PARÓQUIA S. MIGUEL DE QUEIJAS

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Pascoa16 catequese Cateq2018

Porquê ir à missa aos domingos?

Papa MissaA celebração dominical da Eucaristia está no centro da vida da Igreja (CIC, 2177). Nós, cristãos, vamos à missa ao domingo para encontrar o Senhor ressuscitado, ou melhor, para nos deixar encontrar por Ele, ouvir a sua palavra, alimentarmo-nos à sua mesa, e assim tornarmo-nos Igreja, ou seja, o seu Corpo místico vivo hoje no mundo.

Compreenderam-no, desde a primeira hora, os discípulos de Jesus, que celebraram o encontro eucarístico com o Senhor no dia da semana que os judeus chamavam «o primeiro da semana» e os romanos «dia do Sol», porque nesse Dia ressuscitou dos mortos e apareceu aos discípulos, falando com eles, comendo com eles, dando-lhes o Espírito Santo […]. Também a grande efusão do Espírito no Pentecostes ocorreu no domingo, o quinquagésimo após a ressurreição de Jesus. Por estas razões, o domingo é um dia santo para nós, santificado pela celebração eucarística, presença viva do Senhor entre nós e para nós. É a missa, portanto, que faz o domingo cristão! Que domingo é, para um cristão, aquele em que falta o encontro com o Senhor?

Há comunidades cristãs que, infelizmente, não podem desfrutar da missa todos os domingos; mesmo essas, no entanto, nesse dia santo, são chamadas a recolher-se em oração em nome do Senhor, escutando a Palavra de Deus e mantendo vivo o desejo da Eucaristia.

Algumas sociedades secularizadas perderam o sentido cristão do domingo iluminado pela Eucaristia. (Uma verdadeiro pecado!) Nesses contextos, é necessário reavivar essa consciência, para recuperar o significado da festa – não perder o sentido da celebração –, de alegria, da comunidade paroquial, da solidariedade, do repouso que restaura a alma e o corpo. De todos esses valores é-nos mestra a Eucaristia, domingo após domingo. É por isso que o Concílio Vaticano II quis reiterar que «o domingo é o dia da festa primordial que deve ser proposto e inculcado na piedade dos fiéis, para que também se torne dia de alegria e abstenção do trabalho».

A abstenção dominical do trabalho não existia nos primeiros séculos: é uma contribuição específica do cristianismo. Por tradição bíblica os judeus repousam ao sábado, enquanto na sociedade romana não estava previsto um dia semanal de abstenção do trabalho servil. Foi o sentido cristão de viver como filhos, e não como escravos, animado pela Eucaristia, a fazer do domingo - quase universalmente - o dia do repouso.

Sem Cristo estamos condenados a ser dominados pela fadiga do quotidiano, com as suas preocupações, e pelo medo do amanhã. O encontro dominical com o Senhor dá-nos força para viver hoje com confiança e coragem e para avançar com esperança. É por isso que nós, cristãos, vamos encontrar, ao domingo, o Senhor na celebração eucarística.

A comunhão eucarística com Jesus, ressuscitado e vivo na eternidade, antecipa o domingo sem ocaso, quando não haverá mais fadiga, nem dor, nem luto, nem lágrimas, mas só a alegria de viver plenamente e para sempre com o Senhor. Também deste abençoado repouso nos fala a missa de domingo, ensinando-nos, no fluir da semana, a confiarmo-nos às mãos do Pai que está no céu.

O que podemos responder aos que dizem que não há necessidade de ir à missa, nem mesmo aos domingos, porque o importante é viver bem e amar o próximo? É verdade que a qualidade da vida cristã é medida pela capacidade de amar, como disse Jesus: «Disto todos saberão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros» (Jo 13,35); mas como podemos praticar o Evangelho sem tirar a energia necessária para o fazer, domingo após o outro, na fonte inesgotável da Eucaristia?

Não vamos à missa para dar algo a Deus, mas para receber dele o que realmente precisamos. Recorda-o a oração da Igreja, que assim se dirige para Deus: «Tu não precisas do nosso louvor, mas por um dom do teu amor chamas-nos a dar-te graças; os nossos hinos de bênção não acrescem a tua grandeza, mas obtêm-nos a graça que nos salva» (Missal Romano, Prefácio comum IV).

Em conclusão, porquê ir à missa aos domingos? Não basta responder que é um preceito da Igreja; isso ajuda a preservar o seu valor, mas por si só não chega. Nós, cristãos, precisamos de participar da Missa dominical porque só com a graça de Jesus, com a sua presença viva em nós e entre nós, podemos pôr em prática o seu mandamento, e assim sermos suas testemunhas credíveis.

Papa Francisco
Audiência geral, 13.12.2017

A velhice é um tempo de fecundidade renovada

Papa IdosoAmados irmãos e irmãs!
Dou as boas-vindas a vós que participastes no primeiro Congresso Internacional de Pastoral dos Idosos – “A riqueza dos anos” – organizado pelo Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida; e agradeço ao Cardeal Farrell as suas amáveis palavras.

A “riqueza dos anos” é a riqueza das pessoas, de cada pessoa que tem muitos anos de vida, de experiência e de história. É o tesouro precioso que se forma ao longo da vida de cada homem e mulher, qualquer que seja a sua origem, a sua proveniência, as suas condições económicas ou sociais. Pois a vida é um dom, e quando é longa é um privilégio, para si mesmo e para os outros. Sempre, é sempre assim.

No século XXI, a velhice tornou-se uma das características da humanidade. Em poucas décadas, a pirâmide demográfica — que outrora se baseava num grande número de crianças e jovens e tinha alguns idosos no seu topo — inverteu-se. Se outrora os idosos poderiam povoar um pequeno estado, hoje poderiam povoar um continente inteiro. Neste sentido, a grande presença dos idosos é uma novidade para todos os ambientes sociais e geográficos do mundo. Além disso, a velhice hoje corresponde a diferentes fases da vida: para muitos é a idade em que se interrompe o compromisso produtivo, diminuem as forças e surgem sinais de doença, a necessidade de ajuda e isolamento social; mas para muitos é o início de um longo período de bem-estar psicofísico e de libertação das obrigações laborais.

Em ambas as situações, como viver estes anos? Qual sentido dar a esta fase da vida, que para muitos pode ser longa? A desorientação social e, em muitos aspectos, a indiferença e a rejeição que as nossas sociedades demonstram para com os idosos, chamam não só a Igreja, mas todos, a uma séria reflexão para aprender a compreender e a apreciar o valor da velhice. Na realidade, enquanto, por um lado, os estados têm de lidar com a nova situação demográfica em termos económicos, por outro, a sociedade civil precisa de valores e significados para a terceira e quarta idades. E aqui, acima de tudo, está a contribuição da comunidade eclesial.

Por isso, acolhi com interesse a iniciativa deste congresso, que focalizou a atenção no cuidado pastoral dos idosos e iniciou uma reflexão sobre as implicações de uma presença substancial dos avós nas nossas paróquias e sociedades. Peço-vos que isto não permaneça uma iniciativa isolada, mas marque o início de um caminho de aprofundamento pastoral e de discernimento. Devemos mudar os nossos hábitos pastorais para responder à presença de tantas pessoas idosas nas famílias e comunidades.

Na Bíblia, a longevidade é uma bênção. Confronta-nos com a nossa fragilidade, com a nossa dependência mútua, com os nossos vínculos familiares e comunitários e, sobretudo, com a nossa filiação divina. Concedendo a velhice, Deus Pai dá tempo para aprofundar o conhecimento d’Ele, a intimidade com Ele, para entrar cada vez mais no Seu coração e entregar-se a Ele. Este é o momento de nos prepararmos para entregar o nosso espírito nas suas mãos, definitivamente, com confiança de filhos. Mas é também uma época de renovada fecundidade. «Na velhice ainda darão fruto», diz o salmista (Sl 91, 15). Com efeito, o desígnio de salvação de Deus, também é realizado na pobreza de corpos débeis, estéreis e impotentes. Do ventre estéril de Sara e do corpo centenário de Abraão, nasceu o Povo Eleito (cf. Rm 4,18-20). De Isabel e do idoso Zacarias nasceu João Batista. O idoso, mesmo quando está frágil, pode tornar-se um instrumento da história da salvação.

Consciente deste papel insubstituível das pessoas idosas, a Igreja torna-se um lugar onde as gerações são chamadas a partilhar o desígnio de amor de Deus, numa relação de intercâmbio recíproco dos dons do Espírito Santo. Esta partilha intergeracional obriga-nos a mudar o nosso modo de ver os idosos, a aprender a olhar para o futuro juntamente com eles.

Quando pensamos nos idosos e falamos deles, ainda mais na dimensão pastoral, devemos aprender a mudar um pouco os tempos verbais. Para os idosos não há apenas o passado, como se para eles houvesse apenas uma existência vivida e um arquivo bolorento. Não. O Senhor pode e quer escrever com eles também novas páginas, páginas de santidade, de serviço, de oração... Hoje gostaria de vos dizer que os idosos são ainda o presente e o futuro da Igreja. Sim, eles são também o futuro de uma Igreja que, juntamente com os jovens, profetiza e sonha! Por isso é tão importante que os idosos e os jovens falem uns com os outros.

A profecia dos idosos realiza-se quando a luz do Evangelho entra plenamente nas suas vidas; quando, como Simeão e Ana, tomam Jesus nos seus braços e anunciam a revolução da ternura, a Boa Nova daquele que veio ao mundo para trazer a luz do Pai. Por isso peço-vos que não vos poupeis a proclamar o Evangelho aos avós e aos idosos. Ide ao encontro deles com um sorriso no rosto e o Evangelho nas mãos. Ide pelas ruas das vossas paróquias e procurai os idosos que vivem sozinhos. A velhice não é uma doença, é um privilégio! A solidão pode ser uma doença, mas podemos curá-la com caridade, proximidade e conforto espiritual.

Deus tem uma grande população de avós em todas as partes do mundo. Hoje em dia, nas sociedades secularizadas de muitos países, as atuais gerações de pais não têm, na sua maioria, aquela formação cristã e aquela fé viva que, ao contrário, os avós podem transmitir aos seus netos. Eles são o elo indispensável para educar as crianças e os jovens na fé. Devemos acostumar-nos a incluí-los nos nossos horizontes pastorais e considerá-los, de forma não episódica, como um dos componentes vitais das nossas comunidades. Eles não são apenas pessoas que devemos ajudar e a proteger para preservar a sua vida, mas podem ser atores de uma pastoral evangelizadora, testemunhas privilegiadas do amor fiel de Deus.

Por isso, agradeço a todos vós que dedicais as vossas energias pastorais aos avós e aos idosos. Estou bem consciente de que o vosso empenho e reflexão nascem de uma amizade concreta com muitas pessoas idosas. Espero que aquela que hoje é a sensibilidade de poucos se torne património de toda comunidade eclesial. Não tenhais medo, tomai iniciativas, ajudai os vossos Bispos e Dioceses a promover o serviço pastoral aos idosos e com os idosos. Não desanimeis, ide em frente! O Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida continuará a acompanhar-vos neste trabalho.

Eu também vos acompanho com a minha oração e bênção. E vós, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado!

Papa Francisco
Vaticano, 31 de Janeiro de 2020

Carta aos Sacerdotes

Dom Manuel10Caríssimos irmãos sacerdotes do clero secular e regular, ao serviço do Povo de Deus no Patriarcado de Lisboa:

A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, também dia de oração pela santificação dos sacerdotes, concentra-nos uma vez mais no cerne da nossa vida sacerdotal e pastoral. Tudo reside em Cristo e no seu “coração”, ou seja, no que tem de mais íntimo e determinante, que nos toca também como vocação e ministério.

Detenhamo-nos aqui um pouco. Como os primeiros discípulos, que ficaram com Jesus naquele dia. Logo a seguir, um deles chamou outro e seguiram-se mais (cf. Jo 1, 17 ss). Todos eles viveram do encontro com Cristo. Assim começou a Igreja, precisamente como anúncio e experiência de Cristo vivo e convivente.

Como sucedeu com eles, também sucedeu connosco, sacerdotes de hoje, mais velhos ou mais novos, alcançados por Cristo de modo tão sedutor e forte, que o nosso coração não pretende outra coisa senão anunciar o seu. Nasce aqui a nossa vocação pastoral e celibatária, como entrega à missão e coração indiviso.

Aconteceu há mais ou menos anos, agora como há séculos. Podemos verificar, nas biografias e hagiografias de sacerdotes de muitas latitudes, épocas e culturas, como a motivação profunda é sempre a mesma, que Paulo traduziu assim aos filipenses: «Corro, para ver se o alcanço, já que fui alcançado por Cristo Jesus» (Fl 3, 12). A estrada de Damasco, em que o Ressuscitado o alcançara, abriu-lhe as estradas do mundo, para que todos O alcançassem também.

Para eles e para nós, houve momentos difíceis e tempos conturbados. Outras tantas ocasiões para aprofundar a relação, que sempre cresce na prova. Também sucedeu com Cristo, que não desistiu dos que chamou, mesmo quando o entusiasmo deles arrefeceu. Assim mesmo os recuperou, dando a vida por eles.

Por razões que só Deus sabe, o amor de Cristo tocou-nos fortemente. Ao ponto de fazer de nós sacramentos da sua entrega (sacerdotes) e da sua compaixão (pastores), para bem de todos. Por isso aqui estamos e assim continuamos. Dediquemos algum tempo a lembrar e agradecer quantos nos assinalaram a presença do Ressuscitado e nos fizeram crescer na comunhão com Ele. Imitaram assim aqueles primeiros discípulos, que depois chamaram outros ao primeiro grupo apostólico.

Os últimos meses, marcados pela pandemia que grassou, foram particularmente exigentes para o nosso povo em geral e o nosso ministério em particular. Chamados e formados para acompanhar as comunidades, não o pudemos fazer presencialmente e alguns viveram em isolamento custoso. Superámos como pudemos essa grande limitação, usando os atuais meios de comunicação, com bastante criatividade até. Garantimos catequeses, transmissões eucarísticas e tempos de oração, ações solidárias de vário tipo.

Estamos agora em desconfinamento paulatino, retomando cautelosamente as celebrações e ações comunitárias. Vamos reencontrando o nosso lugar, no lugar de todos. Entretanto, vários me testemunharam como foi importante a companhia de colegas, mesmo por telefone ou internet, ao longo destes meses. Será ótimo se tal continuar, também presencialmente, em oração, partilha e convívio. Rezo muito especialmente por isso, porque o acompanhamento mútuo é indispensável para o bom exercício do ministério. Assim começou com Cristo e os doze e assim aconteceu nos melhores períodos da Igreja.

Podemos também retomar, neste dia de oração pela santificação dos sacerdotes, a belíssima carta do Papa Francisco de 4 de agosto passado, no 160º aniversário da morte do Santo Cura d’Ars. Nela acentua sentimentos essenciais do próprio Coração de Jesus, que hão de ser também nossos: gratidão ao Pai, misericórdia acolhedora, compaixão solidária, vigilância atenta e coragem para prosseguir com todos, colegas e fiéis em geral.

Irmãos e amigos, dou muitas graças a Deus pela vossa vida e ministério, assinalando a presença de Cristo Sacerdote e Pastor no mundo de hoje. O vosso lugar é o seu Coração, «no íntimo do mundo como um fogo», segundo um inspirado verso da nossa Liturgia.

Convosco, em oração e muita estima,
+ Manuel, Cardeal-Patriarca
Lisboa, 18-06-2020

«Vejo o meu Senhor!» Era o dia 13 de junho de 1231

S Antonio22Hoje é dia de Santo António! Olhando para este homem, descobrimos nele um grande modelo de fé que soube pautar a sua vida por uma busca constante de Deus na fidelidade ao seu chamamento; um grande evangelizador apaixonado pela verdade e justiça; um homem de coração grande, atento dificuldades das famílias, dos pobres e desfavorecidos.

Filho de ricos comerciantes, Fernando Martins de Bulhões, nasceu em Lisboa, entre 1191 e 1195. Viveu os primeiros anos a dois passos da Sé de Lisboa, onde frequentou a Escola da Catedral. Aos 15 anos entrou no Mosteiro de S. Vicente de Fora, vindo a terminar a sua formação académica no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde foi ordenado Sacerdote, após uma formação séria, cuidadosa e empenhada no conhecimento das Sagradas Escrituras e da Tradição da Igreja.

Em Coimbra vai também conhecer uma comunidade de frades franciscanos que viviam no eremitério de Santo Antão dos Olivais. Receberá depois a notícia que cinco deles estão de passagem a caminho de Marrocos, onde – em 16 de Janeiro de 1220 – serão barbaramente martirizados.

Este acontecimento impressionou tanto o jovem Fernando de Bulhões, que decidiu tornar-se discípulo de Francisco de Assis, seguindo o seu ideal de simplicidade e pobreza. Desejava partir para Marrocos como missionário, redimindo assim a vida daqueles jovens mártires. Fez-se franciscano, recebeu o nome de António e partiu em 1220 para aquele território do norte de África. A doença obrigou-o a regressar a Portugal. O navio que o trazia para Lisboa, devido a uma violenta tempestade, foi desviado para a Sicília, onde irá naufragar, e onde será acolhido por irmãos franciscanos de Messina. Estávamos no começo da primavera de 1221.

Agora, na península itálica, peregrina até Assis, onde vai participar no Capítulo Geral e conhecer Francisco de Assis. É convidado, depois, a integrar a comunidade do eremitério de Montepaolo, perto de Forli – no Norte de Itália, todavia, desejando preservar a sua humildade, António nunca divulgou seus conhecimentos.Antonio22

Em setembro de 1222, os irmãos Dominicanos de Forli convidaram os irmãos Franciscanos para participarem numa cerimónia das Ordenações sacerdotais naquele convento. A determinado momento, o superior dos Dominicanos dirigiu-se aos irmãos Franciscanos, a fim de que um deles usasse da palavra. O Superior do eremitério solicitou, então, ao irmão António que subisse ao púlpito e que dissesse tudo o que lhe fosse sugerido pelo Espírito Santo. A sua sábia intervenção impressionou tanto os presentes, que rapidamente a notícia percorreu toda a região norte da Itália, sendo imediatamente nomeado pregador oficial dos Franciscanos, director de estudos e professor de teologia. Foi Francisco de Assis, que tanto admirou as suas qualidades de sabedoria e sentido missionário, que quis que fosse ele o seu sucessor na orientação da Ordem a que propôs chamar “Frades Menores”.

Foi uma autêntica voz profética no anúncio do Evangelho nos territórios a norte da península itálica e no sul da França, fazendo pontes de comunhão na catolicidade e na verdade.

Enfrentou com firmeza, respeito e mansidão as heresias da época entre os Cátaros e Albigenses, que renovavam as antigas correntes gnósticas e maniqueístas. Com a sua pregação, irá defrontá-los, procurando contrapor-se às suas doutrinas. O conhecimento profundo da Sagrada Escritura deu às suas palavras uma autoridade invulgar, lançando no coração dos ouvintes a solidez do Evangelho. Contra as novas correntes do priscilianismo, defendeu a santidade do matrimónio e a presença real e verdadeira de Cristo no Santíssimo Sacramento.

Testemunhou uma fé comprometida e atuante ao lutar pela aprovação da lei que eliminava a escravidão por dívidas, combatendo também a elevada usura dos banqueiros que exploravam os pobres. A sua pregação era para dar a conhecer a palavra de Deus e ajudar não só a compreendê-la mas a vivê-la, aplicando-a à vida dos seus ouvintes. Este grande homem de Deus, pela forma crítica e assertiva como falava, tornou-se num grande pregador popular, um arauto da Palavra que apelava à conversão de vida, à restauração dos costumes e à vivência da caridade e da justiça evangélicas.

O seu perfil de missionário itinerante, que ia ao encontro das periferias, aponta-nos também a urgência do caminho traçado pelo Papa Francisco para uma Igreja em saída. Fiéis aos sinais dos tempos, somos todos chamados a actualizar a presença de Cristo, Bom Pastor, o enviado do Pai das misericórdias, para salvar e libertar, gerando e fazendo acontecer o Reino de justiça, amor, paz e fraternidade.

Que Santo António fortaleça e ilumine nossa fé, empenhando-nos no anúncio do Evangelho, em comunhão com os anseios do Papa Francisco.

Pe. Alexandre Santos


O Pe. António Vieira pregou, em Roma, três sermões na Igreja de Santo António dos Portugueses. No primeiro desses sermões, encontramos este início, inspirado na passagem bíblica de Mt 5, 14-16: "Vós sois a luz do mundo":

A um português italiano, e a um italiano português, celebra hoje Itália e Portugal. Portugal a Santo António de Lisboa, Itália a Santo António de Pádua. De Lisboa, porque lhe deu o nascimento; de Pádua, porque lhe deu a sepultura… Reparai, diz o evangelista, que António foi luz do mundo. Foi luz do mundo? Não tem logo que se queixar Portugal. Se António não nascera para o Sol, tivera a sepultura onde teve o nascimento; mas como Deus o criou para luz do mundo, nascer numa parte e sepultar-se noutra é obrigação do Sol. Profetizando Malaquias o nascimento de Cristo, diz que nasceria como sol de justiça. E que fez Cristo como sol, e como justo? Como sol mudou os horizontes, como justo deu a cada um o seu. Como sol mudou os horizontes, porque nasceu num lugar e morreu noutro: como justo deu a cada um o seu, porque a Belém honrou com o berço, a Jerusalém com o sepulcro. Assim também Santo António. Se Lisboa foi a aurora do seu oriente, seja Pádua a sepultura do seu ocaso”.

(Pe. António Vieira, Sermões de Roma, ed. Difel, 2009, p. 189-190).

António, o mais popular de todos os santos

S AntonioSanto António é um santo de projeção universal, sendo, muito provavelmente, o mais popular de todos os santos. Igrejas e capelas dedicadas a Santo António, imagens em grande parte das igrejas e nas casas particulares, azulejos e pinturas, cânticos, festas e peregrinações dão ideia da grande devoção popular a Santo António, que hoje atravessa todas as idades e todas as classes sociais, em todo o mundo.

De cónego Agostiniano a frade Franciscano
A vida de Santo António é muito conhecida, uma vez que vários estudos de relevo lhe têm sido dedicado, pelo que nos limitaremos a alguns traços ligeiros, que nos parecem mais significativos para compreendermos a afeição popular por este Santo.

António é um intelectual do seu tempo e o Primeiro Doutor da Ordem Franciscana. Mas esta qualidade é pouco conhecida pelo povo, apesar de ter sido declarado Doutor da Igreja, em 1946, mediante a bula Exulta, Lusitania felix, de Pio XII.

Filho de ricos comerciantes portugueses, recebeu no Batismo o nome de Fernando Martins de Bulhões. Nasceu em Lisboa, entre 1191 e 1195, cerca de 50 anos depois do nascimento da nação portuguesa e no decurso da reconquista cristã do território ao domínio muçulmano. A sua história deve ser vista nesse ambiente de expulsão dos muçulmanos e, ao mesmo tempo, de emergência de uma nova nação. Vive os primeiros anos da sua vida a dois passos da Catedral de Lisboa, onde frequentou os primeiros estudos, nas aulas de Gramática. Próximo dali, a cerca de um quilómetro, fica o Mosteiro de São Vicente de Fora, dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Com cerca de 15 anos de idade, Fernando pediu aos pais que o deixem entrar no Mosteiro e aí fez o noviciado. Depois, cerca dos 19 ou 20 anos, foi terminar a sua formação intelectual em Santa Cruz de Coimbra, onde foi Ordenado Sacerdote.

Em Coimbra teve a oportunidade de conhecer os Frades Menores de São Francisco, que viviam no eremitério de Santo Antão, nos Olivais, sobre uma colina, a Nordeste da cidade. Por essa altura, passaram por Portugal a cominho de Marrocos, cinco Frades Franciscanos, para aí pregarem a fé cristã. Mal recebidos em Marrocos, acabaram por ser barbaramente martirizados.

Este facto foi crucial no despertar da vocação franciscana em Fernando de Bulhões. A passagem solene, pelas ruas da cidade de Coimbra, dos corpos dos cinco Frades martirizados em Marrocos, fez nascer nele o mesmo ideal. Podemos dizer que, nesse dia, o desejo de encontrar a morte pelo martírio desprendeu-o de tudo: das suas raízes, da sua vocação monástica e da quietude do Mosteiro, dos estudos, da ciência. Tinha cerca de 30 anos. Pediu para entrar na Ordem dos Frades Menores e aí recebeu o nome de António, sendo-lhe concedida imediata permissão para partir para o norte de África.
Aí desembarcou, no inverno de 1220. Mas, uma persistente doença obrigou-o a voltar para a Portugal. No regresso, o navio que do Norte de África vinha para Lisboa, foi desviado por uma violenta tempestade e foi parar às costas da Sicília, na Itália. Estávamos no começo da primavera de 1221. O religioso português foi recolhido pelos seus irmãos Franciscanos italianos, que o levaram para a cidade de Messina, devolvendo-lhe, com os seus cuidados, a saúde corporal.

S Antonio1No final de maio, desse mesmo ano, realizava-se em Assis o Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores, para o qual todos os religiosos eram convidados. Foi aí que António conheceu Francisco de Assis. Terminado o Capítulo, seguiu para o pequeno eremitério de Montepaolo, perto de Forli, no Norte de Itália, onde estavam seis Frades. É-lhe dado o encargo de presidir à celebração da Santa Missa para os seus irmãos e ajudar nos trabalhos domésticos. Desejando preservar a humildade, António nunca revelou seus conhecimentos e raramente era visto com livros, além do breviário e do missal.

Na cidade de Forli havia um convento de estudos da Ordem de São Domingos. Em setembro de 1222, os Dominicanos convidaram os Franciscanos para participarem na cerimónia das Ordenações sacerdotais naquele convento. Na hora própria, o superior dos Dominicanos dirige-se aos Franciscanos, a fim de que um deles fizesse a pregação. O Superior do eremitério de Montepaolo pede ao irmão António que suba ao púlpito e diga «tudo o que lhe seja sugerido pelo Espírito Santo». As primeiras palavras foram simples, mas, em seguida, tornam-se firmes, seguras e convincentes, a ponto de impressionarem todos os presentes. A notícia deste facto percorreu toda a região e, em pouco tempo, António foi nomeado pregador oficial da Ordem.

Na época de António, desenvolveram-se alguns movimentos heréticos, entre os quais estavam os Cátaros, isto é, puros, e os Albigenses, que renovavam as antigas correntes gnósticas e maniqueístas. Com a sua pregação, António irá defrontá-los, procurando contrapor-se às suas doutrinas. O conhecimento profundo das Escrituras dava às suas palavras uma autoridade invulgar, lançando no coração de ouvintes raízes tão fundas, que a todos arrebatava e reconduzia à verdade. Tanto pregou no Norte da Itália, como no sul da França, onde se destacam Montpellier, Le Puy, Arles, Toulouse, Limoges, Bourges, entre outras cidades.

O seu ofício de pregador valeu-lhe o título de «Arca do Testamento», mas António foi também diretor de estudos e professor de teologia. Segundo algumas fontes, o próprio São Francisco o teria incumbido dessas funções. Em Bolonha fundou e dirigiu a primeira escola da Ordem Franciscana.

As suas biografias mais seguras, ocultam-nos pormenores acerca deste período da vida do pregador António. Só no fim do século XIII, D. Jean Rigaud, bispo da Bretanha, procurou ordenar os factos lendários preenchendo as lacunas da vida do Santo. Desta forma, a fama de Taumaturgo provém sobretudo dos escritos deste bispo, que ficaram conhecidos com o nome de «Rigaldina».

Em 1226, foi nomeado Custódio dos Frades Menores da região de Limoges e, em 1227, é nomeado Superior Maior da província da Romagna, que abrangia todo o norte da Itália. António exerce esse cargo até maio de 1230 e segue para Pádua, pregando sucessivamente nas 55 igrejas da região. Em fins de 1231, com a saúde muito abalada, António retira-se para o castelo de Camposampiero, próximo de Pádua. Ali, escreve e revê os seus Sermões, dedicando longas horas à meditação espiritual.

Um dia, estando em Camposampiero, sente-se mal à mesa e pede a um dos irmãos que o leve imediatamente para Pádua. No caminho, sentido-se desfalecer, teve de ficar no mosteiro das clarissas, em Arcella. António só tem tempo para se confessar e receber a unção. Morreu dizendo: «Vejo o meu Senhor». Era o dia 13 de junho de 1231. (...)

A paixão popular por Santo António
Depois de ter dado a conhecer os seus dotes oratórios em Forli, António dedicou o resto da sua vida, quase sempre, à pregação popular, atraindo sobre si, a atenção de todo o povo. Três elementos explicam o seu sucesso: em primeiro lugar, o fascínio da sua santidade e autoridade moral; em segundo lugar, a extensão e profundidade da sua cultura, acompanhada por um invulgar poder de comunicação, segundo as regras da Retórica do seu tempo; e, em terceiro lugar, a sua magnífica figura física.

O testemunho da «Primeira Legenda» reforça a fama do pregador ímpar, dizendo que:
«Homens de todas as condições, classes e idades alegravam-se de ter recebido dele ensinos apropriados à sua vida».

A propósito da última Quaresma pregada em Pádua, informa-nos que:
«Vinham multidões quase inumeráveis de ambos os sexos das cidades, castelos e aldeias de à volta de Pádua, todos sequiosos de ouvir com a maior devoção a palavra de vida». Mais adiante: «Estavam presentes velhos, acorriam jovens, homens e mulheres, de todas as idades e condições, vestidos como se fossem religiosos, o próprio Bispo de Pádua [Tiago de Corrado] e o seu clero».

Segundo a mesma «Legenda Prima», chegavam a reunir-se, para escutar o Santo, «perto de trinta mil homens», todos no mais respeitoso silêncio, de «ânimo suspenso e de orelha virada para aquele que falava». «Os negociantes fechavam o comércio e só o reabriam depois de terminada a pregação».

O resultado de tal pregação na última Quaresma da sua vida terrena vem assim descrito no capítulo 13 da legenda «Assidua»:
«Tentava reconduzir à paz fraterna aqueles em que reinava o ódio»
«lutava pela restituição de usuras e de bens obtidos por violência»
«afastava as prostitutas do seu infamante modo de vida»
«convencia os ladrões famosos pelos seus malefícios a não tocarem no alheio».

O nascimento de um santo
Dada a sua fama de santidade, no dia da sua morte, todos queriam fazer-se guardas dos restos mortais. As freiras Clarissas do Mosteiro onde morreu, de acordo com os Franciscanos de Arcella, tentaram ocultar o seu falecimento. Mas, as crianças de Arcella, ao saberem da notícia, saíram por todos os lados a gritar: «Morreu o Santo! Morreu o padre Santo». O povo da região acorreu todo a Arcella. Como a última vontade do Santo tinha sido ir para Pádua, o seu corpo acabou por ser para aí conduzido, 4 dias depois da sua morte, no dia 17 de junho de 1231, que era uma Terça-feira.

A devoção por aquele homem, verdadeiramente eleito pelo Céu, era geral. Todos queriam estar junto, tocar de alguma forma o corpo de António, já canonizado pelo povo em vida e logo nos primeiros dias após a sua morte. Dizem os biógrafos que os primeiros milagres surgem no dia do enterro, em Pádua. Nos dias seguintes, toda a gente se encaminha para o túmulo do bem-aventurado António, de pés descalços, a fim de obterem graças do céu por seu intermédio. «Acorrem os venezianos, apressam-se os tervisinos, notam-se pessoas de Vicenza, lombardos, eslavónios, da Aquileia, teutónicos, húngaros». Este é o primeiro mapa do culto antoniano.

Os populares de Pádua, representados pelas autoridades civis e religiosos, apresentaram na Cúria Pontifícia, então em Rieti, uma delegação a pedir a canonização do irmão António. O processo foi aberto no início de julho de 1231, ainda não tinha passado um mês da morte do Servo de Deus. E a cerimónia de canonização ocorreu no dia 30 de maio de 1232, solenidade do Pentecostes, na catedral de Espoleto. Em menos de um ano o processo ficou concluído. O nome de António foi inscrito no catálogo dos Santos, pela bula da canonização Cum dicat Dominus, que manda celebrar a sua festa todos os anos, no dia 13 de junho.

A devoção espalha-se por todo o mundo
O fascínio exercido por António durante a sua vida terrena como pregador itinerante, sábio e santo espalhou-se após a sua morte e canonização, sobretudo na Itália do Norte e na França do Sul. No entanto, este fenómeno levou dois séculos a atingir o resto da cristandade. Além dos paduanos, Santo António começou por ser venerado, pela Europa, nos conventos, eremitérios e igrejas onde os Frades Menores estavam estabelecidos. A Portugal a fama da sua santidade só chegou depois da sua canonização. Mas conta-se nas «Florinhas de Santo António» que no mesmo dia em que o Papa Gregório IX canonizava Santo António em Itália, em Lisboa os sinos de toda a cidade tocaram, sem que ninguém os estivesse a tanger. Pouco tempo depois, a notícia chegou à capital portuguesa e a cidade dedicou a Santo António o Altar-mor da Catedral e começou a celebrar-se todos os anos com grande solenidade o dia 13 de junho.

Assim, durante os séculos XIII e XIV, Santo António é venerado em Lisboa, sua cidade natal e nalguns mosteiros portugueses dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, com os quais estudou e viveu, professando a mesma forma de vida, antes de se fazer Franciscano. É venerado também na diocese de Pádua e nas igrejas franciscanas, um pouco por todo o lado.

No século XV, o movimento dos espirituais, que se emancipava dentro da Ordem dos Frades Menores, levou Santo António para outros lugares da Europa, onde ainda não era conhecido, o que contribuiu decisivamente para aumentar o culto e veneração a este Santo. Nos séculos XVI, XVII e XVIII, as viagens marítimas dos navegadores portugueses, espanhóis e italianos levaram a sua fama às terras de África, América e Ásia. Normalmente as expedições marítimas contavam com a presença de alguns missionários, que, quando eram Franciscanos, se encarregaram de implantar a devoção antoniana nas terras onde desembarcavam.

O aparecimento da imprensa não só veio contribuir para a divulgação em larga escala da sua vida. As pinturas e esculturas dos artistas mais célebres foram reproduzidas em gravuras e, multiplicadas aos milhares, eram distribuídas nos santuários antonianos mais importantes, para responderem ao desejo dos devotos.

Por ocasião das comemorações do sétimo centenário, na última década do século XIX, Santo António atinge o máximo da sua popularidade. Nesta ocasião, para além das outras manifestações de piedade começou a sublinhar-se o aspeto social do Santo. A bênção do pão de Santo António e a sua distribuição aos pobres generaliza-se por todos os países, o que faz com que quase todas as representações do Santo feitas no século XX o apresentem com um Alforge de pão para distribuir aos pobres, embora conservem outros símbolos tradicionais.

Iconografia antoniana
(...) Desde as primeiras imagens realizadas, Santo António sempre foi representado vestido de franciscano, quase sempre de pé. Mas, para não se confundir com São Francisco de Assis, igualmente vestido de hábito castanho e cuja devoção estava largamente difundida, a sua face surgia quase sempre como a de um jovem, alegre ou pensativo, sem barba. Na mão esquerda costuma ter um livro, como alusão à sua vasta sabedoria, enquanto a mão direita faz um gesto explicativo, como alusão ao pregador. Noutras imagens, na mão direita é colocado um lírio, sugerindo a pureza e castidade; ou uma cruz, símbolo da fidelidade a Cristo. Também aparece com uma chama de fogo na mão direita, símbolo da caridade; ou um coração, com ou sem chama, para nos lembrar que, apesar de franciscano, ele é um discípulo de Santo Agostinho de Hipona. O Menino Jesus, expressão do seu amor por Deus Menino - que uma tradição antiga diz lhe ter aparecido em Camposampiero pouco antes da sua morte - começa a surgir na iconografia antoniana no século XV. A figura do menino foi tão bem aceite que, a partir de então, Santo António nunca mais a dispensou, obrigando os artistas a verdadeiros exercícios de equilibrismo, fazendo sentar o menino sobre o livro que Santo António também não gosta de esquecer. Em Portugal, o Santo também aparece vestido com o hábito de Cónego Regrante de Santo Agostinho. Na Bélgica algumas representações de Santo António salientam o seu caráter sacerdotal, apresentando-o vestido com os paramentos da Eucaristia.

Devoção antoniana em Portugal
(...) Muitas fachadas das casas têm um painel de azulejos com a sua imagem. Como protetor das famílias, aparece dentro das casas, sobre pequenos altares, acompanhado de velas e flores. Nos estabelecimentos comerciais, é frequente encontrarmos o Santo, em lugar de destaque, dentro dos mercados, dos comércios, das farmácias, das padarias, drogarias, entre outros. Aqui ele vela pelos bons negócios dos seus proprietários. Entre os marinheiros portugueses, sobretudo os da região de Lisboa, tornou-se comum levarem uma imagem do Santo António na embarcação, para os proteger contra as forças marítimas, talvez, por ele ter sido vítima de uma tempestade, que o empurrou para as costas da Sicília. Em séculos passados, perante o perigo, ao mesmo tempo que o invocavam, esses marinheiros mergulhavam a sua imagem de cabeça para baixo, para serem mais rapidamente atendidos.

Portanto, todo o país conhece Santo António e ele está presente, de um modo geral, na vida eclesial, social e pessoal portuguesa, como patrono de Paróquias, Províncias Religiosas, casas religiosas, edifício públicos, casas particulares, avenidas, ruas, praças, terrenos agrícolas, embarcações, etc. A sua imagem figurava já numa coleção de selos de 1895, em comemoração do 7º centenário do seu nascimento e circulou em Portugal uma nota de 20 escudos, com o seu busto e a Casa-Igreja de Santo António, em Lisboa.

Muitas são também as pessoas que adotam o seu nome para batizarem os filhos, confiando-os à sua proteção durante toda a vida. Esta tendência criou raízes no século XVI, uma vez que, na Idade Média, o nome «António» era muito pouco utilizado. Na região de influência do Mosteiro de Alcobaça, por exemplo, por o nome «António» passou a ser o nome masculino mais comum nesse tempo, surgindo também o antropónimo feminino, «Antónia», para as meninas. A este facto, não é alheia a transformação da casa dos pais de Santo António em Igreja, no século XV, o que a tornou imediatamente um lugar de peregrinação, não só para os lisboetas, mas, a pouco e pouco, para todo o país.

No terramoto de 1755, a Casa-Igreja de Santo António foi destruída, salvando-se apenas a imagem do Santo e a cripta, onde se conserva o lugar que dizem ter sido o quarto de Santo António. A reconstrução que se seguiu deu lugar à Basílica atual, que conserva uma passagem, através da sacristia, para o quarto do Santo, no piso inferior. (...) Em Lisboa, em paralelo com a relíquia, mais que a imagem do Santo, é venerado este espaço simbólico, de dimensões reduzidas. A esse local acorrem, durante todo o ano, milhares de peregrinos e turistas curiosos, vindos de todo o mundo.

A imagem de Santo António está presente em quase todas as igrejas portuguesas, as quais, quando o não têm como patrono, lhe dedicam um altar. Normalmente a festa do dia 13 de junho não é esquecida e onde não se criou essa tradição, a imagem do Santo é integrada nas procissões e festas principais das paróquias. (...)

Outras peculiaridades da devoção antoniana
Em Portugal, como em todo o mundo, considera-se Santo António extraordinário advogado das coisas perdidas. A devoção enraíza-se no poeta músico Frei Juliano de Espira, que cerca de 1235, compôs o ofício litúrgico de Santo António e nele deixa ler o célebre responsório: Si quaeris miracula (Se milagres quereis).

Desde há um século a esta parte, Santo António tornou-se um especial advogado de bons casamentos. Como santo casamenteiro, «não admira, pois, que a principal clientela de devotos de Santo António se recrute entre o elemento feminino: raparigas solteiras à espera de noivo, mulheres solteironas desesperadas para o encontrar, ou viúvas não querendo ficar esquecidas, e até as casadas [...], na esperança de fazerem voltar um marido infiel, ou afastar uma concorrente indesejável». A deduzir de afirmações de vários estudiosos, esta faceta antoniana é exclusiva do mundo lusitano. Antigamente, quando uma moça queria encontrar um noivo, colocava o seu pedido num papel debaixo da imagem, que tinha no altar lá em casa. Se o Santo demorasse muito, ou se o noivo não lhe agradasse, virava o Santo para a parede, até que o noivo fosse o desejado.

Uma das características singulares da figura de Santo António em Portugal, que se estendeu a alguns países de língua e influência portuguesa, é a sua carreira militar. Durante as guerras da restauração da independência, Santo António foi várias vezes invocado para se obter a vitória face aos exércitos espanhóis. Em 1688, assentou praça no 2º Regimento de Infantaria, em Lagos, por alvará de D. Pedro II. Em 1683, foi promovido a Capitão, em atenção aos seus bons serviços militares, sendo-lhe atribuído um salário de dez mil reis. Em 1814, no contexto das invasões francesas, D. João VI promoveu-o a Tenente-Coronel de Infantaria. Nesta época, a carreira militar de Santo António estendeu-se de Portugal ao Brasil, a Angola, a Moçambique, à Índia, a Macau e a Timor Leste. Ainda hoje, nestes países, Santo António é conhecido como militar de carreira.

Existem, em Portugal, várias Associações Antonianas e irmandades, com fins sócio-caritativos, promovendo a assistência aos pobres e orfanatos. As irmandades de inspiração antoniana são hoje formas vivas e articuladas de devoção. No que diz respeito à sua origem, cada uma delas tem a sua história particular de piedade. Mas, no que diz respeito à finalidade, todas elas convergem em quatro pontos: são sociedades que promovem a mútua ajuda entre os seus membros; o socorro dos pobres; a promoção espiritual e moral dos associados, através de práticas religiosas e do testemunho pelo exemplo e boas obras e a difusão do culto a Santo António. (...)

Acácio Sanches, SNPC, 12-06-2013
https://www.snpcultura.org/antonio_o_mais_popular_de_todos_os_santos.html

 

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