PARÓQUIA S. MIGUEL DE QUEIJAS

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Carta aos diocesanos de Lisboa 2021-22

D Manuel21Carta aos diocesanos de Lisboa, no início do ano pastoral 

Caríssimos irmãos e irmãs do Patriarcado de Lisboa
1. É com muita proximidade e estima que vos saúdo no início do novo ano pastoral de 2021-22. Com os irmãos Bispos que comigo servem a Diocese, desejo que vos traga muitas oportunidades de crescimento na fé e na caridade de Cristo, em convivência fraterna e corresponsabilidade missionária. E especialmente agora, quando participamos responsavelmente no esforço da sociedade em geral para debelar a pandemia e garantir um bom futuro, que só o será se for realmente para todos.

O Documento final da caminhada sinodal de Lisboa (2014-2021), a que podeis aceder facilmente no “site” do Patriarcado, enumera no seu número 20 algumas “opções pastorais prioritárias” que devemos ter muito em conta. Proponho mesmo que nas reuniões que fizermos nesta altura com os colaboradores pastorais mais diretos, das paróquias e vigararias aos movimentos e grupos, se releia este número do Documento, no sentido de concretizar tais opções, conforme cada local ou setor. Na verdade, resume muito do que se pensou e ensaiou ao longo da caminhada sinodal, enriquecida com a colaboração e a oração de milhares de diocesanos – no próximo número da Vida Católica podereis ler quanto se refere à fase de receção do nosso Sínodo.

2. A primeira alínea das referidas opções pastorais indica precisamente «dar continuidade ao processo de receção da Constituição Sinodal de Lisboa, promovendo dinâmicas sinodais…».

É também o melhor modo de correspondermos ao que o Papa Francisco nos pede em ordem ao próximo Sínodo dos Bispos, que versará a sinodalidade na Igreja. Não encontraríamos melhor modo de contribuir para tal objetivo do que partilharmos as conclusões do que fizemos e projetámos durante os últimos sete anos. E assim faremos certamente.

As opções pastorais prioritárias selecionadas pelo nosso caminho sinodal sublinham, com a “promoção de dinâmicas sinodais”, a “pastoral juvenil e universitária”, a “resposta aos desafios que enfrentam as IPSS”, a “pertinência da constituição de unidades pastorais”, e “proporcionar verdadeiras experiências de anúncio do Evangelho no contexto da preparação e vivência da JMJ 2023”. A promoção de dinâmicas sinodais é transversal a todas as opções.

Não poderia ser doutro modo, pois é assim que Deus vive e atua - do Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Foi também assim que Jesus atuou, chamando e enviando discípulos, cuja unidade garantiu a autenticidade cristã do que foram e fizeram, como agora acontecerá connosco. Educar para conviver e agir “sinodalmente” é parte essencial da iniciação cristã e da vida eclesial no seu todo.

Conselhos pastorais e económicos, paróquia a paróquia e a nível diocesano, que realmente se estabeleçam e corretamente funcionem; encontros vicariais de ministros ordenados e de ministérios e serviços laicais: tudo isto é prioritário, como o nosso Sínodo realçou e muito importa cumprir.

Por vezes, a urgência das respostas a dar e dos objetivos a atingir pode apressar em termos individuais o que devíamos realizar ouvindo e caminhando com os outros. Mas isso será trazer para o âmbito eclesial o que é da vida corrente, mais do que da vida cristã propriamente dita. Bem pelo contrário, o incremento da sinodalidade em todos os âmbitos da vida da Igreja, comunidade a comunidade e das vigararias à diocese, é indispensável para nos evangelizarmos na ação.

Alguém lembrou já que “o mais importante de qualquer reunião é a própria reunião”, se for momento verdadeiramente eclesial, de reconhecimento mútuo e escuta atenta de cada um. Daí mesmo, e começando todos por escutar a Deus, sairá algo de evangelizador e criativo, como inúmeras passagens bíblicas nos repetem.

3. A pastoral juvenil e universitária é a segunda alínea das “opções prioritárias” que o nosso Sínodo indicou, propondo a criação de espaços de referência para o desenvolvimento espiritual e o acompanhamento vocacional e mútuo. Tudo o que respeita a este setor da pastoral tem especial acuidade no horizonte cada vez mais próximo da Jornada Mundial da Juventude, que é muito mais do que um evento a acontecer: é um processo em curso e criador de bom futuro.

Como já partilhei, a principal motivação que me levou a propor ao Papa Francisco a realização da JMJ em Lisboa proveio das realidades juvenis católicas, com várias interligações eclesiais (movimentos, dioceses, paróquias, institutos religiosos e seculares), que me sugeriram fazê-lo. Quem reparar no que vem acontecendo com Missões País, Núcleos de Estudantes Católicos, Campos de Férias e iniciativas de voluntariado juvenil, apercebe-se do grande potencial evangelizador que contêm. Ligam-se também a movimentos juvenis e universitários em cujos centros e espaços de referência se atingem os objetivos de formação cristã, acompanhamento espiritual e discernimento vocacional, com fruto comprovado. Contamos particularmente com o Escutismo Católico (CNE), que em 2023 completará o seu centenário em Portugal.

Tudo isto se pode e deve incrementar, rumo à JMJ, como já vai acontecendo nos encontros do dia 23 de cada mês e com iniciativas missionárias que motivam a participação. Irão também aumentando os pedidos de colaboração à medida do tempo que se acelera. Momento alto será certamente a próxima Solenidade de Cristo Rei (21 de novembro) – Dia Diocesano da Juventude. Aliás, a última alínea das opções pastorais prioritárias que o nosso Sínodo deixou refere-se precisamente a experiências de anúncio do Evangelho no contexto da preparação e vivência da JMJ 2023. Com os jovens e para nos rejuvenescer evangelicamente a todos.

4. É também sinodalmente, que poderemos responder aos “desafios que enfrentam as IPSS”, quer as que “são da Igreja” quer aquelas em que também “está a Igreja”, porque nelas estão cristãos.

Além do setor público e do privado, o setor social em que se inserem as IPSS respondeu prontamente a muitas necessidades que a pandemia trouxe ou agravou. Dou graças a Deus por tanto bem que se fez através delas. Mas isto mesmo nos leva a redobrar esforços para as defender e fortalecer, como para evidenciar diante das entidades públicas e da população em geral que a existência e o bom funcionamento das IPSS são essenciais para desenvolver sentimentos e práticas que nos constituam somo “sociedade” propriamente dita.

Criámos na diocese a Federação Solicitude, para melhor atingirmos tal objetivo e verifico com gratidão e agrado que vai prosseguindo o seu bom caminho, aliás não exclusivo no vasto campo da entreajuda institucional. Importa muito que as comunidades, paroquiais e outras, sintam que as instituições sociocaritativas também são “suas” e lhes requerem a devida colaboração. Não está em causa a autonomia institucional que justamente têm, mas não se esquece a motivação comum que a todos nos liga. Centros Sociais Paroquiais e Cáritas (diocesana e paroquiais), Conferências Vicentinas e Misericórdias, Lares e muitas outras iniciativas solidárias: a tudo devemos interesse e apoio.

5. Outra opção pastoral indicada pelo Sínodo diocesano refere-se à pertinência da constituição de unidades pastorais, integrando as diversas realidades eclesiais, com maior interligação de entidades e clareza de gestão.

Por “unidade pastoral” não se entende meramente o facto de várias comunidades e instituições poderem estar confiadas a um ou mais ministros ordenados. Pretende-se, isso sim, que as paróquias e realidades eclesiais presentes em determinado espaço territorial ou sociocultural colaborem realmente na definição e prossecução de objetivos pastorais comuns. Colaboração que envolve certamente a padres e diáconos, mas não menos os fiéis leigos e os consagrados ali presentes e atuantes, tanto no que respeita à Palavra de Deus e à Catequese, como na Liturgia e na ação sociocaritativa.

Alguma coisa se fez já nesse sentido – Missões Vicariais e Semanas Vicariais da Caridade, por exemplo, bem como muitos encontros de formação para fiéis de várias paróquias ou para a preparação de batismos e matrimónios – e por aqui havemos de prosseguir. Tanto mais quanto a urbanização generalizada faz com que a vida em geral também aconteça cada vez mais assim, originando vários contactos e pertenças, muito para além da residência territorial. Para já e sobretudo, atendamos ao que nos está mais próximo, paróquia a paróquia e setor a sector.

Caríssimos diocesanos, desejo-vos as maiores felicidades pessoais, familiares e comunitárias neste novo ano pastoral. Deus vos abençoe e Nossa Senhora vos inspire - Ela que não demorou na primeira evangelização do mundo, levando em si mesma a Cristo, que todos aguardavam!

Lisboa, 1 de setembro de 2021
+ Manuel, Cardeal-Patriarca, com os irmãos Bispos que comigo servem a Diocese

Dia Mundial dos Avós e dos Idosos

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Os Avós são um tesouro! Eles são o amor que conforta o sorriso que acalma e o carinho que embala o coração. Neles descobrimos a ternura e o amor de Deus.

O Papa Francisco instituiu o último Domingo de Julho como o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos. Este ano iremos solenizar esse dia a 25 de Julho de 2021.
O Santo Padre, na sua Mensagem, destaca três pilares que os avós e os idosos podem oferecer como precioso contributo para construir o mundo de amanhã na fraternidade e na amizade social: os sonhos, a memória e a oração. Pilares que são autênticos caminhos a percorrer por todos nós, inspirados pelas pessoas mais idosas.

Que este dia especial seja de agradecimento aos nossos avós e idosos pelos sonhos, memória e oração que assumem nas suas vidas e que fecundamente transmitem aos mais jovens. Feliz Dia dos Avós e dos Idosos!


Aqui fica a Mensagem do Papa Francisco para este dia:

«Eu estou contigo todos os dias!»

Queridos avôs, queridas avós!
«Eu estou contigo todos os dias» (cf. Mt 28, 20) é a promessa que o Senhor fez aos discípulos antes de subir ao Céu; e hoje repete-a também a ti, querido avô e querida avó. Sim, a ti! «Eu estou contigo todos os dias» são também as palavras que eu, Bispo de Roma e idoso como tu, gostaria de te dirigir por ocasião deste primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos: toda a Igreja está solidária contigo – ou melhor, connosco –, preocupa-se contigo, ama-te e não quer deixar-te abandonado.

Bem sei que esta mensagem te chega num tempo difícil: a pandemia foi uma tempestade inesperada e furiosa, uma dura provação que se abateu sobre a vida de cada um, mas, a nós idosos, reservou-nos um tratamento especial, um tratamento mais duro. Muitíssimos de nós adoeceram – e muitos partiram –, viram apagar-se a vida do seu cônjuge ou dos próprios entes queridos, e tantos – demasiados – viram-se forçados à solidão por um tempo muito longo, isolados.

O Senhor conhece cada uma das nossas tribulações deste tempo. Ele está junto de quantos vivem a dolorosa experiência de ter sido afastado; a nossa solidão – agravada pela pandemia – não O deixa indiferente. Segundo uma tradição, também São Joaquim, o avô de Jesus, foi afastado da sua comunidade, porque não tinha filhos; a sua vida – como a de Ana, sua esposa – era considerada inútil. Mas o Senhor enviou-lhe um anjo para o consolar. Estava ele, triste, fora das portas da cidade, quando lhe apareceu um Enviado do Senhor e lhe disse: «Joaquim, Joaquim! O Senhor atendeu a tua oração insistente».[1] Giotto dá a impressão, num fresco famoso[2], de colocar a cena de noite, uma daquelas inúmeras noites de insónia a que muitos de nós se habituaram, povoadas por lembranças, inquietações e anseios.

Ora, mesmo quando tudo parece escuro, como nestes meses de pandemia, o Senhor continua a enviar anjos para consolar a nossa solidão repetindo-nos: «Eu estou contigo todos os dias». Di-lo a ti, di-lo a mim, a todos. Está aqui o sentido deste Dia Mundial que eu quis celebrado pela primeira vez precisamente neste ano, depois dum longo isolamento e com uma retomada ainda lenta da vida social: oxalá cada avô, cada idoso, cada avó, cada idosa – especialmente quem dentre vós está mais sozinho – receba a visita de um anjo!

Este anjo, algumas vezes, terá o rosto dos nossos netos; outras vezes, dos familiares, dos amigos de longa data ou conhecidos precisamente neste momento difícil. Neste período, aprendemos a entender como são importantes, para cada um de nós, os abraços e as visitas, e muito me entristece o facto de as mesmas não serem ainda possíveis em alguns lugares.

Mas o Senhor envia-nos os seus mensageiros também através da Palavra divina, que Ele nunca deixa faltar na nossa vida. Cada dia, leiamos uma página do Evangelho, rezemos com os Salmos, leiamos os Profetas! Ficaremos comovidos com a fidelidade do Senhor. A Sagrada Escritura ajudar-nos-á também a entender aquilo que o Senhor nos pede hoje na vida. De facto, Ele manda os operários para a sua vinha a todas as horas do dia (cf. Mt 20, 1-16), em cada estação da vida. Eu mesmo posso dar testemunho de que recebi a chamada para me tornar Bispo de Roma quando tinha chegado, por assim dizer, à idade da aposentação e imaginava que já não podia fazer muito de novo. O Senhor está sempre junto de nós – sempre – com novos convites, com novas palavras, com a sua consolação, mas está sempre junto de nós. Como sabeis, o Senhor é eterno e nunca vai para a reforma. Nunca.

No Evangelho de Mateus, Jesus diz aos Apóstolos: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (28, 19-20). Estas palavras são dirigidas também a nós, hoje, e ajudam-nos a entender melhor que a nossa vocação é salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos. Atenção! Qual é a nossa vocação hoje, na nossa idade? Salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos. Não vos esqueçais disto.

Não importa quantos anos tens, se ainda trabalhas ou não, se ficaste sozinho ou tens uma família, se te tornaste avó ou avô ainda relativamente jovem ou já avançado nos anos, se ainda és autónomo ou precisas de ser assistido, porque não existe uma idade para aposentar-se da tarefa de anunciar o Evangelho, da tarefa de transmitir as tradições aos netos. É preciso pôr-se a caminho e, sobretudo, sair de si mesmo para empreender algo de novo.

Portanto existe uma renovada vocação, também para ti, num momento crucial da história. Perguntar-te-ás: Mas, como é possível? As minhas energias vão-se exaurindo e não creio que possa ainda fazer muito. Como posso começar a comportar-me de maneira diferente, quando o hábito se tornou a regra da minha existência? Como posso dedicar-me a quem é mais pobre, se já tenho tantas preocupações com a minha família? Como posso alongar o meu olhar, se não me é permitido sequer sair da residência onde vivo? Não é um fardo já demasiado pesado a minha solidão? Quantos de vós se interrogam: Não é um fardo já demasiado pesado a minha solidão? O próprio Jesus ouviu Nicodemos dirigir-Lhe uma pergunta deste tipo: «Como pode um homem nascer, sendo velho?» (Jo 3, 4). Isso é possível – responde o Senhor –, abrindo o próprio coração à obra do Espírito Santo, que sopra onde quer. Com a liberdade que tem, o Espírito Santo move-Se por toda a parte e faz aquilo que quer.

Como afirmei já mais de uma vez, da crise que o mundo atravessa, não sairemos iguais: sairemos melhores ou piores. E «oxalá não seja mais um grave episódio da história, cuja lição não fomos capazes de aprender [somos de cabeça dura!]. Oxalá não nos esqueçamos dos idosos que morreram por falta de respiradores (...). Oxalá não seja inútil tanto sofrimento, mas tenhamos dado um salto para uma nova forma de viver e descubramos, enfim, que precisamos e somos devedores uns dos outros, para que a humanidade renasça» (Fratelli tutti, 35). Ninguém se salva sozinho. Devedores uns dos outros. Todos irmãos.

Nesta perspetiva, quero dizer que há necessidade de ti para se construir, na fraternidade e na amizade social, o mundo de amanhã: aquele em que viveremos – nós com os nossos filhos e netos –, quando se aplacar a tempestade. Todos devemos ser «parte ativa na reabilitação e apoio das sociedades feridas» (Ibid., 77). Entre os vários pilares que deverão sustentar esta nova construção, há três que tu – melhor que outros – podes ajudar a colocar. Três pilares: os sonhos, a memória e a oração. A proximidade do Senhor dará – mesmo aos mais frágeis de nós – a força para empreender um novo caminho pelas estradas do sonho, da memória e da oração.

Uma vez o profeta Joel pronunciou esta promessa: «Os vossos anciãos terão sonhos e os jovens terão visões» (3, 1). O futuro do mundo está nesta aliança entre os jovens e os idosos. Quem, senão os jovens, pode agarrar os sonhos dos idosos e levá-los por diante? Mas, para isso, é necessário continuar a sonhar: nos nossos sonhos de justiça, de paz, de solidariedade reside a possibilidade de os nossos jovens terem novas visões e, juntos, construirmos o futuro. É preciso que testemunhes, também tu, a possibilidade de se sair renovado duma experiência dolorosa. E tenho a certeza de que não será a única, pois, na tua vida, terás tido tantas e sempre conseguiste triunfar delas. E, dessa experiência que tens, aprende como sair da provação atual.

Nisto se vê como os sonhos estão entrelaçados com a memória. Penso como pode ser de grande valor a memória dolorosa da guerra, e quanto podem as novas gerações aprender dela a respeito do valor da paz. E, a transmitir isto, és tu que viveste a tribulação das guerras. Recordar é uma missão verdadeira e própria de cada idoso: conservar na memória e levar a memória aos outros. Segundo Edith Bruck que sobreviveu à tragédia do Holocausto, «mesmo que seja para iluminar uma só consciência, vale a pena a fadiga de manter viva a recordação do que foi… e continua. Para mim, a memória é viver».[3] Penso também nos meus avós e naqueles de vós que tiveram de emigrar e sabem quanto custa deixar a própria casa, como fazem muitos ainda hoje à procura dum futuro. Talvez tenhamos algum deles ao nosso lado a cuidar de nós. Esta memória pode ajudar a construir um mundo mais humano, mais acolhedor. Mas, sem a memória, não se pode construir; sem alicerces, tu nunca construirás uma casa. Nunca. E os alicerces da vida estão na memória.

Por fim, a oração. Como disse o meu predecessor, Papa Bento (um idoso santo, que continua a rezar e trabalhar pela Igreja), «a oração dos idosos pode proteger o mundo, ajudando-o talvez de modo mais incisivo do que a fadiga de tantos».[4] Disse-o quase no fim do seu pontificado, em 2012. É belo! A tua oração é um recurso preciosíssimo: é um pulmão de que não se podem privar a Igreja e o mundo (cf. Evangelii gaudium, 262). Sobretudo neste tempo tão difícil para a humanidade em que estamos – todos na mesma barca – a atravessar o mar tempestuoso da pandemia, a tua intercessão pelo mundo e pela Igreja não é vã, mas indica a todos a serena confiança de um porto seguro.

Querida avó, querido avô! Ao concluir esta minha mensagem, gostaria de indicar, também a ti, o exemplo do Beato (e proximamente Santo) Carlos de Foucauld. Viveu como eremita na Argélia e lá, naquele contexto periférico, testemunhou «os seus desejos de sentir todo o ser humano como um irmão» (Fratelli tutti, 287). A sua história mostra como é possível, mesmo na solidão do próprio deserto, interceder pelos pobres do mundo inteiro e tornar-se verdadeiramente um irmão e uma irmã universal.

Peço ao Senhor que cada um de nós, graças também ao seu exemplo, alargue o próprio coração e o torne sensível aos sofrimentos dos últimos e capaz de interceder por eles. Oxalá cada um de nós aprenda a repetir a todos, e em particular aos mais jovens, estas palavras de consolação que ouvimos hoje dirigidas a nós: «Eu estou contigo todos os dias». Avante e coragem! Que o Senhor vos abençoe.

Roma, 31 de maio de 2021.

PAPA FRANCISCO

[1] O episódio é narrado no Protoevangelho de Tiago.
[2] Trata-se da imagem escolhida como logótipo do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos.
[3] «La memoria è vita, la scrittura è respiro», in L'Osservatore Romano (26 de janeiro de 2021).
[4] Visita à casa-família “Viva gli anziani”, 12 de novembro de 2012.

António, ‘il Santo’ de Spoleto, de Pádua e de Lisboa

stanthonyEm Itália, sobretudo em Pádua, não vale a pena gastar muito latim (ou italiano) a falar de Santo António! Diz-se ‘il Santo’ e toda a gente sabe de quem se fala! Esta é uma afirmação corrente que aparece também na crónica de ‘uma viagem medieval’ de Gonçalo Cadilhe, ‘Nos Passos de Santo António’. Este escritor viajante decidiu seguir os passos do nosso maior missionário do século XIII que se fez ao mar muito antes dos navegadores empurrados pelo Infante D. Henrique: ‘um dos maiores viajantes da História de Portugal’. Não se ‘atirou’ ao Mediterrânio para alargar o império (nem sequer sabia o que era isso!), mas para aumentar o número dos batizados em Cristo, anunciando o Evangelho em contextos islamizados do norte de África. A sua história já deu para muitos livros, mas vale a pena repegá-la como inspiração para os tempos que correm.

Canonização ‘relâmpago’
Nesta ‘viagem’, inspiro-me em Gonçalo Cadilhe, nos Sermões do Santo e na visita que fiz a Spoleto. Aqui vivi a semana do Retiro anual da minha Comunidade, num convento de Irmãs, plantado na colina em frente a esta cidade tão antiga, bela, simbólica e estratégica. Situada a cerca de 130 kms de Roma, Spoleto tem séculos de história, pois ali passa uma das vias romanas mais lendárias, a Flaminia. E, claro, para a Igreja e para Portugal, há um acrescento de importância: ali foi canonizado Santo António. Logo que pude, desci a colina e subi à cidade. Que beleza, que inspiração! Só descansei quando entrei na magnífica Catedral de Santa Maria Assumpta, que presta homenagem ao lugar e ao evento que fez de António um dos santos mais aclamados da Igreja, após ‘canonização relâmpago’! Aconteceu a 30 de maio de 1232 quando os franciscanos realizavam a sua Assembleia Geral. O Papa de então, Gregório IX, estava presente e quis brindar a fidelidade dos franciscanos ao Papa, bem como a fé dos habitantes de Pádua e decidiu canonizar António, tornando-o modelo de vida cristã e de monge para a Igreja e para o mundo.

Faz-te ao largo!
Voltemos ao princípio. Fernando de Bullhões nasceu em Lisboa, fez-se Agostinho em Coimbra, passando a chamar-se António, provavelmente em homenagem a Santo Antão, Abade do Deserto. Ali passariam franciscanos a caminho de Marrocos que – segundo se soube – foram martirizados. António decide fazer-se franciscano e completar a missão que o martírio não permitira concluir àqueles jovens frades que ele conheceu em Coimbra. Homem culto, atravessa o Mediterrâneo, chega a Marrocos e adoece. Tenta regressar a Portugal, mas os ventos (os do Espírito!) atiraram-no para as costas da Sicília onde se tornou famoso pela pregação e santidade. Decide ir a Assis para uma Assembleia Geral onde encontra S. Francisco.

A arte de anunciar Boa Nova
Assim se mudaria a história de António, tudo por causa da demonstrada eloquência das suas palavras e sermões. Passará por Bolonha, grande capital intelectual de então, para formador dos novos franciscanos. É eleito responsável da Ordem no norte de Itália, faz parte da delegação que vem a Roma encontrar o Papa para definir o estatuto da nova Família Religiosa fundada por Francisco e que não parava de crescer… Pádua será o ponto alto da sua vida, onde ganha fama de sabedoria e santidade extremas.

Em tempo de ‘heresias’, é mandado ao sul de França. Mas ele sabe que as conversões acontecem mais pela pregação da Palavra e pela Fraternidade do que pelo anátema, ódio ou espada. Com esta convicção bem franciscana, António andou por terras francesas onde se tornou conhecido e amado. Depois, deixou a responsabilidade de direcção na Ordem e, de regresso a Pádua, tentou retemperar forças, rezar e escrever alguns dos seus sermões para alimento de quem viesse a seguir. Morreu às portas da cidade, em Arcella, a 13 de junho de 1231. Diz Gonçalo Cadilhe: ‘nesse dia, a História dava outro passinho para fora da Idade Média, a Europa despertava mais um pouquinho de um torpor de mil anos, António terminava a sua viagem’. Seria canonizado, em Spoleto, menos de um ano depois….

Calem-se as palavras!
Atento aos mais pobres, fez da vida um hino à contemplação, à missão e à coerência, optando e pregando um estilo de vida simples, orante e fraterna. Gritou um dia, num dos seus sermões: ‘Calem-se as palavras e falem as obras!’ E um grande admirador seu, o P. António Vieira, quando pregou na Igreja de Santo António dos Portugueses a 13 de junho de 1670 disse do Santo: ‘Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra; para nascer, Portugal; para morrer, o mundo’!

Por isso, não vale a pena ficarmos chateados quando vamos a Zanzibar ou às montanhas da Huasteca Potosina no México e lá encontramos Santo António de Pádua! Queríamos que fosse de Lisboa, mas a verdade é que ele é um Santo sem fronteiras. É de todos. Que a todos inspire e mobilize para uma fraternidade universal.

Pe. Tony Neves
https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-06/antonio-santo-de-spoleto-padua-lisboa.html

«Vejo o meu Senhor!» Era o dia 13 de junho de 1231

S Antonio22Hoje é dia de Santo António! Olhando para este homem, descobrimos nele um grande modelo de fé que soube pautar a sua vida por uma busca constante de Deus na fidelidade ao seu chamamento; um grande evangelizador apaixonado pela verdade e justiça; um homem de coração grande, atento dificuldades das famílias, dos pobres e desfavorecidos.

Filho de ricos comerciantes, Fernando Martins de Bulhões, nasceu em Lisboa, entre 1191 e 1195. Viveu os primeiros anos a dois passos da Sé de Lisboa, onde frequentou a Escola da Catedral. Aos 15 anos entrou no Mosteiro de S. Vicente de Fora, vindo a terminar a sua formação académica no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde foi ordenado Sacerdote, após uma formação séria, cuidadosa e empenhada no conhecimento das Sagradas Escrituras e da Tradição da Igreja.

Em Coimbra vai também conhecer uma comunidade de frades franciscanos que viviam no eremitério de Santo Antão dos Olivais. Receberá depois a notícia que cinco deles estão de passagem a caminho de Marrocos, onde – em 16 de Janeiro de 1220 – serão barbaramente martirizados.

Este acontecimento impressionou tanto o jovem Fernando de Bulhões, que decidiu tornar-se discípulo de Francisco de Assis, seguindo o seu ideal de simplicidade e pobreza. Desejava partir para Marrocos como missionário, redimindo assim a vida daqueles jovens mártires. Fez-se franciscano, recebeu o nome de António e partiu em 1220 para aquele território do norte de África. A doença obrigou-o a regressar a Portugal. O navio que o trazia para Lisboa, devido a uma violenta tempestade, foi desviado para a Sicília, onde irá naufragar, e onde será acolhido por irmãos franciscanos de Messina. Estávamos no começo da primavera de 1221.

Agora, na península itálica, peregrina até Assis, onde vai participar no Capítulo Geral e conhecer Francisco de Assis. É convidado, depois, a integrar a comunidade do eremitério de Montepaolo, perto de Forli – no Norte de Itália, todavia, desejando preservar a sua humildade, António nunca divulgou seus conhecimentos.Antonio22

Em setembro de 1222, os irmãos Dominicanos de Forli convidaram os irmãos Franciscanos para participarem numa cerimónia das Ordenações sacerdotais naquele convento. A determinado momento, o superior dos Dominicanos dirigiu-se aos irmãos Franciscanos, a fim de que um deles usasse da palavra. O Superior do eremitério solicitou, então, ao irmão António que subisse ao púlpito e que dissesse tudo o que lhe fosse sugerido pelo Espírito Santo. A sua sábia intervenção impressionou tanto os presentes, que rapidamente a notícia percorreu toda a região norte da Itália, sendo imediatamente nomeado pregador oficial dos Franciscanos, director de estudos e professor de teologia. Foi Francisco de Assis, que tanto admirou as suas qualidades de sabedoria e sentido missionário, que quis que fosse ele o seu sucessor na orientação da Ordem a que propôs chamar “Frades Menores”.

Foi uma autêntica voz profética no anúncio do Evangelho nos territórios a norte da península itálica e no sul da França, fazendo pontes de comunhão na catolicidade e na verdade.

Enfrentou com firmeza, respeito e mansidão as heresias da época entre os Cátaros e Albigenses, que renovavam as antigas correntes gnósticas e maniqueístas. Com a sua pregação, irá defrontá-los, procurando contrapor-se às suas doutrinas. O conhecimento profundo da Sagrada Escritura deu às suas palavras uma autoridade invulgar, lançando no coração dos ouvintes a solidez do Evangelho. Contra as novas correntes do priscilianismo, defendeu a santidade do matrimónio e a presença real e verdadeira de Cristo no Santíssimo Sacramento.

Testemunhou uma fé comprometida e atuante ao lutar pela aprovação da lei que eliminava a escravidão por dívidas, combatendo também a elevada usura dos banqueiros que exploravam os pobres. A sua pregação era para dar a conhecer a palavra de Deus e ajudar não só a compreendê-la mas a vivê-la, aplicando-a à vida dos seus ouvintes. Este grande homem de Deus, pela forma crítica e assertiva como falava, tornou-se num grande pregador popular, um arauto da Palavra que apelava à conversão de vida, à restauração dos costumes e à vivência da caridade e da justiça evangélicas.

O seu perfil de missionário itinerante, que ia ao encontro das periferias, aponta-nos também a urgência do caminho traçado pelo Papa Francisco para uma Igreja em saída. Fiéis aos sinais dos tempos, somos todos chamados a actualizar a presença de Cristo, Bom Pastor, o enviado do Pai das misericórdias, para salvar e libertar, gerando e fazendo acontecer o Reino de justiça, amor, paz e fraternidade.

Que Santo António fortaleça e ilumine nossa fé, empenhando-nos no anúncio do Evangelho, em comunhão com os anseios do Papa Francisco.

Pe. Alexandre Santos


O Pe. António Vieira pregou, em Roma, três sermões na Igreja de Santo António dos Portugueses. No primeiro desses sermões, encontramos este início, inspirado na passagem bíblica de Mt 5, 14-16: "Vós sois a luz do mundo":

A um português italiano, e a um italiano português, celebra hoje Itália e Portugal. Portugal a Santo António de Lisboa, Itália a Santo António de Pádua. De Lisboa, porque lhe deu o nascimento; de Pádua, porque lhe deu a sepultura… Reparai, diz o evangelista, que António foi luz do mundo. Foi luz do mundo? Não tem logo que se queixar Portugal. Se António não nascera para o Sol, tivera a sepultura onde teve o nascimento; mas como Deus o criou para luz do mundo, nascer numa parte e sepultar-se noutra é obrigação do Sol. Profetizando Malaquias o nascimento de Cristo, diz que nasceria como sol de justiça. E que fez Cristo como sol, e como justo? Como sol mudou os horizontes, como justo deu a cada um o seu. Como sol mudou os horizontes, porque nasceu num lugar e morreu noutro: como justo deu a cada um o seu, porque a Belém honrou com o berço, a Jerusalém com o sepulcro. Assim também Santo António. Se Lisboa foi a aurora do seu oriente, seja Pádua a sepultura do seu ocaso”.

(Pe. António Vieira, Sermões de Roma, ed. Difel, 2009, p. 189-190).

Ser Pai, um desafio de disponibilidade e serviço

SaoJose2013Mensagem da Comissão Episcopal do Laicado e da Família para o Dia do Pai

Neste ano de 2021, no meio da pandemia de Covid 19 que constitui seguramente um dos maiores desafios já enfrentados pela humanidade dada a sua intensidade e amplitude, é especialmente relevante celebrar o Dia do Pai.

Celebrar o Dia do Pai para sublinhar que em momentos de enorme dificuldade e desafio como os que vivemos, o papel do pai e os traços que definem o pai tornam-se ainda mais vivos, ainda mais marcados, ainda mais decisivos:

– O pai como fonte de amor incondicional que consola e que acompanha em todos os momentos;
– O pai como sinal de confiança e de força que dá direção, que desbrava o caminho e que com a esposa conduzem a família no meio das dificuldades, construindo esperança para o futuro;
– O pai que, amando a todos e na reciprocidade, une a família garantindo a coesão e o espírito de entreajuda com todos;
– O pai como exemplo e fonte de sabedoria na vivência do dia a dia perante circunstâncias tão frequentemente incertas e difíceis;
– O pai que na sombra é sinal concreto e vivo do Amor de Deus nas nossas vidas e nas nossas famílias.

A figura do pai é especialmente fulcral porque em momentos como este, e independentemente da religião, da raça ou do país em que cada um vive, a importância da família revela-se fundamental como elemento essencial da nossa humanidade, da nossa vivência, como o núcleo em que cada um de nós se apoia, se identifica e se desenvolve. Em momentos como este, é à família que voltamos, que não coloca condições nem obstáculos a apoiar, a ajudar, a acolher. O pai que somos, o pai que todos temos, tem a bela missão de cuidar e de ser sinal da paternidade de Deus.

Celebrar o Dia do Pai para recordar e pedir pelas situações e circunstâncias concretas e muito difíceis que tantos pais têm vivido ao longo dos últimos meses:

– O pai que, sendo também filho, cuida do seu pai em situações de doença, fragilidade e isolamento;
– O pai que, ao longo destes meses de pandemia, perdeu prematuramente os seus pais ou os seus filhos;
– O pai que se vê confrontado com maior precaridade e instabilidade económica, fruto do contexto económico que enfrentamos;
– O pai que, na linha da frente deste combate, tem sido chamado a um esforço redobrado para equilibrar as suas obrigações profissionais com a sua vida familiar.

Finalmente, em 2021, celebramos o Dia do Pai no contexto do enorme presente que o Papa Francisco deu à Igreja ao declarar este ano como o “Ano de São José”. E São José constitui-se como um grande exemplo e um enorme apoio para todos os pais no contexto das circunstâncias que todos vivemos. Este “Ano de São José” é uma oportunidade para todos conhecermos melhor o pai adotivo de Jesus e o esposo de Maria que desempenhou um papel central na história da salvação e que pode ajudar cada pai a viver plenamente a sua missão.

Rezemos a São José como nos propõe o Papa Francisco:

Salve, guardião do Redentor e esposo da Virgem Maria!
A vós, Deus confiou o seu Filho;
em vós, Maria depositou a sua confiança;
convosco, Cristo tornou-Se homem.
Ó Bem-aventurado José,
mostrai-vos pai também para nós e guiai-nos no caminho da vida.
Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,
e defendei-nos de todo o mal. Amém.

 

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