PARÓQUIA S. MIGUEL DE QUEIJAS

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Leão Dehon e a internacionalização da sua Congregação

Todos sabemos das muitas viagens que o P. Dehon fez, seja na juventude, seja depois da fundação da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus. Mas, interrogamo-nos: tratou-se de um aspeto marginal ou estes contatos com pessoas, situações, culturas diferentes tiveram influência no seu percurso pessoal de modo a incidirem também na sua ação como Fundador? A sua experiência pessoal favoreceu a dimensão internacional que a Congregação revela desde os seus primeiros tempos?

Ao tentar perceber o pensamento do P. Dehon Dehon12sobre esta realidade, notamos que diversos temas dos seus escritos nos oferecem pistas que são convergentes e complementares, ainda que raramente sejam desenvolvidas de modo isolado. Não encontramos o tema tratado diretamente nas suas obras, mas encontramo-lo nas frequentes alusões que a eles faz nos seus numerosos escritos aos familiares, amigos e missionários, escritos nos quais testemunha uma sensibilidade viva para com a missão universal da Igreja e para com uma evangelização que quer chegar a todo o mundo.

De qualquer modo, se refletirmos, antes de nos referirmos aos seus escritos, devemos ver na vida do P. Dehon o modo como se desenvolveu, na sua experiência humana e na sua formação intelectual, um olhar que ia sempre para além das fronteiras nacionais e se abria à universalidade. Trata-se de penetrar até ao íntimo da sua personalidade, de ver as suas caraterísticas humanas e cristãs. Isto porque a sua perspetiva teologal da universalidade e da internacionalidade da Congregação se apoiou sempre nos aspetos pessoais, afetivos e emocionais, que contaram muito na sua vida.

Por um lado, é claro que não podemos duvidar da paixão do P. Dehon pela sua nação francesa, do orgulho de ter nascido numa família de tradição cristã, da devoção e amor que manifestava pela sua pátria, pela sua região, pela sua cultura e sobretudo pela Igreja de França. Por outro lado, vemos que, já desde a sua infância, as vicissitudes da vida lhe fizeram abrir a mente para além dos limites do seu pequeno mundo de La Capelle e, depois, da França do seu tempo. Não é insignificante o fato de ter nascido numa família abastada, com possibilidade de fazer grandes viagens, numa região de grandes empresários e fábricas, dotada de um rico ambiente cultural e atenta à evolução da sociedade, que passava do artesanato à era da técnica e da indústria moderna.

O processo de abertura do seu espírito à internacionalidade começa cedo, quando foi enviado pelos seus pais para o colégio de Hazebrouck. Aí o adolescente Dehon, apenas com doze anos, encontra-se só num ambiente diferente do seu: estamos na Flandres francesa, na fronteira com a Bélgica, e isto começa a mudar a sua mente, muito impressionável e sensível (ele fala das virtudes do clero do Norte). Há uma abertura a novos horizontes, inteletuais e espirituais, como ele deixou escrito nas "Notas sobre a história da minha vida" (1). No mesmo ano da entrada neste colégio, 1855, faz a sua primeira grande viagem, e visita com o pai a exposição universal de Paris. A esta primeira impressão "universal" do jovem Dehon seguirão muitas outras viagens, que lhe farão atravessar inúmeras fronteiras, e que formarão o seu coração e a sua mente para um horizonte de perspetiva e pensamento do tamanho do mundo.

A sua presença em Paris, como estudante de direito, fá-lo-á viver numa cidade cosmopolita, em plena evolução de "modernidade", e permitir-lhe-á conhecer pessoas de muitos países e dos mais diferentes ambientes sociais. Di-lo com palavras suas: "Recebi ali muitas graças. Encontrei um grande desenvolvimento inteletual. Aprendi a conhecer o mundo sem me manchar" (2). Com o seu companheiro Palustre, influente amigo dos anos de estudo em Paris, visitará, em 1862, a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda. No ano anterior, tinha estado em Londres para aprender inglês. Este amigo transmitir-lhe-á a sua paixão pela arte, pela literatura e pela arqueologia. Com ele fará nesses anos uma viagem ao norte da Europa, e conhecerá a Dinamarca, a Suécia e a Noruega. Em 1863, terminada esta viagem, encontramos os dois amigos na Áustria, onde fazem uma visita ao pretendente ao trono de França (Henrique V), Conde Chambord. Terminados os estudos de direito, com o bom amigo, faz uma nova viagem à Holanda e à Bélgica.

Uma viagem importante desta etapa da sua vida foi, sem dúvida, a que fez ao Oriente, em 1864, onde, ao visitar os lugares santos se fortaleceu no seu chamamento ao ministério presbiteral. O fato de a realizar por mar e por terra, únicos meios na época, permitiu-lhe contatar com muitos países: Itália, Dalmácia, Albânia, Grécia, Egito, Palestina, e, no regresso, com a cidade de Roma. Nas notas sobre as suas viagens destes anos reflete-se o seu constante interesse pela atualidade, o cuidado pela informação, o gosto pelas trocas, pelas relações. Tudo isto fará com que, no tempo da sua maturidade, infatigável leitor e escritor, famoso congressista, interessado pela cultura e propagandista, possa ser qualificado como verdadeiro filho da Igreja universal do seu tempo e cidadão do mundo.

Mais tarde, quando da presença em Roma durante os anos de seminarista de 1865 a 1871, viver e estudar numa das cidades com mais possibilidades para conhecer as diversas culturas do mundo permitir-lhe-á experimentar com vivacidade a riqueza da internacionalidade da Igreja, sob o signo da "catolicidade", conceito teológico mais amplo que o simples conceito de "universalidade". Dois acontecimentos contribuíram para a sua experiência eclesial da catolicidade: estudar na Universidade Gregoriana, onde com os jesuítas partilha quatro anos com estudantes de muitos países (3), e participar como estenógrafo no Concílio Vaticano I (1869-1870). Ali poderá conhecer diretamente a mentalidade e o sentir de toda a Igreja católica, incluindo as igrejas orientais. O seu "Diário do Concílio" contém textos que testemunham esta experiência excecional (4). A sua oração no começo do Concílio é: "Meu Deus, o mundo tem fome de paz, de fé, de religião. Reúne-o nos teus caminhos. Ilumina as nações naquilo de que têm necessidade, fortifica a unidade e a autoridade da tua Igreja ..." (5).

Tendo regressado a França, Dehon não se fecha no pequeno mundo de S. Quintino, onde presta o seu primeiro serviço diocesano. A sua espiritualidade, cada vez mais orientada para a devoção ao Coração de Cristo, leva-o a delinear um projeto de sociedade que chamará "O Reino social do Coração de Jesus". Na sua mente é claro que este Reino se deve estender, não só à França, mas "às sociedades". Daí a sua admiração pelo que estava a acontecer no longínquo país do Equador e pelo seu presidente Garcia Moreno, que consagrou esta nação americana ao Coração de Jesus. Logo que fundou a sua Congregação religiosa em S. Quintino, concebeu um projeto apostólico cuja finalidade era que o "reino social" chegasse a todas as nações, porque esse Reino, que é o de Cristo, é um Reino universal. Supõe o anúncio evangélico ao mundo inteiro no espaço e no tempo, e deve empenhar todos os setores da sociedade e todas as dimensões da realidade humana (6).

Por esta razão, organiza, já desde o início, um noviciado internacional e uma escola apostólica em Watersleyde-Sittard (Holanda, 1883), onde estão presentes noviços e religiosos holandeses, alemães e franceses. Um ano antes tinha querido fundar na Inglaterra, mas não conseguiu realizar o seu intento por causa da oposição do bispo de Soissons. Depois, vêm as fundações belgas, (Clairefontaine, Bruxelas), seguidamente Limpertsberg-Luxemburgo e Roma. Nessa época inicial nascem também as longínquas missões do Equador, do Brasil e do Congo. Na medida que lhe é possível, organiza duas casas de formação com caráter internacional, o escolasticado de Lille (1884) e Roma (1894). Foi profundamente patriota, mas isento de todo o sentimento cego de chauvinismo, como demostrou por ocasião da primeira guerra mundial. Reagiu energicamente perante os "defeitos do caráter nacional", e perante os excessos de nacionalismo de que foi testemunha durante a guerra. Para Dehon, "as nações são obra de Deus", e o "sint unum" da sua espiritualidade exclui todo o patriotismo exacerbado e todo o racismo intolerante, visto que no céu não haverá nacionalismos, mas comunhão de santos, e é por isso que a caridade deve absolutamente ocupar o primeiro lugar entre os seus.

No P. Dehon o núcleo donde partia o compromisso que hoje chamaremos "global" dos seus religiosos era a centralidade de Cristo nas suas vidas, para tornar presente o Reino universal de caridade e justiça social que brotam do Coração do Salvador. É a mediação única e universal de Cristo-Messias que leva o P. Dehon a projetar a sua ambiciosa obra, de caráter internacional: a do Reino do Coração de Cristo "nas sociedades", no plural. Alguns textos são significativos:

"O nosso Deus não é somente o Deus da vida privada, o Deus do santuário, é também o Rei dos reis, o Deus da vida social. A sua lei e a sua graça devem iluminar e penetrar na vida civil e económica dos povos. A Igreja é depositária dos princípios que vivificam e elevam tanto a vida pública como a vida privada" (7).

Falando aos alunos da escola de Bergen-op-Zoom (Holanda) explica-lhes a sua obra: "Trabalhar, com todos os meios, pelo Reino do Coração de Jesus nas famílias e nas sociedades. Nenhum ideal é mais belo do que este" (2 de Janeiro de 1919). E aos noviços italianos, a 20 de Dezembro de 1921, diz: "Fidelidade ao nosso ideal: trabalhar pelo Reino do Coração de Jesus no mundo inteiro, começando a realizar o seu reino em nós mesmos por meio da união a Nosso Senhor".

A paixão pelo alargamento deste Reino levá-lo-á, já com mais de sessenta anos a realizar uma viagem à volta do mundo, partindo da França, para participar em 1910 num congresso eucarístico na cidade canadiana de Montreal. A partir daí visitará o Canadá, os Estados Unidos, o Japão, a Coreia, a China, as Filipinas, a Indonésia e a Índia. Conclui esta viagem com uma segunda visita à Terra Santa, entrando pelo Mar Vermelho. Nos seus diários, não só apontava notícias sobre os lugares visitados, mas manifestava interesse pela cultura, pelos costumes e pelas religiões dos povos visitados, de modo que a sua perspetiva se parece muito com a que têm os sociólogos de hoje. Mas o seu interesse maior era pelas missões e pela obra da evangelização da Igreja nestes países longínquos da Europa. As suas relações com os bispos de todo o mundo, do Canadá ao Brasil, passando pelos países da Ásia ou da América Latina, facilitaram com o tempo a expansão da sua Congregação.

O empenho no desenvolvimento do Reino do Coração de Jesus manifesta-se no caráter internacional que dá à sua Congregação também através das missões em terras longínquas desde os inícios da mesma (8). A expansão colonial dos países Europeus serviu ao P. Dehon de plataforma para realizar fundações fora da Europa. O primeiro país será americano: o Equador (1888); depois virá a África com o Congo belga (1897), os Camarões (1912), a África do Sul (1923). Mas o seu pensamento vai também para o mundo de maioria protestante, e organiza a missão da Suécia, do Canadá, da Finlândia (1907). Na América será importante o Brasil. Terminada a primeira guerra mundial, em plena reconstrução da Congregação, não deixa de enviar missionários para os Camarões, para o Congo e para a missão de Gariep na África do Sul, mas também para a Sumatra (Indonésia), estas duas últimas missões iniciadas em 1923. Data deste mesmo ano a missão no Dakota do Sul, nos Estados Unidos. Em resultado da presença de religiosos alemães nos Camarões, surge também a fundação em Espanha. Os missionários, obrigados a abandonar a missão, chegam ao sul de Espanha e, em poucos anos, organizam um colégio e uma casa de formação (1919).

Neste contexto, não deixa de ser significativo o fato de que o P. Dehon chegasse a comprar um terreno na Palestina, na pequena cidade de Nazaré, com a ajuda do Conde de Piellat, para ter uma presença dos seus religiosos no âmbito do império turco-otomano. Do mesmo modo, é surpreendente o fato de que, em 1921, tinha preparado uma presença no Afeganistão, que deveria começar com alguns religiosos holandeses.

Todo este desenvolvimento de internacionalidade não é simples estratégia de promoção da sua Congregação, mas uma consequência da sua vida espiritual: "consolar Nosso Senhor, fortalecer a Igreja perante as tristezas que experimenta na Europa, na França" (carta de 13 de Dezembro de 1910); "as missões devem ser entre nós exercício de caridade e de reparação" (carta de 24 de Março de 1923). Por isso, no fim da sua vida, poderá escrever uma carta à Irmã Maria de Santo Inácio: "Desde a minha juventude, desejei ser missionário e mártir: sou missionário nos meus cem sacerdotes nos quatro cantos do mundo; sou mártir pelas grandes cruzes de 1878-1884... Nosso Senhor aceitou o meu voto de vítima de 28 de Junho de 1878"(9). A centralidade da incarnação do Verbo, e as consequências que este evento tem para a universalidade da salvação, fazendo com que a sua Igreja, como novo Israel e povo messiânico, seja uma comunidade "católica", é a motivação mais profunda que leva o P. Dehon à missão universal: "O Coração de Jesus, sol de justiça que se eleva sobre o mundo das inteligências e dos corações, destinado a irradiar sobre todo o universo, por meio do Evangelho que deve levar a todas as nações a doce influência das suas iluminações divinas ..."(10).

Aderir a Cristo implica, na forma em que Dehon sente esta adesão, o desejo de servir a "realeza" do Verbo incarnado, alargando-a ao mundo inteiro. Segundo a mentalidade do tempo, o Verbo é o "Cristo Rei" e o seu Reino tem a ver com a missão de instaurar o Evangelho na vida social dos povos, que se abrem à democracia e à modernidade. A centralidade de Cristo na vida do P. Dehon leva-o também às consequências eclesiológicas da Incarnação: "Nosso Senhor convida-nos a escutar a sua Igreja que nos fala pelo ensinamento da sua doutrina, pelo seu culto, pelo ofício divino ... Deus faz-nos compreender a sua justiça satisfeita pelo Deus-homem; a sua infinita misericórdia que nos eleva até ele pela sua incarnação ..."(11). "Todos os homens são crianças nas coisas da fé e precisam da orientação da Igreja de Deus. Melhor dizendo: têm direito a ela, e privá-los dela é uma tirania"(12).

Voltando a olhar para as viagens, para os muitos contatos internacionais e para os diferentes contextos culturais com que o P. Dehon se confrontou, damo-nos conta de que esta perspetiva e interpretação são apoiadas por uma compreensão espiritual diferente da nossa. Não se trata de internacionalidade como nós a entendemos. Para o P. Dehon o interesse por outras nações e culturas é alimentado pelo seu apreço pela Incarnação do Verbo nas diferentes situações do mundo. Ele reconheceu e aprendeu delas a universalidade do Reino de Cristo. Ele transmitiu esta sensibilidade à Congregação, que, quando ele morreu, estava presente em vinte países de quatro continentes. Embora os contornos do mundo, tal como os conhecemos hoje, fossem vagamente visíveis no seu tempo, não podemos esperar de Dehon as bases para uma nova compreensão do viver e trabalhar juntos no século XXI. O que ele nos deu são impulsos iniciais. Encontramo-los no grande interesse que o P. Dehon teve pelo mundo que se estava a abrir com novas possibilidades de viagens. Hoje é tarefa nossa encontrar os caminhos para aquilo que é outro no nosso mundo.


(1) Cf. NHV 1,13v.

 

(2) NHV 1,31v.

(3) Dehon admira-se de que metade dos estudantes de filosofia na Gregoriana sejam leigos, porque estes estudos se exigem para outras carreiras. E fazendo alusão aos muitos países que ali estão representados afirma aos seus pais: "è uma Babel (por causa das diferentes cores dos hábitos dos estudantes). Não vos causará admiração que todos os cursos sejam dados em latim. É a única língua conhecida por todos. Há nisso um sinal da universalidade da Igreja. Esquecem-se as invejas das nações e discute-se fraternamente entre ingleses, alemães, espanhóis, americanos, irlandeses, belgas, polacos, etc," (Carta de 5-3-1866). Citada em G. Manzoni, Leone Dehon e il suo messaggio, EDB, Bologna 1989, 111-112.

(4) Cf. a edição de V. Carbone: Leon Dehon SCJ, Diario del Concilio Vaticano I, Ed. El Reino del Corazón de Jesús, Madrid 1962.

(5) L. Dehon, NQT I/1869,22 (6 de Dezembro).

(6) "Conquistar o mundo para Jesus Cristo... cada dia me uno a todas estas almas. Quereria elevar o meu ideal até à sua altura. Amo ardentemente nosso Senhor e desejo promover o seu Reino do Sagrado Coração" NQT XLV (1925) 2-3.

(7) L. Dehon La Rénovation sociale chrétienne (1900), in OSC III 310. Cf. também a meditação de 16 de Janeiro, Le règne social du Sacré Coeur, in: OSP III, 62-64; e a meditação 26 da sua obra Le Coeur sacerdotal de Jésus.

(8) Cf. P. Paul Mc Guire, in Dehoniana (2002/2), 169-186; Lettere circolari n. 326.

(9) Carta de 8 de Dezembro de 1924: texto retomado na mesma modalidade nas NQT XLV (1925) 1-2.

(10) L. Dehon, Mois du Sacré Coeur. Dixseptième jour, in OSP 1, 503-504.

(11) L. Dehon, NQT I/1868, 60-61 (10 de Março).

(12) Ibid., 71 (30 marzo).

 

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