PARÓQUIA S. MIGUEL DE QUEIJAS

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IV Domingo da Quaresma B

JC_Serpente_7A Palavra de Deus deste Domingo da Quaresma garante-nos que Deus nos oferece, de forma totalmente gratuita e incondicional, a vida eterna.

A primeira leitura é um resumo da História da Salvação, em três momentos: o Pecado do homem, o Castigo e o Perdão de Deus. A história do pecado e da infidelidade do homem para com Deus é paralela à história do perdão de Deus ao homem. Deus permanece sempre fiel à aliança e não abandona o seu povo. Apesar das infidelidades, Deus dá sempre ao seu Povo outra possibilidade de recomeçar, de refazer o caminho da esperança e da vida nova. Deus detesta o pecado, mas ama o pecador.

Na segunda leitura São Paulo afirma que Deus é rico em misericórdia. Deus ama o homem com um amor total, incondicional, desmedido; é esse amor que levanta o homem da sua condição de finitude e debilidade e que lhe oferece esse mundo novo de vida plena e de felicidade sem fim que está no horizonte final da nossa existência.

No Evangelho, João recorda-nos que Deus nos amou de tal forma que enviou o seu Filho único ao nosso encontro para nos oferecer a vida eterna. Somos convidados a olhar para Jesus, a aprender com Ele a lição do amor total, a percorrer com Ele o caminho da entrega e do dom da vida. É esse o caminho da salvação, da vida plena e definitiva.


LEITURA I – 2 Cr 36,14-16.19-23
Leitura do Segundo Livro das Crónicas

Naqueles dias,
todos os príncipes dos sacerdotes e o povo
multiplicaram as suas infidelidades,
imitando os costumes abomináveis das nações pagãs,
e profanaram o templo
que o Senhor tinha consagrado para Si em Jerusalém.
O Senhor, Deus de seus pais,
desde o princípio e sem cessar, enviou-lhes mensageiros,
pois queria poupar o povo e a sua própria morada.
Mas eles escarneciam dos mensageiros de Deus,
desprezavam as suas palavras e riam-se dos profetas,
a tal ponto que deixou de haver remédio,
perante a indignação do Senhor contra o seu povo.
Os caldeus incendiaram o templo de Deus,
demoliram as muralhas de Jerusalém.
Lançaram fogo aos seus palácios
e destruíram todos os objectos preciosos.
O rei dos caldeus deportou para Babilónia
todos os que tinham escapado ao fio da espada;
e foram escravos deles e de seus filhos,
até que se estabeleceu o reino dos persas.
Assim se cumpriu o que o Senhor anunciara pela boca de Jeremias:
«Enquanto o país não descontou os seus sábados,
esteve num sábado contínuo,
durante todo o tempo da sua desolação,
até que se completaram setenta anos».
No primeiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia,
para se cumprir a palavra do Senhor,
pronunciada pela boca de Jeremias,
o Senhor inspirou Ciro, rei da Pérsia,
que mandou publicar, em todo o seu reino,
de viva voz e por escrito,
a seguinte proclamação:
«Assim fala Ciro, rei da Pérsia:
O Senhor, Deus do Céu, deu-me todos os reinos da terra
e Ele próprio me confiou o encargo
de Lhe construir um templo em Jerusalém, na terra de Judá.
Quem de entre vós fizer parte do seu povo ponha-se a caminho
e que Deus esteja com ele».


SALMO RESPONSORIAL – Salmo 136 (137)
Refrão: Se eu me não lembrar de ti, Jerusalém, fique presa a minha língua.

Sobre os rios de Babilónia nos sentámos a chorar,
com saudades de Sião.
Nos salgueiros das suas margens,
dependurámos nossas harpas.

Aqueles que nos levaram cativos
queriam ouvir os nossos cânticos
e os nossos opressores uma canção de alegria:
«Cantai-nos um cântico de Sião».

Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor
em terra estrangeira?
Se eu me esquecer de ti, Jerusalém,
esquecida fique a minha mão direita.

Apegue-se-me a língua ao paladar,
se não me lembrar de ti,
se não fizer de Jerusalém
a maior das minhas alegrias.

NB: Queres fazer a leitura camoniana deste salmo? Experimenta revisitar as célebres redondilhas "Sôbolos rios que vão", em que Camões faz o balanço da sua vida passada projectando o futuro através da superação mística das contingências humanas, com fortes laivos neoplatónicos. Vai ao final desta página.


LEITURA II – Ef 2,4-10
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios

Irmãos:
Deus, que é rico em misericórdia,
pela grande caridade com que nos amou,
a nós, que estávamos mortos por causa dos nossos pecados,
restituiu-nos à vida em Cristo
– é pela graça que fostes salvos –
e com Ele nos ressuscitou
e nos fez sentar nos Céus com Cristo Jesus,
para mostrar aos séculos futuros
a abundante riqueza da sua graça
e da sua bondade para connosco, em Cristo Jesus.
De facto, é pela graça que fostes salvos, por meio da fé.
A salvação não vem de vós: é dom de Deus.
Não se deve às obras: ninguém se pode gloriar.
Na verdade, nós somos obra sua, criados em Cristo Jesus,
em vista das boas obras que Deus de antemão preparou,
como caminho que devemos seguir.


EVANGELHO: Jo 3,14-21
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus a Nicodemos:
«Assim como Moisés elevou a serpente no deserto,
também o Filho do homem será elevado,
para que todo aquele que acredita n'Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Quem acredita n'Ele não é condenado,
mas quem não acredita já está condenado,
porque não acreditou em nome do Filho Unigénito de Deus.
E a causa da condenação é esta:
a luz veio ao mundo
e os homens amaram mais as trevas do que a luz,
porque eram más as suas obras.
Todo aquele que pratica más acções
odeia a luz e não se aproxima dela,
para que as suas obras não sejam denunciadas.
Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz,
para que as suas obras sejam manifestas,
pois são feitas em Deus.


Ressonâncias

A Quaresma é um tempo oportuno para purificar ideias e atitudes da nossa vida cristã. Muitas vezes somos levados a ter de Deus a imagem de um juiz severo e castigador. A Bíblia sugere-nos uma imagem bem diferente: um Deus Criador e Amigo que dialoga com Adão; um Deus que faz uma Aliança de amizade com o seu povo; um Deus-connosco ("Emanuel") que caminha com o homem; um Deus que liberta e salva; um Deus misericordioso, que perdoa e ama; um Deus que é Pai sempre disposto a acolher o filho pródigo...

O Evangelho de hoje apresenta-nos Deus Nicodemoscomo Salvador e não tanto como juiz. Este texto é a conclusão do diálogo de Jesus com Nicodemos que, nas "trevas da noite", vem falar com Jesus à procura de "Luz", e descreve o projecto de Salvação de Deus: "Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu próprio filho e este não veio para julgar o mundo, mas para salvá-lo". Vida, morte e ressurreição de Jesus é dom gratuito oferecido pelo Pai. A acção suprema de Jesus na cruz, "levantado ao alto", atrai todos os povos à salvação. A referência à serpente de bronze no deserto realça que Deus usa o mesmo instrumento que causa morte para salvar os que estão dispostos a acolher a sua intervenção.

Este texto convida-nos a contemplar essa incrível história de amor: o Amor de Deus oferece ao homem vida plena e definitiva. Aos homens compete aceitar ou não o dom de Deus. Jesus não veio condenar nem excluir ninguém da salvação. Ele é a luz divina enviada ao mundo para mostrar o caminho da verdade e da vida que conduz a Deus. As pessoas podem rejeitar Jesus e a sua missão, permanecendo nas trevas do egoísmo, rejeitando Jesus e a sua missão; ou aceitar Jesus e acolher o seu projecto, deixando-se envolver pela luz da fé e da salvação.

João define o caminho para chegar à vida eterna: crer em Jesus! Não é uma mera adesão intelectual a umas verdades, mas acolher Jesus, O enviado do Pai que veio salvar o homem. Escutá-l'O, aderir à sua mensagem e segui-l'O é tarefa de todo o discípulo. Deixar as trevas e caminhar para a Luz... tudo isto pressupõe arrependimento e conversão de cada um.

E o julgamento final como fica? Muitos imaginam um Deus severo, que vai analisar tudo com rigor até os mínimos detalhes. Seria então Ele um Pai, que ama os bons e os maus, como ensinou Jesus? Segundo São João, o julgamento não é pronunciado por Deus, mas pela escolha que cada um faz diante da Luz de Cristo. " Quem acredita n'Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado [...]. a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz."

Por isso, a decisão no julgamento não é propriamente Deus que o faz, somos nós que escolhemos.
Salvam-se os que praticam a Verdade e se aproximam da "Luz". Condenam-se os que praticam o mal e preferem as "trevas". A salvação é um dom gratuito de Deus oferecido a todos. Tudo depende da nossa aceitação ou não à proposta de Cristo. Cristo quer ser o nosso Salvador, não o nosso Juiz... Qual será a nossa escolha? Preferimos a Luz ou as Trevas?

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Hoje o nosso coração exulta de alegria, Deus nosso Pai, ao sabermo-nos amados por Ti com um amor tão grande que nos torna Teus filhos; a prova que evidencia notícia tão feliz é Jesus, Teu Filho, a partir de agora nosso irmão mais velho e amigo para sempre.

Ele não veio para condenar mas para salvar o homem que Tu amas com amor e com imensa ternura de pai. Faz com que saibamos corresponder como filhos Teus de nobre linhagem.

Obrigado Senhor, porque Tu não és um Deus frio e distante, controlador impávido da máquina do cosmos, mas Pai que nos ama, sempre desvelado pela Tua criatura, o homem.
O segredo do mundo e da nossa existência humana apoia-se no bater do Teu coração que ama. Obrigado, Senhor!


QUEM É BOM

Quem é bom, suporta a ofensa,
quem ama, esquece-a.

Quem é bom, compadece-se,
quem ama, ajuda.

Quem é bom faz o que pode,
quem ama, pode o que parece impossível.Quaresma12

Quem é bom revela os erros,
quem ama, não deixa errar.

Quem é bom ajuda quando está perto,
quem ama, está sempre perto para ajudar.

Quem é bom, atende as necessidades,
quem ama, tem necessidades de atender.

Quem é bom, não faz mal a ninguém,
quem ama, faz o bem a quem faz mal.

Quem é bom, vê as condições para dar,
quem ama, dá sem condições.

Quem é bom, é como Deus o fez,
quem ama, faz como Deus quer.

Quem é bom, às vezes cansa-se,
quem ama, nunca descansa.

Quem é bom, vê o homem que pede,
quem ama, vê no homem Deus que pede.

Quem é bom, também ama,
QUEM AMA, É SEMPRE BOM!

"É preciso amar o próximo com o suor
da fronte e o cansaço dos braços." (S. Vicente de Paulo)


QUARESMA!

Para todos nós que estamos de certo modo habituados a tudo, ao amor, à fé, à solidariedade, a Deus e aos outros e a quem já nada surpreende: Quaresma!

Para todos nós que pensamos saber tudo e nada receber porque fizemos a experiência de todas as coisas: Quaresma!

Para todos nós que estabelecemos o catálogo das pessoas a amar e daqueles a quem desprezar: Quaresma!

Para todos nós que fizemos a lista dos gestos a fazer, dos ritos a executar e das palavras a pronunciar para ser um cristão de bom tom: Quaresma!

Cristo vem arrancar a nossa existência do desgasto e do descalabro.

Com ele, numa caminhada de quarenta dias, o Evangelho ressoa como uma Palavra Nova, uma notícia que quebra as velhas crostas dos nossos comportamentos.

Nele, numa caminhada de quarenta dias, o rosto de Deus aparece-nos e também, misteriosamente, o rosto que o homem é chamado a revestir.

Por ele, numa caminhada pegadasde quarenta dias, cria-se uma relação entre Deus e nós, uma íntima aliança.

Graças a ele, numa caminhada de quarenta dias, o amor de Deus revela-se à nossa admiração.

No final de quarenta dias, espera-se que tudo esteja renovado. Não podemos viver de outro modo senão pondo em prática aquilo que Cristo, nosso irmão quotidiano, nos foi ensinando com a sua vida e morte e com o seu amor.

De facto, a caminhada de quarenta dias marca o início da Ressurreição, pois começa para nós o segundo nascimento.


Queres fazer a leitura camoniana do salmo 136? Experimenta revisitar as célebres redondilhas "Sôbolos rios que vão", em que Camões faz o balanço da sua vida passada projectando o futuro através da superação mística das contingências humanas, com fortes laivos neoplatónicos.

1
Sôbolos rios que vãocamoes1
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

2
Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.

3
E vi que todos os danos
se causavam das mudanças
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

4
Vi aquilo que mais val,
que então se entende milhor
quanto mais perdido for;
vi o bem suceder o mal,
e o mal, muito pior,
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento,
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

5
Bem são rios estas águas,
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.
Como homem que, por exemplo
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou:

6
Assi, despois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: -- Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

7
Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
para onde estáveis, correndo,
e as águas, que iam decendo,
tornavam logo a subir:
jamais vos não ouvirão
os tigres que se amansavam,
e as ovelhas, que pastavam,
das ervas se fartarão
que por vos ouvir deixavam.

8
Já não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florecente;
nem poreis freio à corrente,
e mais, se for dos meus olhos.
Não movereis a espessura,
nem podereis já trazer
atrás vós a fonte pura,
pois não pudeste mover
desconcertos da ventura.

9
Ficareis oferecida
à Fama, que sempre vela,
frauta de mim tão querida;
porque, mudando-se a vida,
se mudam os gostos dela.
Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquidade
aqueles gostos passados.

10
Um gosto que hoje se alcança,
amanhã já o não vejo;
assi nos traz a mudança
de esperança em esperança,
e de desejo em desejo.
Mas em vida tão escassa
que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
que, quanto da vida passa,
está receitando a morte?

11
Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade,
não cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura.
Que idade, tempo, o espanto
de ver quão ligeiro passe,
nunca em mim puderam tanto
que, posto que deixe o canto,
a causa dele deixasse.

12
Mas, em tristezas e nojos,
em gosto e contentamento,
por sol, por neve, por vento,
tendré presente á los ojos
por quien muero tan contento.
Órgãos e frauta deixava,
despojo meu tão querido,
no salgueiro que ali estava
que para troféu ficava
de quem me tinha vencido.

13
Mas lembranças da afeição
que ali cativo me tinha,
me perguntaram então:
que era da música minha
que eu cantava em Sião?
Que foi daquele cantar
das gentes tão celebrado?
Porque o deixava de usar?
Pois sempre ajuda a passar
qualquer trabalho passado.

14
Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso,
por entre o espesso arvoredo;
e, de noite, o temeroso,
cantando, refreia o medo.
Canta o preso docemente
os duros grilhões tocando;
canta o sagador contente;
e o trabalhor, cantando,
o trabalho menos sente.

15
Eu, que estas cousas senti
n'alma, de mágoas tão cheia,
- Como dirá, respondi,
quem alheio está de si
doce canto em terra alheia?
Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu, só, descansos enjeito.

16
Que não parece razão
nem seria cousa idónea,
por abrandar a paixão,
que cantasse em Babilónia
as cantigas de Sião.
Que, quando a muita graveza
de saudade quebrante
esta vital fortaleza,
antes moura de tristeza
que, por abrandá-la, cante.

17
Que se o fino pensamento
só na tristeza consiste,
não tenho medo ao tormento:
que morrer de puro triste,
que maior contentamento?
Nem na frauta cantarei
o que passo, e passei já,
nem menos o escreverei,
porque a pena cansará,
e eu não descansarei.

18
Que, se a vida tão pequena
se acrescenta em terra estranha,
e se amor assi o ordena,
razão é que canse a pena
de escrever pena tamanha.
Porém se, para assentar
o que sente o coração,
a pena já me cansar,
não canse para voar
a memória em Sião.

19
Terra bem-aventurada,
se, por algum movimento,
d'alma me fores mudada,
minha pena seja dada
a perpétuo esquecimento.
A pena deste desterro,
que eu mais desejo esculpida
em pedra, ou em duro ferro,
essa nunca seja ouvida,
em castigo de meu erro.

20
E se eu cantar quiser,
em Babilónia sujeito,
Hierusalém, sem te ver,
a voz, quando a mover,
se me congele no peito.
A minha língua se apegue
às fauces, pois te perdi,
se, enquanto viver assi,
houver tempo em que te negue
ou que me esqueça de ti.

21
Mas ó tu, terra de Glória,
se eu nunca vi tua essência,
como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
senão na reminiscência.
Que a alma é tábua rasa,
que, com a escrita doutrina
celeste, tanto imagina,
que voa da própria casa
e sobe à pátria divina.

22
Não é, logo, a saudade
das terras onde nasceu
a carne, mas é do Céu,
daquela santa Cidade,
donde esta alma descendeu.
E aquela humana figura,
que cá me pode alterar,
não é quem se há-de buscar:
é raio da Fermosura,
que só se deve de amar.

23
Que os olhos e a luz que ateia
o fogo que cá sujeita,
não do sol, mas da candeia,
é sombra daquela Ideia
que em Deus está mais perfeita.
E os que cá me cativaram
são poderosos afeitos
que os corações têm sujeitos;
sofistas que me ensinaram
maus caminhos por direitos.

24
Destes o mando tirano
me obriga, com desatino,
a cantar ao som do dano
cantares de amor profano
por versos de amor divino.
Mas eu, lustrado co santo
Raio, na terra de dor,
de confusão e de espanto,
como hei-de cantar o canto
que só se deve ao Senhor?

25
Tanto pode o benefício
da Graça, que dá saúde,
que ordena que a vida mude;
e o que tomei por vício
me faz grau para a virtude;
e faz que este natural
amor, que tanto se preza,
suba da sombra ao Real,
da particular beleza
para a Beleza geral.

26
Fique logo pendurada
a frauta com que tangi,
ó Hierusalém sagrada,
e tome a lira dourada,
para só cantar de ti.
Não cativo e ferrolhado
na Babilónia infernal,
mas dos vícios desatado,
e cá desta a ti levado,
Pátria minha natural.

27
E se eu mais der a cerviz
a mundanos acidentes,
duros, tiranos e urgentes,
risque-se quanto já fiz
do grão livro dos viventes.
E tomando já na mão
a lira santa e capaz
doutra mais alta invenção,
cale-se esta confusão,
cante-se a visão da paz.

28
Ouça-me o pastor e o Rei,
retumbe este acento santo,
mova-se no mundo espanto,
que do que já mal cantei
a palinódia já canto.
A vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
da alta torre de Sião,
à qual não posso subir,
se me vós não dais a mão.

29
No grão dia singular
que na lira o douto som
Hierusalém celebrar,
lembrai-vos de castigar
os ruins filhos de Edom.
Aqueles que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos co poder vão,
arrasai-os igualmente,
conheçam que humanos são.

30
E aquele poder tão duro
dos afeitos com que venho,
que encendem alma e engenho,
que já me entraram o muro
do livre alvídrio que tenho;
estes, que tão furiosos
gritando vêm a escalar-me,
maus espíritos danosos,
que querem, como forçosos,
do alicerce derrubar-me;

31
Derrubai-os, fiquem sós,
de forças fracos, imbeles,
porque não podemos nós
nem com eles ir a Vós
nem sem Vós tirar-nos deles.
Não basta minha fraqueza
para me dar defensão,
se vós, santo Capitão,
nesta minha fortaleza
não puserdes guarnição.

32
E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tão feia,
toda de misérias cheia,
que mil vezes te levantas,
contra quem te senhoreia:
beato só pode ser
quem, co a ajuda celeste,
contra ti prevalecer,
e te vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste.

33
Quem, com disciplina crua,
se fere que ua vez,
cuja alma, de vícios nua,
faz nódoas na carne sua,
que já a carne n'alma fez.
E beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e em nacendo os afogar,
por não virem a parar
em vícios graves e urgentes.

34
Quem com eles logo der
na pedra do furor santo,
e, batendo, os desfizer
na Pedra, que veio a ser
enfim cabeça do Canto;
quem logo, quando imagina
nos vícios da carne má,
os pensamentos declina
àquela Carne divina
que na Cruz esteve já;

35
Quem do vil contentamento
cá deste mundo visível,
quanto ao homem for possível,
passar logo o entendimento
para o mundo inteligível:
ali achará alegria
em tudo perfeita e cheia
de tão suave harmonia,
que, nem por pouca, recreia,
nem, por sobeja, enfastia.

36
Ali verá tão profundo
mistério na suma Alteza,
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.
Ó tu, divino aposento,
minha pátria singular!
Se só com te imaginar
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?

37
Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tão justo e tão penitente
que, depois de a ti subir
lá descanse eternamente.

Luís de Camões

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