deus porque proclama Deus” (VD 8).

Dialogar com Deus com as próprias Palavras de Deus

4. Escutar, hoje, a Palavra de Deus é aceitar entrar no diálogo para que Ele nos convida e atrai e, portanto, mergulhar na experiência da comunhão que se exprime, em Igreja, na relação com Jesus Cristo.

Entrar neste diálogo está acima das nossas forças humanas. Só o Senhor pode pôr nos nossos lábios e no nosso coração as palavras que havemos de responder à Palavra do Senhor. A nossa palavra com que respondemos à Palavra de Deus é um dom do próprio Deus, suscitada em nós pelo Espírito Santo. Se tentarmos responder a Deus só com as nossas palavras humanas, nunca entraremos verdadeiramente nesse diálogo, talvez nem cheguemos a escutar a voz do Senhor.

Voltamos à importância da Sagrada Escritura. Através dela, Deus não só nos fala hoje pelo seu Filho Jesus Cristo, mas põe na nossa boca as palavras com que devemos responder à Palavra viva de Deus, porque a Sagrada Escritura tantas vezes sugere a resposta que Deus deseja. Cristo não é apenas a Palavra definitiva mas é a resposta perfeita à Palavra eterna do Pai. No seguimento de Jesus Cristo aprendemos a responder a Deus. Se aprendermos a encontrar na Sagrada Escritura as nossas respostas à Palavra que Deus nos dirige, interiorizamos a nossa aceitação dos textos sagrados como Palavra de Deus, espontaneamente repetimo-los e memorizamo-los, de modo a transformarem-se espontaneamente na nossa resposta a Deus que nos fala. A Sagrada Escritura é como uma língua que se aprende e se torna parte de nós, da nossa compreensão e da nossa expressão.

Escutamos e respondemos à Palavra de Deus, movidos pelo Espírito Santo. Participamos mais uma vez, no dinamismo trinitário de comunhão das Pessoas Divinas. O facto de Deus Pai nos falar, através do seu Filho, o seu Verbo, acontece no Espírito de amor que brota da relação do Pai e do Filho. Sempre que nos fala, pelo seu Filho, Deus comunica-nos o seu Espírito e só Ele nos permite escutar e responder. “A Palavra de Deus exprime-se em palavras humanas, graças à obra do Espírito Santo. A missão do Filho e do Espírito Santo são inseparáveis e constituem uma única economia da salvação” (VD 15). O Evangelista São João sublinha esta acção do Espírito Santo na escuta da Palavra. É Ele que ensinará os discípulos, recordando-lhes tudo o que o Senhor disse; é Ele que conduzirá os discípulos à plenitude da verdade (cf. Jo 14,26; 16,13).

Escutar a Palavra em Igreja

5. A Igreja, Povo do Senhor, é o verdadeiro interlocutor de Deus. É ao seu Povo que o Senhor fala e se revela; é dele que espera uma resposta, é a Igreja que é enviada a anunciar a Palavra, participando da própria missão do seu Senhor.

O equilíbrio entre a escuta pessoal da Palavra, e o acolhimento que da mesma Palavra faz a Igreja, é um equilíbrio difícil de conseguir. Depende, fundamentalmente, da inserção de cada cristão na comunhão da Igreja, o que o leva a rejeitar qualquer interpretação da Palavra que não coincida com a da Igreja. De facto, ao longo dos séculos, sempre que cristãos, individualmente ou em grupo, pretenderam escutar a Palavra sem estarem em comunhão com toda a Igreja, correram o risco de escutarem o que gostariam de ouvir e não o que Deus tem para lhes dizer.

A Exortação Apostólica recorda-nos que “a relação entre Cristo, Palavra do Pai e a Igreja [...] é uma relação vital, na qual cada fiel é, pessoalmente, convidado a entrar” (VD 51). A escuta da Palavra tem de ser cultivada simultaneamente com a vivência da Igreja como comunhão, com Jesus Cristo e por Ele, com a Santíssima Trindade. “A contemporaneidade de Cristo com o ser humano de cada época realiza-se no seu Corpo, que é a Igreja” (VD 51).

Ao longo dos séculos, apesar das dificuldades do tempo e da história, foi a Igreja, esse “nós” que é o Povo do Senhor, que escutou bem a Palavra do Senhor. “Mestra da escuta, a Esposa de Cristo repete, com fé, também hoje: falai, Senhor, que a vossa Igreja vos escuta” (VD 51).

A escuta da Palavra, por cada cristão, faz-se aderindo à maneira como a Igreja escuta a mesma Palavra, aprofunda-se rezando com a Igreja, transforma-se em missão, anunciando-a com a Igreja e em nome da Igreja. É preciso que em cada cristão que escuta a Palavra, seja a Igreja que a escuta.

Escuta da Palavra e Nova Evangelização

6. A renovação da evangelização tem o seu destino ligado ao modo como toda a Igreja e cada cristão escutam, hoje, a Palavra do Senhor. “A Igreja é uma comunidade que escuta e anuncia a Palavra do Senhor [...] só quem se coloca primeiro à escuta da Palavra é que pode depois tornar-se anunciador” (VD 51). É que a mensagem central da Palavra é a manifestação do infinito amor de Deus pelos homens, expresso em Cristo, de modo especial na sua oferta pascal. A evangelização é sempre o anúncio sincero e experimentado deste infinito amor de Deus. A Nova Evangelização precisa do ardor e da comoção de quem se sentiu tocado por essa Palavra que Deus nos diz hoje, sempre, em cada dia da nossa vida.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


 “A Fidelidade”

Catequese do 3.º Domingo da Quaresma

Sé Patriarcal, 27 de Março de 2011

 Introdução

1. A fidelidade é uma exigência e uma expressão da Aliança de Deus com o seu Povo, hoje na sua forma definitiva, na “nova Aliança” selada por Jesus Cristo com a sua Igreja, o seu Povo, o novo Povo de Deus. A fidelidade é um desafio constitutivo da vocação da Igreja. A Igreja ou procura ser fiel a Jesus Cristo ou nega-se a si mesma. O próprio facto de os membros da Igreja serem chamados “fiéis”, mostra, na consciência colectiva da Igreja, o carácter afirmativo deste desafio de fidelidade.

No Antigo Testamento a fidelidade é, antes de mais, um atributo de Deus, aliado à sua bondade paternal, ao seu amor misericordioso. Deus sabe que a fidelidade do seu Povo, com quem fez Aliança, só será conseguida ao longo do tempo e só será possível com a sua graça. A fidelidade perfeita que espera do seu Povo será participação da sua própria fidelidade. Deus deseja da parte do seu Povo uma fidelidade perfeita como a sua. A sua promessa exprime-se, então, na disposição de ajudar o Povo a chegar a essa fidelidade, sem a qual nem a Aliança, nem as promessas, serão cumpridas. Pela boca de Oseias, promete: “Desposar-te-ei para sempre, desposar-te-ei na justiça e no direito, na ternura e no amor; desposar-te-ei na fidelidade e tu conhecerás Yahwé” (Os 2,21-22).

Porque a fidelidade do Povo só é possível com a força de Deus, é preciso, na oração, pedir a Deus esse dom da fidelidade (cf. 1Re 8,56ss). Só se o Povo for fiel como Deus é fiel, poderá haver entre Deus e o seu Povo uma intimidade de conhecimento (cf. Os 4,2).

Esta perspectiva radicalizar-se-á em Cristo, o Servo fiel, que, através do dom do Espírito, conduz os que acreditam n’Ele a participarem da sua plenitude. N’Ele, a Igreja é já totalmente fiel.

Todo o Antigo testamento está repassado por este drama, que é desafio: a fidelidade de Deus, a infidelidade do Povo. Em Cristo, esse dilema é ultrapassado: os cristãos só não caminham para a fidelidade se não viverem a sua união a Cristo, o Fiel, que tem a força e o poder para nos ajudar a ser fiéis.

Nesta Catequese, meditaremos sobre as exigências espirituais e pastorais da fidelidade da Igreja, Povo do Senhor.

Fé e fidelidade

2. A fé é o alicerce da fidelidade. Sem uma fé viva, nem sequer há o desejo de chegar à fidelidade. Por outro lado, a nossa fé só é digna de Deus e de Jesus Cristo, se se exprimir na fidelidade. E esta supõe um aprofundamento contínuo e a vida vivida como resposta à Palavra de Deus.

A fé cristã não é uma qualquer fé religiosa. É a resposta do homem que escutou a Palavra de Deus. O seu contexto é a História da Salvação, e a revelação ao seu Povo escolhido. Como afirma a Exortação Apostólica Post-Sinodal Verbum Domini, “toda a história da salvação nos mostra progressivamente esta ligação íntima entre a Palavra de Deus e a fé que se realiza no encontro com Cristo” (VD 25).

Deus fala-nos e espera a nossa resposta, porque ao revelar-se, Ele quer inaugurar um diálogo connosco. Ele merece que lhe respondamos. Já São Paulo ensinava, assim, os cristãos de Roma: “A Deus que se revela é devida a obediência da fé” (Rm 16,26). São Paulo chama-lhe “obediência”, isto é, uma aceitação, sem reservas, com todo o nosso ser, de Deus e da sua Palavra. Isto equivale a dizer que a fé é já um acto de amor. Desde o primeiro momento, a fé e a caridade encontram-se. A fé é, antes de mais, um encontro com Deus, um reconhecimento de Deus e um abandono ao diálogo com Ele, numa comunhão de amor. E este Deus que reconhecemos na fé, é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus que falava com Moisés como um amigo fala com o seu amigo, é o Deus de Jesus Cristo. “Pela fé, o ser humano entrega-se, total e livremente, a Deus, oferecendo a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade e prestando voluntario assentimento à sua revelação. [...] A resposta própria do ser humano a Deus, que fala, é a fé” (VD 5).

A fé é, pois, a resposta humana devida ao Deus que fala. Ela é a expressão de uma escuta amorosa. A Deus só se pode responder com a vida, em todas as suas dimensões. A fé projecta o homem para o horizonte da vida, onde esta encontra o seu verdadeiro sentido. Ao acreditar, o homem não renuncia à vida, pelo contrário, aprende verdadeiramente a ser homem. Tem a alegria de descobrir o verdadeiro sentido da criação, também ela Palavra de Deus e toma consciência dos desvios cometidos na compreensão e na orientação da vida.

Ao responder a Deus, e a Palavra de Deus é sempre uma palavra de amor, o homem aceita uma Aliança com Deus; a sua resposta de fé é, na sua génese, um compromisso de fidelidade.

Pastoralmente, é preciso prestar atenção à especificidade da fé cristã: é uma fé que responde à Palavra de Deus no contexto da revelação de Deus na história de salvação? Sobretudo cultivar a fé como uma adesão pessoal a Jesus Cristo, como Palavra eterna de Deus, humanizada na encarnação do Verbo. Em Cristo tudo é Palavra, e não apenas as suas palavras. A fé cristã é uma resposta a Jesus Cristo, à sua Palavra, ao seu amor, à sua presença contínua no meio do seu Povo, que é a Igreja. A nossa fé como compromisso de Aliança, é-o com a última e perfeita Aliança, selada por Jesus Cristo no seu Sangue, derramado por nós. A nossa fidelidade é participação na sua fidelidade.

A fé da Igreja

3. Na oração eucarística o sacerdote reza: “não olheis aos nossos pecados, mas à fé da vossa Igreja”. O que é esta fé da Igreja? É diferente da fé de cada um de nós? Esta relação da fé pessoal com a fé da Igreja é aspecto essencial na compreensão e pedagogia da fé. A Exortação Apostólica afirma: “A ligação íntima entre a Palavra de Deus e a fé realiza-se no encontro com Cristo. De facto, com Ele, a fé toma a forma de encontro com uma Pessoa à qual se confia a própria vida. Cristo Jesus continua hoje presente na história pelo seu corpo que é a Igreja; por isso o acto da nossa fé é um acto simultaneamente pessoal e eclesial” (VD 5).

Já no Antigo Testamento há uma primazia do “nós” do Povo de Deus, sobre o “eu” de cada um. É ao Povo que Deus se revela, com ele celebra a Aliança, dele espera a resposta de fé e de fidelidade. A Igreja é o novo Povo do Senhor, ao ser identificada com o seu Senhor como “corpo de Cristo”, na Igreja, cruzam-se a Palavra e a resposta. Deus continua a falar-lhe em Jesus Cristo; continua a esperar a sua resposta de fé e de fidelidade. A Igreja é um Povo crente. Pela fé entra na comunhão com Deus. A fé de cada cristão é participação nessa comunhão, em Igreja.

Cada cristão deve fazer continuamente o discernimento para saber se a sua fé pessoal é a resposta que Deus espera e que é digna de Jesus Cristo. A fé pessoal, mesmo na variedade dos carismas, tem de ser a fé da Igreja.

Antes de mais, na interpretação da Sagrada Escritura como Palavra de Deus. Essa é a orientação que vem já no Novo Testamento, pela pena do Apóstolo Pedro: “Nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular, porque jamais uma profecia foi proferida pela vontade dos homens. Inspirados pelo Espírito Santo é que os homens santos falaram em nome de Deus” (2Pe 1,20-21). E a Exortação Apostólica conclui: “é a fé da Igreja que reconhece, na Bíblia, a Palavra de Deus; como admiravelmente diz Santo Agostinho, «não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja católica». O Espírito Santo, que anima a vida da Igreja, é que a torna capaz de interpretar autenticamente as Escrituras. A Bíblia é o livro da Igreja e, a partir da imanência dela na vida eclesial, brota também a sua verdadeira hermenêutica” (VD 29). A escuta da Palavra de Deus tem de ser feita em Igreja. Interpretações individuais que se afastem do sentir da Igreja, enfraquecem a fé pessoal chegando a adulterá-la gravemente.

Professar a fé da Igreja é a principal expressão da fidelidade cristã. Significa a “obediência da fé”, é sinal de comunhão com a Igreja de todos os tempos, que nas vicissitudes da história, através de dificuldades e sofrimentos, tantas vezes no testemunho do martírio, manteve intacta a mensagem de salvação, transmitida pelos Apóstolos de Jesus e seus sucessores. O conteúdo da fé apostólica é a principal expressão da identidade da Igreja ao longo do tempo. A essa corrente ininterrupta da mensagem, chamamos a Tradição, ponto de referência para a nossa fé tão importante como a palavra escrita da Sagrada Escritura.

Ser fiel à fé da Igreja significa igualmente a aceitação do Magistério, o ensinamento dos Apóstolos de Jesus e seus sucessores através dos tempos. Tanto a tradição como o Magistério são meios para nos encontrarmos com a verdade da salvação e nos encontrarmos com Jesus Cristo, que preside à Igreja em todos os tempos.

A fé e a caridade

4. Já vimos que a fé enquanto resposta da pessoa humana à Palavra de Deus é, em si mesma, uma expressão da caridade. Ao escutar a Palavra, sentimo-nos amados e respondemos com amor. Durante a nossa peregrinação terrena, as três virtudes teologais, a fé, a esperança e a caridade interpenetram-se. Já São Paulo o ensina aos Coríntios, no célebre hino à caridade: “A fé, a esperança e a caridade permanecem as três, mas a maior entre elas é a caridade” (1Cor. 13,13). A fé e a esperança são expressões da caridade, são a experiência do amor infinito de Deus em Jesus Cristo. A firmeza da fé e da esperança faz com que nenhuma dificuldade deste mundo nos separe do amor de Cristo. Nada nos separará do amor de Deus, manifestado em Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Rom. 8,35ss).

Esta é uma dimensão importante do nosso crescimento na fé. Nela sentimo-nos amados por Deus e manifestamos a Deus o nosso amor. Quantas vezes, no concreto da nossa vida, a única maneira de exprimirmos a Deus e ao seu Filho Jesus Cristo o nosso amor é dizer “eu creio”. Não é uma fé sem amor, é, antes, uma fé que é amor. É por isso que a fé se exprime, espontaneamente, na fidelidade.

As testemunhas da fé

5. Para que a nossa fé se exprima sempre na fidelidade, muito nos ajudam os testemunhos da fé. É mais uma razão para que a fé de cada um de nós seja a fé da Igreja. A confissão de fé teve, desde os primeiros séculos do cristianismo, uma expressão comunitária. Só a Igreja, reunida, pode verdadeiramente professar a fé. A fé da comunidade e dos seus membros, fortalece a nossa fé, ilumina a nossa obscuridade, esclarece as nossas dúvidas, vence a nossa tibieza e hesitação.

O Sínodo privilegiou, como modelo de crente, a Virgem Maria. Com ela, podemos aprender a viver a nossa vida crente, como resposta obediente à Palavra do Senhor. Escutemos a Exortação Apostólica de Bento XVI: “Desde a Anunciação ao Pentecostes, vemo-la como mulher totalmente disponível à vontade de Deus. É a Imaculada Conceição, Aquela que é «cheia de graça» de Deus (cf. Lc 1,28), incondicionalmente dócil à Palavra divina (cf. Lc 1,38). A sua fé obediente face à iniciativa de Deus plasma cada instante da sua vida. Virgem à escuta, vive em plena sintonia com a Palavra divina; conserva no seu coração os acontecimentos do seu Filho, compondo-os por assim dizer num único mosaico (cf. Lc 2,19.51)” (VD 27). Mãe da Igreja, na sua fé, “Ele é a figura da Igreja à escuta da Palavra de Deus que nela se fez carne”(VD 27).

A fé e a fidelidade são dons de Deus, que nos são dados na Igreja e através da Igreja. Verdadeiramente, só em Igreja, ajudados por tantas testemunhas, permaneceremos fiéis até ao Dia do Senhor.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


 “A Santidade”

Catequese do 4.º Domingo da Quaresma

Sé Patriarcal, 2 de Abril de 2011

Introdução

1. Nas catequeses anteriores meditámos naquilo que Cristo, que ama a Igreja com amor de Esposo, espera dela. Ele é a Palavra de Deus, fala-lhe ao coração, espera que a Igreja O escute e entre em diálogo de comunhão. Com ela, seu Povo, celebrou a nova e definitiva Aliança; espera dela a fidelidade a essa nova Aliança, renovada em cada Eucaristia. Todas as concretizações da escuta da Palavra e da fidelidade à Aliança, se reúnem e resumem no grande desafio da vida cristã: a santidade.

O Santo Padre Bento XVI recordou-nos, em texto que já citámos, que a fé cristã não é, sobretudo, uma doutrina ou uma moral, mas o encontro com uma Pessoa, Jesus Cristo e, por Ele, com a Santíssima Trindade. E na Exortação Apostólica confirmou: “de facto a vida cristã caracteriza-se essencialmente pelo encontro com Jesus Cristo que nos chama a segui-l’O” (VD 72). É, pois, no aprofundamento deste encontro pessoal com Jesus Cristo ressuscitado e, por Ele, com o Pai, no Espírito Santo, que se situa esta possibilidade, que é o maior desafio da nossa vida, o de sermos santos. Não basta conhecer toda a doutrina ou cumprirmos todas as prescrições morais para sermos santos. Ser santo é mergulhar em Deus e, por amor, procurar conhecê-l’O e fazer a sua vontade: seja feita a tua vontade, na terra como no céu.

Só Deus é Santo

2. Santo é o nome de Deus (cf. Sl 33,21; Am. 2,7). Yahwé, o nome de Deus revelado a Moisés, é substituído por “Santo”; são sinónimos (cf. Sl 71,22; Is 5,24). Se é o nome de Deus é muito mais do que um atributo de Deus. Significa e anuncia aquilo que Deus é, o seu mistério, a plenitude da vida, o seu poder e a sua bondade. O seu amor de misericórdia é anúncio importante da santidade de Deus. O Profeta Oseias afirma: “Como poderia eu abandonar-te Efraim? [...] O meu coração salta no meu peito, as minhas entranhas comovem-se dentro de mim. Não me deixarei levar pelo ardor da minha ira, não vou destruir Efraim. Eu sou Deus e não um homem. Eu sou o Santo no meio de ti” (Os 11,8-9).

Tocar o seu amor de misericórdia é o mais profundo contacto que o homem pode ter com a santidade de Deus. É o início da revelação do seu mistério. O pecado, a dureza do coração, tornam o homem insensível a este mistério da santidade divina, acabam por impedir o conhecimento de Deus, porventura levam à sua negação. Se Deus quer ser conhecido nesse seu mistério de santidade, a redenção do homem é necessária e urgente. O homem precisa de um coração novo para ao menos pressentir a beleza de Deus, o Santo.

Esta redenção que vai tornar o homem capaz de participar na santidade de Deus é realizada por Jesus Cristo, Deus e Homem. Como Filho de Deus, Ele é Santo; como Homem, é o primeiro descendente de Adão a penetrar e a participar na santidade de Deus.

Ao ser concebido no seio de Maria, o Anjo anuncia-lhe que o Menino que vai nascer será Santo e chamar-se-á Filho de Deus (cf. Lc 1,35). Na sua fidelidade de servo conquistou para os homens seus irmãos a vida e, por isso, Deus O exaltou e Lhe deu um Nome que está acima de todos os nomes (cf. Fil 2,9). O mesmo Apóstolo Paulo afirma que Ele ressuscitou segundo o Espírito de Santidade (cf. Rm 1,4). A santidade do Homem Jesus é diferente da de qualquer “justo” do Antigo Testamento. Ele é Santo porque é Deus. N’Ele, tocamos a mesma força espiritual, a mesma profundidade misteriosa. Do seu coração humano brota em pleno o amor misericordioso de Deus. Jesus revela aos seus a majestade da santidade divina. “Eu consagro-me por eles, a fim de que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17,19).

O Deus Santo e a santidade dos homens

3. Ao longo da História da Salvação, várias vezes surge a questão: quer Deus comunicar a sua santidade aos homens que criou? Desejam os homens ser santos como Deus é Santo?

Da parte de Deus vai-se tornando claro, antes de mais, que é desejo de Deus que os homens, sobretudo o seu Povo escolhido, reconheça a santidade de Deus. Isso corresponde à obrigação de O louvar, de reconhecer a sua glória. Por outro lado, vai-se tomando consciência de que tudo o que Deus toca fica santificado. Quando Deus se revelou a Moisés no fogo da sarça ardente e Moisés se aproximava para ver o fenómeno, ouviu a voz de Deus: “Não te aproximes. Tira as sandálias dos pés, porque é santa a terra que pisas” (Ex 3,5).

O que Deus toca, fica santo. Por isso o Povo chamará santo a todas as realidades que entram em contacto com Deus: o templo onde Deus habita, sobretudo o “Santo dos Santos”, os objectos do culto, os sacerdotes. Mas é sobretudo quando Deus toca o interior do homem com a sua Palavra, que o homem se torna santo. É o caso dos Profetas: porque foram tocados pela Palavra de Deus, participam da santidade de Deus e podem falar em nome de Deus.

Mas, apesar desta notícia de que a santidade de Deus pode tocar os homens, durante todo o Antigo Testamento permanece a ideia da transcendência misteriosa da santidade de Deus. Há uma certa contradição entre a convicção de que quem tocar o Deus Santo morrerá, e o convite que Deus dirige ao seu Povo para que participe da santidade de Deus: “Sede santos porque Eu, Yahwé, sou Santo” (Lv 19,2; 20,26).

Este paradoxo só se resolve em Jesus Cristo, Filho de Deus feito Homem, o Santo como Deus é Santo. A Virgem Maria depois de conceber, por acção do Espírito Santo, louva o Senhor e toca, nela, uma verdade tantas vezes rezada e proclamada pelos profetas: “O Todo-poderoso fez em mim maravilhas: Santo é o seu Nome” (Lc 1,49). Mais uma vez a convicção de que só o que Deus toca se torna santo e que podem participar na santidade de Deus aqueles que se deixam tocar por Deus.

E aqui encontramo-nos com a grande novidade cristã: os que se unem a Cristo ressuscitado, pela fé e pelo baptismo, não são apenas tocados por Cristo, todo o seu ser se une ao de Cristo, são um com Cristo, são “o corpo de Cristo”. O dom do Espírito Santo, no Pentecostes, representa a grande viragem, a grande “passagem”. Unidos a Cristo, os cristãos tornam-se “templos do Espírito Santo” (cf. 1Co 6,11). Os cristãos participam do ser de Deus, em Cristo ressuscitado, pela fé e pelo baptismo, que os unge com a “unção que vem do Santo” (cf. 1Co 1,30; Ef 5,26). Continua a ser verdade que só Deus pode fazer os homens participar da sua santidade e vencer neles os obstáculos do pecado, que os impedia de serem santos como Deus é Santo.

Os caminhos da santidade

4. Vencido esse obstáculo radical, pela redenção de Jesus Cristo, resta ao cristão o longo caminho da sua vida para viver em santidade, porque só no Céu serão definitivamente santos como Deus é santo. É a vida concebida como caminhada de fidelidade, na santidade. Vencido radicalmente o pecado, em Jesus Cristo, sabemos que as suas raízes permanecem em nós, numa luta entre a graça da Páscoa e a força do pecado. A santidade não pode ser só obra de Deus em nós, aceite de forma passiva; tem de ser busca e opção da nossa liberdade. Só podemos ser santos, porque Cristo é Santo, nos comunica o seu Espírito Santo e nos santificou; mas temos de querer ser santos, lutar por isso com as armas que Deus põe ao nosso dispor. A nossa caminhada de santidade é uma batalha que ainda convive com o pecado, que nós podemos vencer, com a força de Deus.

Desde sempre, a Igreja acreditou que ela, corpo de Cristo, é santa, porque dela fazem parte Cristo e o Espírito Santo. Mas essa santidade da Igreja não era sempre evidente, era afirmação de fé: “Creio que a Igreja é santa”, faz parte de todas as antigas profissões de fé. Depende da nossa fidelidade cristã que essa santidade radical da Igreja seja visível, possa ser testemunhada perante o mundo.

5. Continua a ser verdade que só é santo quem Deus toca, quem se deixa trabalhar pela acção de Deus. Antes de mais, pela sua Palavra. Cristo, em todo o seu mistério, é Palavra viva de Deus. Temos de descobrir continuamente a relação entre a escuta da Palavra de Deus e a santidade. É pela sua Palavra que Deus toca o coração do homem. Por isso, sempre que o cristão a acolhe, participa da santidade divina. Esta dimensão aparece continuamente na liturgia: “Se ouvirmos a voz do Senhor, entraremos no lugar do seu repouso”.

Como já vimos noutra Catequese, toda a palavra, todos os meios que a Igreja tem de nos fazer ouvir a voz do Senhor, resumem sempre Cristo Palavra. Deus fala-nos sempre pelo seu Filho Jesus Cristo, o Verbo eterno. Daí a importância decisiva da intimidade com Jesus Cristo para crescermos em santidade. A Exortação Apostólica Post-Sinodal acentua a relação entre a Palavra de Deus e a santidade: “A santidade relacionada com a Palavra de Deus inscreve-se, de certo modo, na tradição profética, na qual a Palavra de Deus se serve da própria vida do profeta. Neste sentido, a santidade na Igreja representa uma hermenêutica da Escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efectuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus” (VD 49)

6. A eficácia da Palavra de Deus, tantas vezes anunciada pelos profetas, continua a acontecer na Igreja através da acção sacramental. A presença da Palavra de Deus na Liturgia é decisiva. Ela constitui o âmbito privilegiado onde Deus nos fala no momento presente da nossa vida. Aí, Deus fala hoje ao seu Povo que escuta e responde (VD 52). Na Liturgia, “a Palavra de Deus permanece viva e eficaz pela força do Espírito Santo, e manifesta aquele amor operante do Pai que não cessa jamais de agir em favor de todos os homens. De facto, a Igreja sempre mostrou ter consciência de que, na acção litúrgica, a Palavra de Deus é acompanhada pela acção íntima do Espírito Santo que a torna operante no coração dos fiéis” (VD 52). A acção sacramental é, hoje, o principal caminho pelo qual Deus continua a santificar a sua Igreja. Devemos descobrir, em silêncio, a conexão entre o que Deus nos diz e o que faz em nós.

A santidade e o amor

7. Ser tocado pelo Deus Santo é mergulhar no amor que Ele é. Deus é amor; ser santo é ser amor. “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”, é o mandamento novo. É para que aconteça na nossa vida esta explosão do amor, que o Espírito Santo, o Espírito do amor divino, nos foi e continua a ser dado. A santidade é um caminho de cumplicidade com o Espírito Santo. Aprendemos no Catecismo que toda a Lei, portanto toda a moral, se resume ao mandamento do amor: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos”. “Ama e faz o que quiseres”, ensinava Santo Agostinho. A santidade cristã é uma fidelidade aos mandamentos, ou seja, ao mandamento do amor. O cristão não se salva porque cumpre uma lei, mas porque unido a Jesus Cristo, mergulha no amor. Todo o bem moral é expressão do amor, a Deus e ao próximo.

Este ardor do amor incendeia-se em Jesus Cristo e alimenta-se na Palavra de Deus. Neste caminho somos confirmados pelo testemunho dos santos, que perceberam a Palavra de Deus no amor e beberam nela o desejo de amar ainda mais. Como diz a Exortação Apostólica, “a interpretação mais profunda da Escritura provém precisamente daqueles que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua escuta, leitura e meditação assídua” (VD 48). “Cada santo constitui uma espécie de raio de luz que brota da Palavra de Deus”. Citemos apenas o exemplo de Santa Teresa do Menino Jesus. Dizia ela: “Apenas lanço o olhar sobre o Evangelho, imediatamente respiro os perfumes da vida de Jesus e sei para onde correr” (VD 48).

É esta a voragem do amor que Deus suscita em nós sempre que nos toca com a sua Palavra que é o “novo ardor” para uma nova evangelização.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


 “Vocação e Missão” 

Catequese do 5.º Domingo da Quaresma

Sé Patriarcal, 10 de Abril de 2011

Introdução

1. Para aceitarmos e tomarmos a sério o desafio de João Paulo II e de Bento XVI de nos lançarmos numa “nova evangelização” ou uma “evangelização renovada”, é essencial aprofundar o sentido de missão. É tarefa de toda a Igreja e de cada membro da Igreja. A missão é realização do desígnio de Deus acerca da humanidade. Para nós cristãos é continuar a obra de Jesus Cristo. A sua missão é perene e definitiva. Nós participamos dela, sinal da nossa íntima união com Ele. Partilhar a vida com Ele é participar na sua missão de edificar, na sociedade de cada, tempo o Reino de Deus, até que Ele venha.

Na Sagrada Escritura ao dinamismo da missão aparecem ligados a escolha e o chamamento por Deus (a vocação) e o envio. Deus escolhe e chama aqueles que quer enviar. Mas é, no contexto da missão, no seu fazer-se no meio dos homens, que a escolha e o envio ganham sentido. A vocação especifica-se e esclarece-se na missão.

 

Guiados pela Palavra de Deus e da Igreja

2. Também na compreensão da missão, da sua natureza e dos seus caminhos, a Palavra de Deus é o guia seguro. Antes de mais, a Palavra revela-nos como o plano a realizar e a anunciar é o desígnio de Deus. Todos os enviados são mensageiros para realizarem no meio dos homens esse plano divino da salvação. Isso já é claro no Antigo Testamento, sobretudo nos Profetas. Deus envia a sua Palavra para que ela execute, na história dos homens, o seu plano e a sua vontade (cf. Is 55,11). Para nós cristãos, é a Palavra que nos mostra Jesus Cristo como o grande enviado, para realizar o plano divino da salvação. Ele apresenta-se aos homens como o enviado de Deus (cf. Lc 4,17-21). Ele veio salvar o que estava perdido (cf. Lc 19,10). Todos os aspectos da obra redentora de Jesus Cristo estão ligados à missão que recebeu do Pai. Ele veio para fazer a sua vontade, “a vontade d’Aquele que O enviou” (cf. Jo 4,34; 6,38ss). A sua missão é perene e definitiva. Ele é o anunciado e o anunciador. Depois d’Ele, todos os enviados são enviados por Ele, com a força do Espírito, para continuarem a realizar, em união com Ele, a missão que recebeu do Pai.

Esse é um aspecto que devemos continuamente descobrir e aprofundar na Palavra de Deus: a missão não é nova, a força da sua eficácia não está em nós. Unidos a Cristo pelo baptismo, participamos da totalidade da pessoa de Jesus Cristo, como também da sua missão, e a força da sua eficácia recebemo-la d’Ele e do Espírito Santo. Só a Palavra de Deus nos ajudará a não cair em visões sociológicas e imanentes da missão.

A Exortação Apostólica sobre a Palavra de Deus, orienta-nos nesse sentido: “A missão da Igreja não pode ser considerada como realidade facultativa ou suplementar da vida eclesial. Trata-se de deixar que o Espírito Santo nos assimile a Cristo, participando assim na sua própria missão: «Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20,21), de modo a comunicar a Palavra com a vida inteira. É a própria Palavra que nos impele para os irmãos; é a Palavra que ilumina, purifica, converte; nós somos apenas servidores. Por isso, é necessário descobrir cada vez mais a urgência e a beleza de anunciar a Palavra, para a vinda do Reino de Deus, que o próprio Cristo pregou. Neste sentido, renovamos a consciência – tão familiar aos Padres da Igreja – de que o anúncio da Palavra tem como conteúdo o Reino de Deus (cf. Mc 1,14-15), sendo este a própria pessoa de Jesus” (VD 93).

Quem é que o Senhor envia

3. No Novo Testamento são postos em relevo aqueles que o Senhor escolheu para a missão, para realizarem com Ele a mesma missão. Sobressaem, entre esses escolhidos e enviados, os doze Apóstolos. Mas há outros enviados. De uma só vez 72 discípulos (cf. Lc 9,1). O sentido desse envio é claro na intenção de Jesus: “Quem vos escuta, escuta-me a Mim, quem vos rejeitar, rejeita-me a Mim e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou” (Lc 10,16). “Quem vos recebe recebe-me a Mim e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou” (Jo 13,20). Há uma identificação entre a missão de Jesus e a daqueles que Ele envia. A missão é a mesma, é só uma, recebida de Deus Pai.

Com a Páscoa e o Pentecostes surge uma realidade nova: aqueles que se uniram a Cristo ressuscitado pelo baptismo, a quem Ele comunicou o Espírito Santo, tornando-se um “nós”, o Povo do Senhor, a sua Igreja, realização definitiva do Povo escolhido, com quem Deus celebrou a última e definitiva Aliança, no Sangue de Cristo. A identidade entre Cristo e a Igreja é total, a comunhão entre eles é profunda. Cristo ama a Igreja como um esposo ama a sua esposa. Assim, desde o início, surge uma consciência colectiva da Igreja. Quem Deus envia é a sua Igreja; é esta que recebe do seu Senhor a missão de prolongar no tempo a sua própria missão. Os escolhidos e enviados não são apenas alguns mas todos pelo próprio facto de pertencer à Igreja. A consciência desta missão é aspecto importante da própria consciência de pertença à Igreja.

Ouçamos, a este propósito, a mais recente Palavra da Igreja: “Uma vez que todo o Povo de Deus é um povo «enviado», o Sínodo reafirmou que «a missão de anunciar a Palavra de Deus é dever de todos os discípulos de Jesus Cristo, em consequência do seu baptismo». Nenhuma pessoa que crê em Cristo pode sentir-se alheia a esta responsabilidade que deriva do facto de ela pertencer sacramentalmente ao Corpo de Cristo. Esta consciência deve ser despertada em cada família, paróquia, comunidade, associação e movimento eclesial. Portanto, toda a Igreja, enquanto mistério de comunhão, é missionária, e cada um, no seu próprio estado de vida, é chamado a dar uma contribuição incisiva para o anúncio cristão”(VD, nº 94).

Esta consciência de que cada cristão é enviado e participa da responsabilidade pela missão da Igreja é decisiva para um novo dinamismo de evangelização.

O âmbito da missão

4. Para todos se empenharem na realização actual da missão de Cristo e da Igreja, é preciso ter consciência do âmbito da missão, das realidades humanas que desafiam o anúncio da boa-nova do Reino de Deus. Ouçamos, mais uma vez, como a Exortação Apostólica nos apresenta este âmbito da missão: “O Senhor oferece a salvação aos homens de cada época. Todos nos damos conta de quão necessário é que a luz de Cristo ilumine cada âmbito da humanidade: a família, a escola, a cultura, o trabalho, o tempo livre e os outros sectores da vida social. Não se trata de anunciar uma palavra anestesiante, mas desinstaladora, que chama à conversão, que torna acessível o encontro com Ele, através do qual floresce uma humanidade nova” (VD 93). A missão, nos nossos dias, não pode ser vista apenas no seu aspecto marcadamente eclesiástico. Toda a realidade humana, em que os cristãos estão inseridos como pessoas, os desafia a um testemunho de vida que cria rupturas, inquietações e abre janelas para uma outra perspectiva da vida. Esse é o âmbito privilegiado da nova evangelização, em que os cristãos, homens no meio dos outros homens, são chamados a ser, no ardor da sua vivência cristã, uma luz que é a luz de Cristo. Nesta visão da missão, a Igreja descobre-se continuamente como enviada ao mundo, atitude que marcará a sua maneira de olhar e julgar a sociedade dos homens. Desde o Concílio Vaticano II que o sentir-se enviada ao mundo decidirá da maneira como a Igreja está no mundo.

Mas esta perspectiva não anula a consciência de que a Igreja, na sua realidade interna, é um espaço de evangelização. Para ser fiel à sua missão, a Igreja precisa de ser continuamente evangelizada (Cf. Paulo VI, Evangelii Nuntiandi).

5. Esta consciência da missão da Igreja também não anula, nem relativiza, a missão concreta de cada cristão, que pode corresponder a uma vocação específica. O âmbito da missão é de tal modo alargado, abarcando toda a realidade humana do mundo contemporâneo, que é natural e necessário que cada cristão se sinta chamado e enviado a empenhar-se na realização de aspectos concretos da missão. E alguns há que estão bastante a descoberto nas nossas sociedades contemporâneas. Para que este “particularismo” da missão seja autêntico, exigem-se duas atitudes: que cada missão particular esteja aberta à universalidade da missão, e que cada um considere a sua missão particular como fazendo parte da missão da Igreja. Esta é o horizonte, que define os limites da autonomia na consideração da missão pessoal de cada um de nós.

Vocação e missão

6. Deus chama aqueles que escolheu para enviar. São Paulo resume bem esta situação: aqueles que escolheu, chamou-os e consagrou-os; a esses Ele enviou-os. No Antigo Testamento e durante a vida pública de Jesus, ressalta a densidade das escolhas pessoais, dos profetas, dos apóstolos, de Paulo na estrada de Damasco. Só Deus sabe porque escolheu uma pessoa. Mas uma coisa é clara: escolhe para enviar em missão, a realizar o seu desígnio. Algumas destas vocações revestem-se de uma certa dramaticidade: as pessoas sentem que a sua vida mudou. Os Apóstolos deixam tudo para seguir Jesus.

A Igreja percebeu, desde o início, que ser cristão é uma vocação. Desaparece a dramaticidade da interpelação pessoal, permanece a densidade de seguir Jesus Cristo, em tudo e com todas as consequências. Aderir à fé é considerado um autêntico chamamento. É nesse sentido que Paulo recorda aos Coríntios: “Considerai o vosso chamamento” (1Co 1,26). A vida cristã é uma vocação porque é um chamamento do Espírito Santo; Ele suscita a resposta a esse chamamento: a fidelidade filial. A Igreja reconhece-se como a comunidade dos que foram chamados. A palavra grega com que se diz Igreja, significa, na sua raiz, que a Igreja é a “eleita”, “a escolhida”, e a “chamada”. É porque ela deve escutar a voz do esposo e responder-lhe: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,20).

Mas já Paulo reconhece que no interior desta comum vocação “há diversidade de dons, de ministérios, de operações”. Mas na diversidade de carismas, há um só Corpo e um só Espírito (cf. 1Co 12,4-13). Esta é a novidade cristã: as interpelações feitas pelo Espírito a cada um adquirem a densidade de uma vocação, se exprimirem a vocação de toda a Igreja, porque é ela a principal “chamada” e a continuamente enviada. A concretização deste dinamismo acaba por fazer descobrir a Igreja, não apenas como a que é chamada e enviada, mas como a que chama e envia. As “moções” pessoais do Espírito precisam de ser discernidas, na sua autenticidade, pela Igreja e só se tornam realmente vocação quando a Igreja chama.

A Igreja pode chamar e enviar mesmo quando as pessoas não sentirem interiormente essa sugestão de Deus. Quando a Igreja as chama para a missão, são interpeladas a mudar a sua vida, os seus projectos de vida, para poder responder ao chamamento. A voz da Igreja que chama e envia, é equivalente à voz de Deus que chamou os profetas, à Palavra de Jesus que chamou os Apóstolos. A Igreja é, verdadeiramente, o lugar da vocação e da missão.

As missões fundadoras da Igreja missão

7. Quero terminar esta Catequese sobre a vocação e a missão, recordando que há vocações e missões fundadoras e inspiradoras de toda a missão da Igreja.

Antes de mais, a de Jesus Cristo, que tem uma consciência clara da sua missão: “O Pai consagrou-Me e enviou-Me ao mundo” (Jo 10,16). No caso de Cristo, o Novo Testamento nunca fala de vocação. Não há um momento em que Deus O chama. A sua missão tem origem no seio do mistério de Deus, de Quem Ele é o Filho. A decisão do Pai não é chamá-l’O, mas sim enviá-l’O.

Depois, a de Maria. Neste caso há chamamento e missão. A visita de Gabriel, mensageiro de Deus, é um chamamento a que Maria responde, aceitando a missão: “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra”. Aceita na obediência e na alegria: “A minha alma exulta…”.   Ela é, para a Igreja, o modelo de aceitação da missão, na alegria (cf. VD 124).

A vocação e missão dos Apóstolos. Escolhidos um a um por Jesus, a sua resposta vai sendo dada à medida que vivem a missão de Jesus. Tornaram-se assim constitutivos e garantias da fecundidade da missão de Cristo, para a Igreja e para o mundo. O ministério apostólico é uma missão especialíssima, no conjunto da Igreja missão. A sua fecundidade é garantia da nossa autenticidade cristã.

 † JOSÉ, Cardeal-Patriarca


Em cada ano a Igreja celebra a Páscoa com o seu Senhor

Catequese do 6.º Domingo da Quaresma

Sé Patriarcal, 17 de Abril de 2011

Introdução

1. A palavra Páscoa significa passagem. Refere, historicamente, a libertação do Povo de Israel do cativeiro do Egipto. Foi passagem, porque o anjo do Senhor passou, poupando os israelitas à exterminação dos primogénitos; foi passagem da escravidão para a liberdade; foi passagem porque início de um longo caminho, com os olhos postos na terra da promessa. Nesse longo caminho, passaram o deserto, o Mar Vermelho, o rio Jordão. Essa primeira Páscoa sugere os principais dinamismos da caminhada para a liberdade: só com a acção de Deus é possível essa passagem. Só a acção de Deus pode fazer com que haja Páscoa. O seu símbolo sacramental é um cordeiro imolado, comido por toda a família em atitude de caminhantes. Enquanto o Povo continuar a caminho, deve voltar a celebrar a Páscoa (cf. Ex 12,14). Porque o Povo continua a sua caminhada de libertação, continuará a celebrar a Páscoa, em memória da primeira Páscoa, quando o anjo do Senhor passou e aplicando-a à actualidade de cada ano.

Jesus Cristo, na sua última Páscoa, dá o sentido pleno e definitivo a esta celebração da busca da liberdade, conduzidos pela força de Deus. Convida-os, com Ele, a fazer a grande passagem, da escravidão à liberdade, do pecado à graça. Define o sentido da caminhada: o destino é a terra da promessa, que Ele identifica como a Casa do Pai. Dá um sentido novo ao sofrimento e à morte, pois a Sua passagem é da morte à vida. É uma passagem que só Deus torna possível, feita com Ele, que é o Filho de Deus. É celebração da Aliança, da nova e definitiva Aliança e convida-nos, como fez Moisés no Egipto, a fazer memória, isto é, a celebrar de novo a Páscoa nas circunstâncias concretas de cada momento da caminhada, dando à memória a densidade da actualidade. Só quando todo o Povo alcançar a definitiva terra prometida, isto é, estiver reunido na Casa do Pai, é que a Páscoa deixará de ser memória, porque o presente será a plenitude da liberdade e da alegria. “Eu vo-lo digo: não voltarei a beber deste produto da videira até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no Reino de Meu Pai” (Mt 26,29).

A Páscoa cristã adensou a relação entre memória e actualidade. Enquanto estivermos a caminho, na caminhada da fé, feita não individualmente, mas em Igreja, o Povo do Senhor, temos de celebrar a Páscoa, em memória da primeira Páscoa da nova Aliança, mas no realismo da sua incidência na actualidade da Igreja e de toda a humanidade.

Actualidade da Páscoa

2. Este é o dilema da nossa Páscoa: é apenas uma cerimónia religiosa que evoca um passado, a ceia pascal de Cristo com os seus discípulos, como o crucifixo nos recorda o Calvário? Ou tem a densidade do drama da Igreja e da humanidade actuais, na sua peregrinação para a liberdade, isto é, para a plenitude da vida? Ansiamos por essa “passagem”, num caminho árduo, com os olhos postos na terra da promessa? Queremos fazer essa passagem com o Senhor, com a força do seu amor, que é o seu Espírito? Temos consciência de que somos um povo a caminho, e que a passagem definitiva só o Senhor a realizou e aqueles que o seguiram até ao fim e que Ele já reuniu na Casa do Pai? Qual é o passo seguinte nesta caminhada para a liberdade? Queremos dá-lo sozinhos, com a nossa iniciativa e as nossas forças, ou queremos dá-lo com Ele, com a força da sua própria Páscoa, em que venceu o pecado e a morte? Qual é a densidade existencial da Páscoa deste ano, para cada um de nós, para a Igreja e para a humanidade por quem Cristo morreu na Cruz? Celebrar a Páscoa é dar um sentido à nossa luta presente, por uma Igreja mais fiel e por uma humanidade mais digna do homem.

Só é possível celebrar a Páscoa com Jesus Cristo

3. Só a Páscoa de Jesus Cristo torna possível à Igreja, à humanidade, a cada um de nós, dar passos em frente, no contexto da nossa realidade, em ordem à libertação. Sem a força da Páscoa de Jesus, a humanidade não avança em ordem à liberdade. Ele é o novo Moisés que, em cada momento da nossa história, nos torna capazes de avançar, de fazer a passagem, do egoísmo à generosidade, da violência à fraternidade, do individualismo à comunhão. Ele reuniu misteriosamente em Si toda a humanidade de todos os tempos, quer os homens o saibam, quer não, e o destino da nossa caminhada está ligado ao seu próprio destino de triunfador sobre a violência e sobre a morte. É por isso que celebramos sempre a Páscoa de Jesus Cristo, pois só nela, na sua actualidade, encontramos luz e força para a nossa Páscoa.

Cristo unificou em Si toda a humanidade, renovando na redenção a unidade da criação. É que por Ele todas as coisas foram criadas (cf. Jo 1,3; Col 1,15-20). Verbo criador, ao fazer-Se homem uniu ao seu destino o destino de todos os homens. Só assim se percebe a sua passagem dolorosa da morte até à ressurreição. A liturgia canta, “Deus não perdoou ao seu próprio Filho”. Não é a sua salvação que está em questão, mas a da humanidade, todos os homens seus irmãos. Só com Ele poderão fazer a sua própria passagem de libertação. Cristo aceita morrer porque os homens precisavam de morrer, para os desvios da vida presente, para regressarem à vida para que Deus os criou. A Páscoa de Cristo é, no seu amor generoso e na obediência ao desejo de Deus, seu Pai, de salvar a humanidade, a Páscoa de toda a humanidade.

O Senhor tem a alegria de ver o fruto do seu amor generoso. Os que acreditam n’Ele e se unem à sua vida humana de ressuscitado, unem-se a Ele de uma maneira nova, identificam-se com Ele nessa vida nova, partilham do seu ardor salvífico, do seu desejo de ajudar todos os homens a caminhar em direcção à terra da promessa. Esses são a sua Igreja, o seu Corpo, dispostos a partilhar com Ele as vicissitudes da Páscoa da humanidade. A actualidade da Páscoa de Cristo continua a ser a oferta de Si Mesmo por toda a humanidade. Só que agora pode unir-se a Ele a sua Igreja, oferecendo-se com Ele pela salvação de todos os homens. Esta união da Igreja a Jesus Cristo, seu Senhor, na celebração da Páscoa, é tanto oferta do sofrimento e da morte, como fruição da vida nova. São Paulo escreve aos Gálatas: “Estou crucificado com Cristo e se vivo, já não sou eu, mas é Cristo que vive em mim. A minha vida presente na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gal 2,19-20). “Cristo será glorificado no meu corpo, quer eu viva, quer eu morra” (Fil 1,21). “Completo no meu corpo o que falta à Paixão de Cristo” (Col 1,24).

A Páscoa da Igreja participa na plenitude da Páscoa de Cristo e com Ele merece a Páscoa da humanidade. É o sentido da afirmação do Concílio Vaticano II que designa a Igreja como sacramento de salvação para toda a humanidade. Assim, ao celebrarmos, em cada ano, a Páscoa, temos em conta a nossa Páscoa, a nossa passagem, os passos que precisamos dar para nos unirmos, o mais totalmente possível, à Pascoa de Jesus.

A Eucaristia e a actualidade da Páscoa

4. A actualidade da Páscoa é a verdade de cada Eucaristia, celebrada pela Igreja, em união com Cristo seu Senhor. A comunidade cristã celebra a Páscoa todas as semanas, no primeiro dia da semana, dia em que Cristo ressuscitou dos mortos. A celebração anual da Páscoa, nesta Semana Maior, se por um lado afirma a continuidade entre a Páscoa judaica e a Páscoa cristã, na riqueza da sua liturgia evoca os traços fundamentais da fé da Igreja em Jesus Cristo, presentes em cada Eucaristia: a realeza e a senhoria de Cristo; Cristo Sumo Sacerdote, o novo sacerdócio e o novo culto; Cristo pão vivo descido do céu, dado para nosso alimento; a actualidade da Cruz de Cristo, abraço de amor de Deus por todos os homens, de todos os tempos; a surpresa da ressurreição, abrindo para o novo horizonte da vida humana, novo sentido do nosso corpo, desejo renovado da vida eterna.

A Eucaristia é sempre a celebração da Páscoa. O seu ritmo semanal, ou mesmo diário, dá realismo à actualidade da Páscoa, que incide, como desafio renovador, sobre o concreto da vida de cada homem, de cada comunidade, de cada nação, de toda a humanidade. A Eucaristia semanal ajuda-nos a aplicar à vida dos homens o sacrifício redentor de Jesus Cristo e a não fazer dessa celebração uma expressão intemporal que paira sobre a realidade da vida presente. Na sua Páscoa, Cristo abraçou, com o amor infinito de Deus, todos os homens; em cada Eucaristia, a Igreja sabe que esse abraço de amor se exprime, agora, em nós, em todos os nossos irmãos, no realismo das suas vidas. Quem não acreditar que esse abraço de Deus, se dirige a cada um de nós, no momento presente da nossa vida, não pode viver plenamente a Eucaristia.

Esta verdade da Eucaristia, no momento presente da nossa vida, exprime-se na verdade da celebração. No modo como escutamos e acolhemos a Palavra do Senhor; na intensidade com que nos unimos ao Senhor no louvor de Deus e no amor por todos os homens; na humildade com que, ao reconhecermos os nossos pecados, confiamos na força transformadora do seu amor; na ternura e na confiança com que O recebemos como pão vivo para nos alimentar na nova vida que com Ele partilhamos; na sinceridade do nosso amor fraterno; no entusiasmo com que partimos a anunciar que estamos salvos, porque Deus nos ama. Desde os mais antigos textos litúrgicos, vê-se que as comunidades cristãs viviam todas estas dimensões na Eucaristia que celebravam e que, com o coração a transbordar, eram enviados a anunciar o amor de Deus e a amar os irmãos. Agora ide e anunciai, é o sentido de todas as formas de encerramento da celebração e de prolongamento dela na fidelidade cristã, na prática da caridade cristã e no anúncio da boa-nova do Evangelho. A riqueza desta celebração anual da Páscoa, ensina-nos a celebrar a Eucaristia, todos os domingos ou, porventura, todos os dias. Cada comunidade e cada cristão vivem da Eucaristia e na Eucaristia.

Na Eucaristia semanal é mais fácil, e espontâneo, ligar a Palavra de Jesus ao concreto da vida: as pessoas que morreram, os que sofrem, no corpo ou no espírito; as etapas importantes da vida de cada um e de toda a comunidade; os grandes problemas da comunidade humana, que os modernos meios de comunicação nos ensinaram a descobrir como a única família humana. Em cada celebração da Eucaristia, todas essas realidades, que agora nos alegram ou nos afligem, são iluminadas pela Palavra, mergulhados no amor de Jesus, transformadas em expressão de confiança e de louvor.

Demos à nossa Páscoa deste ano a densidade da actualidade. Celebremo-la como se fosse a única que nos foi dado celebrar.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

Geração à rasca - a nossa culpa

Geração à Rasca – a nossa culpareporter1

Um dia, isto tinha de acontecer. Existe uma geração à rasca? Existe mais do que uma! Certamente! Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.

A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos. Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego... Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquer coisa phones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas. Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos – e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas – ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca!

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta. Pode ser que nada/ninguém seja assim.

(Autor desconhecido)

Nota Pastoral CEP e a beatificação de João Paulo II

Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa
por ocasião da Beatificação do Papa João Paulo IIJP11

1. Os santos actualizam o Evangelho

No próximo dia 1 de Maio, a Igreja vai beatificar o Papa João Paulo II. A beatificação de alguém é a celebração agradecida pela vida e testemunho cristãos de um homem ou de uma mulher, proclamando a sua virtude e oficializando o seu culto público. Reconhecido o seu alto grau de santidade, isto é, provadas as suas «virtudes heróicas» e confirmadas por um milagre, a pessoa beatificada é proposta à veneração dos crentes como modelo, estímulo e intercessora junto de Deus. Só Deus é verdadeiramente Santo. Mas todos os baptizados tornam-se «santos», como com toda naturalidade lhes chama S. Paulo nas suas cartas, por participação na vida e santidade de Cristo.

Continuar... Nota Pastoral CEP e a beatificação de João Paulo II

 

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